ALÉM DAS BIBLIOTECAS


ELVIRA VIGNA E “POR ESCRITO”

Casamento é bom para homens. Divisão de despesa, uma cretina que se preocupa com as chati­ces da casa e que emite a cola emocional/afetiva necessária. E nenhuma obrigação de retorno com nenhuma dessas três coisas

(Elvira Vigna, 2014, p. 13).

Elvira Vigna deixou assegurado espaço único como um grande nome da literatura brasileira. Há anos, escutamos seu nome. No meio de mil atividades, fomos deixando para trás o acesso à sua produção. Notícias de vez em quando, como na premiação das obras “Deixei ele lá e vim” (2006) e “O que deu para fazer em matéria de história de amor” (2012), além de outros romances, a exemplo de “Coisas que os homens não entendem” (2002); “Nada a dizer” (2010); “Por escrito” (2014); “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” (2016), referendado com o prêmio “Associação Paulista de Críticos de Arte”, e “A um passo”, publicado em 2018, após sua morte, ocorrida em 2017.

Elvira, escritora e desenhista carioca, 1947, formou-se em literatura pela Nancy-Université (Lorraine, França) e finalizou Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao primar pelo não tradicional, desde os anos 80 / 90, com o lançamento de seus primeiros textos “Sete anos e um dia” (1985); “O assassinato de bebê Martê” (1997); e “Às seis em ponto” (1998), consegue imprimir estilo próprio e um universo particular. Este comporta uma linguagem cortante e nada sentimental para expressar sua visão de mundo impregnada por desesperança, desencontros e muita dor. 

Eis nossa descoberta imediata ao entrar no universo do belíssimo livro “Por escrito”, um dos vencedores do prêmio “Oceanos” de melhor romance. Ganhei como presente de um amigo. Feliz da vida, coloquei-o naquela prateleira que todos (ou quase todos) possuem – os livros que esperam. Observam nossos passos. Sonham com nossos olhos sobre suas letras. Pensam em nossas mãos lhes folheando. Até que enfim, me dei conta de que era chegada a hora. “Por escrito”, lançado em 2014, com 312 páginas e sob encargo editorial da Companhia das Letras, que se manteve fiel à autora ao longo de sua produção, saíra da prateleira para minha mesa de cabeceira. Confesso que não o li. Devorei-o. 

Suas personagens caminham trôpegas em meio à devastação afetiva e emocional ante a história de uma separação. No entanto, ao contrário do que podemos imaginar num primeiro momento, não há mulheres chorando ou chorosas perdidas nos recantos da casa. É o relato de cada personagem que, num vai e volta, se entrelaça o tempo todo. Em linhas gerais, “Por escrito” é uma carta redigida, ao longo de uma viagem a Paris para irmão Pedro que se casará, pela narradora Valderez, a um homem, Paulo, que aparece como um amor antigo, desses que persistem em nossas vidas, quase sempre impregnado de impossibilidade e angústia, como a compositora e cantora Maria Betânia exalta na canção “Eu não existo sem você”: “[...] Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim, que nada nesse mundo levará você de mim. Eu sei e você sabe, a distância não existe. E todo grande amor só é bem grande se for triste [...]” Assim, é possível resumir o cenário central de “Por escrito”: em sua essência, é o indefinido ou o indeterminado. 

Pois bem, como as demais personagens, a exemplo de Molly e Izildinha (Zizi), Paulo vai e volta, entremeando passado, presente e nenhuma ansiedade ante o futuro. Enquanto isto, Valderez passa grande parte de seus dias sentada no que chama de pré-moldados (rodoviárias, táxis, aeroportos e salas de espera), a dissecar a existência dos que a cercam. Veementemente, em distintos momentos de sua obra, expõe sua aversão a qualquer tipo de casamento formal. Por exemplo, diz literalmente:

[...] nesse dia, em que ainda nem começamos o que chamamos de casamento, e que chamamos de casamento [...] sempre rindo que é para deixar claro, para quem escuta e para quem fala, que se trata de coisa ridícula, casamento, e a boca entorta para baixo, as risadas. Mas, nesse dia, em que ainda nem começamos o que depois iríamos chamar de casamento, então não é o casamento que acaba. Não ainda [...] (p. 54).

E Valderez prossegue em crítica sagaz e irônica à instituição casamento: “[...] quando eu voltar, venho de vez pra tua casa, largo as viagens e ficamos os dois, o dia todo, um de costas pro outro, cada um numa tela do facebook. Ô vida boa, né [...]”. Na realidade, a vida da protagonista e das outras personagens exalam desassossego, carregando cada uma suas próprias pedras. São imprevisíveis tal como a autora. Nessa história de desencontros, as pessoas parecem não visualizar quem está à sua frente. Quem está presente vai sumindo, pouco a pouco. Ninguém percebe sua ausência. Mas, de repente, surge quem não era esperado. Trata-se de uma história de esperas, erros e de muita solidão, vivenciada pelas personagens.

No mínimo, eis um romance que consegue diluir todas as relações, mas sem imposição de verdades, até porque Elvira Vigna constrói suas obras em meio a ditos e não ditos, onde as palavras parecem fluir ou voar, deixando como herança para o leitor todas as inquietudes. O texto favorece ao leitor ser ele mesmo um dos coautores da história, haja vista que inexistem certezas no enredo. Como decorrência, compete a ele explorar as possibilidades que o não explícito dos fatos narrados permite: é a troca da certeza absoluta ao fim da leitura por um leque de cogitações, senões e incertezas. É a chance de recriação!

Fonte: VIGNA, Elvira. Por escrito. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2014. 312 p.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”