ONLINE/OFFLINE


MELVIL DEWEY, QUEM DIRIA ROLANDO TABELA ABAIXO NA BIBLIOTECONOMIA

A coluna, deste mês, até parece extraída de site de fofoca, mas o fato em destaque foi bastante comentado – a decisão da Associação Americana de Bibliotecas – ALA de cassar a medalha “Melvil Dewey”. 

Melvil Dewey, foi o criador do Sistema Decimal de Dewey – CDD. Nasceu em 10 de dezembro de 1851 e faleceu em 26 de dezembro de 1931. Seu nome de batismo era Melville Louis Kossuth Dewey, em homenagem ao reformador húngaro, Lajos Kossuth

Talvez daí decorra a sua inspiração para, entre outras coisas ou atividades realizadas, se autoproclamar reformador e pela obsessão demonstrada na organização da biblioteca do Colégio Amherst, na década de 1870, quando iniciou a reclassificação dos livros lá existentes e a maneira de como eles foram organizados. Convém observar, que ele alterou seu nome para livrar-se do nome do meio e abreviar o primeiro para Melvil.

Mattew Battles, em “A conturbada história das bibliotecas” (Editora Planeta do Brasil, 2003), comenta que Dewey tinha obsessão por eficiência, aspecto que influenciou seus esforços pela ortografia fonética, pela taquigrafia e, em especial, pelo sistema métrico decimal. 

Entretanto, a obsessão dele com a eficiência e a importância dada à autoridade e à hierarquia, bem como seus preconceitos religiosos e socioculturais tornaram-se uma sombra pairando na Biblioteconomia, até agora, com a deliberação da ALA. 

Outro aspecto, também narrado, refere-se à Escola de Economia de Bibliotecas, por ele criada em Colúmbia, onde admitiu a presença de mulheres, o que serviu de motivo para o fechamento do curso, dois anos depois, por pressão dos administradores da Universidade. 

Foi transferido para a universidade estadual de Albany, e o que poderia parecer um gesto pioneiro de apoio aos direitos da mulher, era justamente o contrário. Dewey as admitia em seu curso pela mesma razão que as empregava nas bibliotecas – para rebaixar a profissão. 

No contexto da época, as mulheres eram socialmente subalternas em relação aos homens que tinham cargos nas universidades. Para Dewey, essa subordinação representava exatamente a subordinação dos bibliotecários em relação a professores e especialistas, que ele considerava necessária para o funcionamento eficiente da biblioteca. 

Dewey possui uma história de preconceitos relacionada com racismo, antissemitismo e assédio sexual. Neste contexto, a ALA aprovou em 23 de junho, a retirada do seu nome da principal honraria profissional concedida por ela, a Medalha “Melvil Dewey”. 

A Entidade implementou a medida depois de uma resolução ter sido aprovada com sucesso, na reunião de membros da Associação, durante a Conferência Anual da ALA de 2019, realizada em Washington DC. A resolução aprovada destaca:

§ Em vista da Associação Americana de Bibliotecas conceder a Medalha Melvil Dewey como reconhecimento dos bibliotecários por suas conquistas de liderança criativa recente de alta ordem;

§ Considerando que Melvil Dewey não permitiu que judeus, afro-americanos ou outras minorias fossem admitidos no resort de propriedade de Dewey e sua esposa;

§ Considerando que ele foi censurado pelo New York State Board of Regents pela sua recusa em admitir judeus em seu resort, motivo pelo qual renunciou ao cargo de bibliotecário do Estado de Nova York;

§ Considerando que Dewey realizou inúmeros avanços físicos inapropriados em relação às mulheres com quem trabalhou e exerceu o poder profissional;

§ Considerando que durante a Conferência da ALA de 1906 houve um movimento para censurar Dewey, depois que quatro mulheres se apresentaram para acusá-lo de impropriedade sexual e ele foi banido da organização;

§ Considerando que o comportamento demonstrado por Dewey não representa os valores fundamentais declarados pela ALA como: equidade, diversidade e inclusão;

§ Portanto, resolveu-se que a ALA, em nome de seus membros, renomeie a Medalha, para remover a associação de Melvil Dewey com o prêmio.

Mais conhecido pela comunidade bibliotecária mundial e o público usuário de bibliotecas, por criar o Sistema de Classificação Decimal de Dewey (Dewey Decimal Classification System).

Outro aspecto de repercussão da decisão tomada refere-se ao fato de Dewey ter sido um dos fundadores da Associação Americana, em 1876, e há muito é reverenciado como o “pai da biblioteca moderna”, “pioneiro na educação de bibliotecários” e “pioneiro na criação de oportunidades de carreira para mulheres”, tudo isso apesar de ter sido banido da ALA, em 1906, por causa de seu comportamento pessoal ofensivo à comunidade bibliotecária e a sociedade norte-americana.

Aliás, a partir deste seu banimento, ele não mais participou dos assuntos da ALA, até pelo acerto realizado, ou seja, em troca de uma saída tranquila, ele foi poupado de uma exposição pública de uma de suas maiores falhas de caráter.

Em artigo: Bringing Harassment Out of the History Books: Addressing the troubling aspects of Melvil Dewey's legacy, publicado em junho passado na American Libraries Magazine, Anne Ford questionou por que a ALA e a profissão de bibliotecária ainda associam sua maior honra a um homem cujo legado não se alinha com os valores centrais da profissão. 

Segundo ela, Dewey protagonizou inúmeros avanços físicos, inapropriados, em relação às mulheres, incluindo colegas de biblioteca e a sua própria nora. 

Embora já estivesse condenado ao ostracismo, pela ALA, como resultado do que um bibliotecário certa vez denominou: “ultrajes contra a decência”. Porém, agora, após 88 anos de sua morte, o momento Dewey #TimesUp, parece ter chegado.

A decisão tomada, acontece um ano depois de o Conselho da ALA ter sido novamente manchete na Conferência Anual da ALA de 2018, para renomear o Laura Ingalls Wilder Award, uma honraria prestigiosa que reconhece um autor ou ilustrador cujos livros deram “uma contribuição significativa e duradoura à literatura infantil". 

O prêmio agora é chamado de Prêmio de Literatura Infantil. No caso da citada homenageada, a decisão decorreu do seu manifestado sentimento de preconceito contra indígenas e negros.

Embora, ambos os movimentos mencionados, reflitam a decisão da ALA em alinhar melhor as suas honrarias, com seus valores centrais, os movimentos diferem em pelo menos uma maneira crucial. 

A decisão Wilder veio meses depois que uma força-tarefa da ALA entregou um relatório detalhado sobre o debate acadêmico em torno do trabalho da autora, com funcionários da ALA reconhecendo que “o legado de Wilder é complexo”. 

Já, o legado de Dewey não é tão complexo - apesar de suas realizações profissionais, seu comportamento pessoal foi reconhecido por ser repugnante durante toda a sua vida.

A deliberação do Conselho pela retirada do nome de Dewey, do prêmio da ALA, foi aprovada "de forma unânime" e sem debate. 

Quanto a renomeação da Medalha “Melvil Dewey”, a decisão será encaminhada ao Comitê de ALA, para decidir um novo nome.

Fonte: Albanese, A. ALA 2019: ALA Votes to Strip Melvil Dewey’s Name From Its Top Honor. Disponível em: https://bit.ly/2X40uGI


   383 Leituras


author image
FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.