ALÉM DAS BIBLIOTECAS


BELAS TRAGÉDIAS PODEM ACONTECER

Tragédias locais, nacionais e internacionais. Diante de notícias sobre a morte de vítimas de policiais, bandidos, terroristas e dos mais diferentes facínoras em diferentes nações, incluindo os do Primeiro Mundo e os terceiro-mundistas, simplesmente divago. Penso sobre a natureza humana. Penso sobre nossa capacidade quase ilimitada de bondade e crueldade. Crueldade que se manifesta de formas distintas: delitos graves e inomináveis ou delitos quase imperceptíveis. Neste caso, falo da omissão diante da violenta estratificação social do povo brasileiro: crianças vítimas de maus-tratos, adolescentes analfabetos e/ou drogados, velhos esquecidos num recanto qualquer, mulheres violentadas e/ou vítimas de feminicídio, e assim por diante. Tudo sob o olhar cúmplice dos governantes e dos que teimam em usar, dia e noite ou noite e dia, uma venda que lhes tapa os olhos e lhes obscurece o coração. 

Em meio a devaneios e digressões, deixo de lado a crueldade e foco tão somente na bondade. No sábado, 23 de junho, em clima de comemoração pelo aniversário de 17 anos de um deles, o time juvenil de futebol tailandês “Javalis Selvagens” – 12 crianças e adolescentes de 11 a 17 anos, acompanhados do jovem técnico Ekkapol Chantawong, 25 –, findo o treino, saíram de bike para um passeio por Chiang Rai, capital da província homônima, ao norte da Tailândia. Destino: a caverna Tham Luang. Localizada sob a cadeia montanhosa que separa a Tailândia de Myanmar (países onde já estive), é ela o quarto maior sistema de cavernas do país, o que talvez justifique seu longo nome e significado: Tham Luang Khun Nam Nang Non ou “a grande caverna e fonte d’água da mulher adormecida da montanha.”

O lugar não era novo para o grupo. Lá haviam estado antes, em exploração de grutas e reentrâncias da cadeia montanhosa hostil, percorrendo cerca de mais de 5km em seu interior, sobretudo, nos ritos de iniciação dos novos futebolistas, quando gravavam seus nomes nas paredes. Desta feita, a pretensão: o máximo de uma hora para festejar o grande dia com o aniversariante Sompiangjai. 

Chuvas intensas e contínuas lhes aprisionaram. Toda a água que chegava à montanha, escoava para a caverna. Em vez de uma hora, 18 dias de medo, fome e inquietação. Dias e horas pareciam se estender sem fim, anunciando uma tragédia, na concepção mais genuína de algo que desperta lástima e horror. Literalmente engolidos pela montanha inóspita e rodeados pela escuridão (as precárias lanternas de cada um logo se esgotaram), os pequenos “Javalis...” perderam a noção de tempo. Na condição de ex-monge budista, o técnico Ake ou Ek, como é chamado, recorreu ao autocontrole e ensinou ao grupo técnicas de meditação e os alimentou com o pouco de que dispunham. Água não lhes faltou – jorrava em gotas pelas paredes da caverna. Oxigênio, idem – as rochas porosas permitiam a entrada do precioso ar. Aliás, Ake, recentemente, retomou sua vocação religiosa e está de volta ao mosteiro. 

No entanto, com a localização do grupo por dois mergulhadores ingleses, dia 2 de julho, tudo se transformou numa história de solidariedade, esperança, união e resistência humana que mobilizou cidadãos dos mais diferentes países com a rapidez que só as redes sociais favorecem. Naquele local distante da Ásia, jorraram potes de bondade sob as mais diferentes formas. Voluntários alimentavam os quase 100 estrategistas e mergulhadores que chegavam de nações longínquas e todos que trabalhavam no resgate. Preces budistas ou belas orações em qualquer credo. Vigílias. Peregrinações. Como Deus é sempre misericordioso e não lhe importa a fé professada, na terça-feira, 10 de julho, o último do grupo e Ek foram libertados. 

Comemorações por toda parte. Os meninos tornaram-se heróis capazes de reconhecer a grandeza do mergulhador tailandês, que morreu na tentativa de lhes salvar. Face ao alcance mundial que alcançou, a história dos “Javalis Selvagens” tornou-se numa bela tragédia, por mais paradoxal que a designação soe. Choveram explicações para tanta bondade mundo afora. A mais plausível e certeira é a do “efeito da vítima identificável.” Trata-se de expressão usual nas ciências comportamentais, segundo a qual, o ser humano sensibiliza-se com maior frequência diante de histórias, cujos personagens possuem identidade que lhe aproxima do outro: rosto, nome, idade, etc., como ocorreu com as crianças tailandesas, hoje, salvo um único garoto de religião distinta, estão eles num mosteiro budista se preparando para uma nova vida. 

De fato, há muitos casos funestos que passam desapercebidos. No país fronteiriço, Myanmar (antiga Birmânia), um grupo étnico, com suas crianças e seus adolescentes, foi quase totalmente dizimado. Os rohingyas, praticantes do islamismo, foram mortos ou expulsos brutalmente para Bangladesh. E o que dizer dos casos de brasileiros mirins apartados recentemente dos pais no grandioso Estados Unidos? E os pequeninos africanos, com corpos esquálidos e já encurvados sob o peso das dores do mundo, que chegam às costas dos países europeus amontoados em canoas como animais? Quantos lembraram de nossos seis meninos mortos por policiais há 25 anos na noite de 23 de julho de 1993 no que ficou conhecido como a “Chacina da Candelária”?


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”