INFORMAÇÃO E SAÚDE


A CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE FUNCIONALIDADE, INCAPACIDADE E SAÚDE

Elias Tristão da Silva Neto

Maria Cristiane Barbosa Galvão

 

Introdução

Empregam-se no campo da saúde vários instrumentos terminológicos para padronização da informação clínica que é registrada nos prontuários do paciente a fim de viabilizar que todos os profissionais de saúde se comuniquem e realizem suas atividades de forma adequada, reduzindo o número de erros e garantindo a segurança do paciente. Além disso, os instrumentos terminológicos do campo da saúde são essenciais para a gestão das unidades de saúde e dos sistemas de saúde, já que seu uso, nos prontuários dos pacientes, permite mapear quantas pessoas de quais perfis sócio demográficos são afetadas por diferentes condições de saúde (GALVÃO, 2014).

A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) é bem abrangente, abarcando códigos relacionados às funcionalidades biológicas, intelectuais, emocionais e sociais do ser humano. Eis alguns exemplos: d310 Comunicar e receber mensagens orais; d315 Comunicar e receber mensagens não verbais; d320 Comunicar e receber mensagens usando linguagem gestual; d325 Comunicar e receber mensagens escritas; d610 Aquisição de um lugar para morar; d620 Aquisição de bens e serviços; d630 Preparar refeições; d640 Realizar as tarefas domésticas; b5102 Mastigar; d240 Lidar com o estresse e outras exigências psicológicas. A partir dos códigos principais da CIF, o profissional de saúde pode indicar em uma escala, qual o grau de funcionalidade que deve ser associada ao paciente: xxx.0 Não há problema; xxx.1 Problema ligeiro; xxx.2 Problema moderado; xxx.3 Problema grave; xxx.4 Problema completo; xxx.8 não especificado; xxx.9 não aplicável. Assim, caso o paciente não tenha problemas para preparar refeições, o código a ser empregado é: d630.0. Já se o paciente não consegue de forma alguma preparar suas refeições, o código a ser empregado é: d630.4 (ORGANIZAÇÃO, 2004).

Para melhor compreensão da CIF, este texto traz entrevista realizada com a Profa. Dra. Fabiana Faleiros, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), realizada no âmbito da Disciplina Terminologias em Saúde, sob a responsabilidade da Profa. Dra. Maria Cristiane Barbosa Galvão da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, também da USP.

Que é CIF e qual a importância dessa classificação no cenário nacional e internacional?

Profa. Dra. Fabiana Faleiros: A CIF, que também é conhecida como Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde é uma classificação utilizada internacionalmente quando o assunto é deficiência e possíveis limitações. Ela foi criada no ano de 2001 e traduzida para o português no ano de 2003. Desde então vem sendo utilizada como uma ferramenta de classificação extremamente necessária em diversos campos da saúde, em especial nas instituições de reabilitação. O lado positivo da CIF é que ela avalia a funcionalidade, e não a doença. A CIF observa determinada função e permite ao profissional de saúde classificá-la em ausente/leve/moderada/grave/completa/não especificado de acordo com o quadro apresentado pelo paciente. Um dos únicos problemas relacionados ao uso da CIF é que nem todos os profissionais estão familiarizados com ela, o que gera algumas dificuldades em sua aplicabilidade. Por ser uma classificação elaborada pela Organização Mundial de Saúde e proposto em âmbito global, a CIF permite que os países troquem informações e dados sobre os seus indivíduos que se encontram em alguma situação de limitação de saúde ou deficiência de função. Outro ponto que gostaria de destacar é que a CIF não surgiu propriamente dizendo em 2001, pois ela é uma classificação originada da antiga Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens, uma classificação bem mais antiga, acho que era utilizada por volta dos anos 70 e que era conhecida por CIDID. Porém, em 2001, houve a “oficialização” do novo modelo dessa classificação e alteração de nome de Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Desvantagens para Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde.

Como está a aplicação da CIF no contexto brasileiro?

Profa. Dra. Fabiana Faleiros: Alguns hospitais, atualmente, estão em processo de implantação da classificação da CIF em seu atendimento. Na Rede SARAH, por exemplo, a equipe multidisciplinar de saúde ainda está estudando essa classificação. Mas não sei se isso se incorporou de vez nas práticas dos hospitais SARAH. De forma geral, pude entrar em contato com a CIF em alguns momentos de minha atuação e percebi o quanto é importante o seu uso para classificação de incapacidades. Geralmente, esse tipo de classificação é mais utilizado em instituições que trabalham nessa temática de reabilitação, mas isso não significa que a CIF não possa ser empregada também em outros contextos. O que eu percebo, como já disse anteriormente, é que muitos profissionais não são familiarizados com esse tipo de classificação, o que torna ainda mais difícil a sua aplicação, pois se um profissional não sabe utilizá-la, é bem provável que este a deixe de lado em sua sistematização da assistência em saúde. No entanto, vejo que essa classificação deveria ser mais empregada em nosso país, inclusive em instituições que não focam no cuidado de reabilitação. Mas isso também é uma consequência da falta da abordagem desse conteúdo durante a formação profissional. Poucos são, por exemplo, os cursos de enfermagem que apresentam essa classificação para seus alunos. Muitas vezes, o interesse por este conteúdo parte dos próprios alunos, mas só isso não basta. As instituições de ensino devem estimular a inserção deste conteúdo como parte do currículo, isso facilitaria o uso da classificação pelos profissionais de saúde, trazendo ganhos consideráveis para a melhor prestação da assistência e do cuidado em saúde.

Quais são as principais dificuldades dos profissionais de saúde no emprego da CIF?

Profa. Dra. Fabiana Faleiros: A CIF é uma classificação que contempla muitas necessidades humanas básicas. Isso quer dizer que ela não olha só para a doença, mas sim para as alterações que ocorrem a partir de tal doença. É por esse motivo que os profissionais de saúde possuem tanta dificuldade em utilizá-la, pois precisam se atentar a pontos debilitantes e incapacidades que surgem a partir de alguma condição de saúde. Fazer essa análise completa das capacidades apresentadas por um paciente pode ser em muitas ocasiões bem difícil, já que a abordagem biológica da doença ainda é muito difundida no âmbito da saúde. A CIF ela não olha só para essas questões, ela também utiliza uma abordagem mais social de saúde e doença e que hoje percebemos o quão necessário tornou-se este olhar para as questões de saúde. Talvez a dificuldade do uso da CIF possa estar diretamente relacionada com este aspecto, uma vez que o profissional quando foca apenas na doença e acaba se aproximando mais das classificações como foco em doença, como a Classificação Internacional de Doenças (CID).

Fazendo um comparativo com a CID, o que a CIF traz de complementação e como ela pode contribuir com a melhoria da atenção em saúde?

Profa. Dra. Fabiana Faleiros: A CIF traz ao profissional de saúde uma classificação que se foca nas repercussões de uma doença, e não na doença propriamente dita. Enquanto a CID classifica as doenças e os problemas relacionados a saúde humana, a CIF classifica os efeitos dessas doenças e problemas na vida de um indivíduo, entende? Por isso fugir do modelo biomédico do processo saúde/doença é tão importante para compreender o modo como a CIF funciona e como devemos empregá-la corretamente. Além disso, a CIF trabalha também com um sistema de classificar uma incapacidade em ausente, leve, moderada, grave, completa ou não especificada. Isso quer dizer que o profissional de saúde deve, além de observar determinada função do corpo humano e como ela está prejudicada, classificá-la em um destes graus de capacidade que citei anteriormente. Muitas vezes isso transforma-se em um desafio para o profissional, pois este pode encontrar alguma dificuldade em classificar determinada função. Há alguns estudos cujo objetivo é auxiliar o profissional neste momento de classificar incapacidades, um momento importante tanto para o profissional de saúde como para o usuário do serviço de saúde. Outro ponto interessante é que as classificações da CIF podem ser atribuídas a um paciente não só pelo médico, mas também por profissionais da enfermagem, da fisioterapia e outras categorias que trabalham na avaliação, classificação e prestação de assistência para pessoas com incapacidades ou disfunções. Por isso acredito que seja tão necessário incluir pelo menos alguns conceitos básicos sobre essa classificação no currículo desses profissionais. O que acontece é que em muitos casos os profissionais destas categorias vão aprendendo sobre sua importância e como utilizá-la diretamente no cenário prático, quando a instituição de saúde exige que seja atribuído um código da CIF para o paciente que ali é atendido. É nesse momento que o profissional percebe a relevância dessa classificação e começa a aprender como ela funciona, tornando-se gradativamente mais habilitado a utilizá-la.

Quais são suas recomendações para que a CIF seja mais empregada no contexto de ensino e no contexto da prática clínica?

Profa. Dra. Fabiana Faleiros: No contexto do ensino, primeiro penso que observar aspectos da saúde e doença com um olhar mais integral é fundamental para a compreensão do que é a CIF e como diversas funções e capacidades do corpo humano podem ser afetadas por determinadas doenças e condições de saúde. A CIF já é complexa por si só e utilizá-la no cenário prático não deve se transformar em uma dor de cabeça para o profissional de saúde, mas sim em uma ferramenta que complemente a assistência e padronize a linguagem entre os profissionais desta área. Acredito que novos estudos sobre a forma como essa classificação funciona e a sua aplicabilidade nos cenários de saúde do Brasil podem colaborar positivamente para melhorar a sua empregabilidade em diversos serviços. A CIF é na maioria das vezes ligada a assistência de reabilitação, mas ela pode servir para várias outras áreas da assistência que lidem também com funcionalidades e incapacidades. Tratando-se de reabilitação, acredito que muitos aspectos abordados em disciplinas de pós-graduação e residências multiprofissionais focadas nesta temática podem ser incluídos já no currículo de graduandos, e não apenas em etapas de formação que são procuradas somente após a obtenção do diploma. Já estão sendo feitas algumas pesquisas nesta temática, com o objetivo de ressaltar a importância da enfermagem de reabilitação como um componente curricular indispensável para qualquer profissional da categoria. No contexto da prática clínica, creio que seja importante aproximar cada vez mais os profissionais de saúde desta classificação de nível internacional e explicar como sua aplicabilidade pode ser uma boa estratégia para a melhoria da qualidade da assistência.

Conclusão

Os apontamentos apresentados pela Profa. Dra. Fabiana Faleiros evidenciam a necessidade de que as instituições de ensino do campo da saúde incluam nos cursos da graduação conteúdos que contemplem de forma mais adequada os instrumentos terminológicos do campo da saúde. De fato, os instrumentos terminológicos pertencem à linguagem de especialidade. Logo, faz-se necessário uma educação formal sobre eles (CABRÉ, 1995; GALVAO, 2004; GALVAO, 2014).

Adicionalmente, observa-se que na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, a disciplina Terminologias em Saúde tem sido oferecida aos alunos de graduação desde o ano de 2005 e, em cada início de semestre, pode-se notar que o aluno de graduação possui pouca informação e pouca formação sobre a importância das terminologias para o desempenho de suas funções profissionais. Certamente, o debate sobre o assunto precisa ser ampliado.

Referências

CABRÉ, Maria Teresa. La terminología hoy: concepciones, tendencias y aplicaciones. Ciência da Informação, v. 24, n. 3, 1995. Disponível em: <http://revista.ibict.br/ciinf/article/view/567>. Acesso em: 28 jun. 2018. Doi: https://doi.org/10.18225/ci.inf..v24i3.567.

GALVAO, M.C.B. A linguagem de especialidade e o texto técnico-científico: notas conceituais. Transinformação, v. 16, n.3, p. 241-251, 2004. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-37862004000300004&lng=pt&nrm=iso. Acessos em: 28 jun. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-37862004000300004.

GALVAO, M.C.B.. Linguagens de especialidade e a prática profissional. In: Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem. 1ed.Porto Alegre: Artmed, 2014, v. 1, p. 3-23.

ORGANIZAÇÃO Mundial de Saúde. Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde. Lisboa: DGS, 2004. Disponível em: http://www.inr.pt/uploads/docs/cif/CIF_port_%202004.pdf Acesso em: 26 jun. 2018.

Como citar este texto

SILVA NETO, E. T. da; GALVAO, M.C.B. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde. 29 de junho de 2018. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2018. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1141


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.