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PONDO PANIZZI QUENTE NA DISCUSSÃO DO NOVO CÓDIGO

A IFLA (Federação Internacional de Associações de Bibliotecários) por meio do seu Grupo de Estudo sobre os Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR), no período de 1992 a 1995, projetou um modelo de entidade-relacionamento, com uma inovada perspectiva do universo bibliográfico, pretendendo ser independente de qualquer código de catalogação.

 

Os FRBR procuram fornecer uma oportunidade, entre outras, de reexaminar as regras e os princípios de catalogação atuais, bem como atualizá-las. Segundo Tillett, as regras de catalogação eram pouco claras no que tange ao uso das palavras “obra”, “edição”, ou “item”.

 

No período de 2003 a 2007, encontros de especialistas em catalogação por todos os continentes, buscaram atualizar os princípios internacionais da catalogação e ao mesmo tempo esboçar a redação de um novo código.

 

A RDA, segundo Santos e Corrêa, é a nova norma de catalogação que substituirá o AACR2. Pretende ir além dos códigos de catalogação tradicionais ao prover orientações sobre como catalogar recursos digitais e melhor auxiliar os usuários para encontrar, identificar, selecionar e obter a informação desejada. Contribui para o agrupamento de registros bibliográficos visando mostrar relações entre obras e seus criadores.

 

Mas, o reexame das regras e conceitos que sustentam a nova proposta normativa se fundamenta nos construtores da moderna biblioteconomia, um destes construtores é Antonio Panizzi (1797-1879), nascido em uma pequena cidade do norte da Itália, ele era um advogado, envolvido com sociedades secretas e revolucionárias, em seu país. Acusado de conspiração contra o governo italiano, foi obrigado a fugir. Depois de morar na Suíça, se estabelece na Inglaterra.

 

O Museu Britânico foi fundado em 1753. Quando Panizzi é convidado a trabalhar na biblioteca do Museu, decorria 80 anos da criação da instituição, e a sua biblioteca era uma bagunça. Michael Gorman comenta que a biblioteca era uma coleção desorganizada e aleatória de livros cuidada por clérigos e pessoas, que trabalhavam em tempo parcial, sem nenhuma metodologia de trabalho.

 

Em 1825, o Reverendo T. Hartwell Horne apresentou um esquema de classificação e um breve conjunto de regras de catalogação, de sua própria criação; no ano seguinte, ele auxiliado por dois assistentes foram contratados para construir um catálogo classificado.  Em 1834, os curadores do Museu solicitam um relatório sobre o progresso dos trabalhos. Constatou-se, após oito anos, que os assistentes tinham desaparecidos, e Horne havia elaborado uma organização dos materiais tão obscura a ponto de tornar o trabalho inutilizado.

 

Em 1836, Panizzi argumentava que, ao invés de um catálogo classificado, deveria se adotar um catálogo de autores e de índice de assunto. No ano seguinte ele é nomeado bibliotecário-chefe. Agora poderia se encarregar de construir o catálogo que pensava. Para esse propósito, ele precisava de um novo código de catalogação. Com o auxílio de: Edward Edwards, J. Winters Jones, John H. Parry, e Thomas Watts (nomes perdidos na história), e após a interferência do curador principal do Museu, ele elaborou as famosas 91 regras para a compilação do catálogo.

 

Garrido Arilla observa que as regras estabeleceram normas para criar um catálogo geral dos documentos existentes no Museu que amenizasse a lentidão e as deficiências dos sistemas anteriores. O método de trabalho adotado estabelecia liberdade para que cada um dos membros da equipe de Panizzi preparasse seus esboços de regras seguindo os próprios pontos de vista. Posteriormente, as regras eram discutidas em grupo. Não havendo nenhuma discordância, eram aprovadas.

 

Nas regras é definido como registrar nomes de autores e títulos, o que fazer com obras anônimas, e assim por diante. A diretoria do Museu sanciona as regras em 13 de julho de 1839, sendo impressas em 17 de julho de1841, e imediatamente aclamadas. Acreditava-se que com a publicação das 91 regras, todas as controvérsias envolvendo questões da catalogação seriam colocadas em descanso para sempre.

 

Aliás, segundo comentam Barbosa e Garrido Arilla, a publicação das regras provocou um movimento conhecido por “Batalha das Regras”, do qual se envolveram não só bibliotecários, mas usuários do Museu, e até membros da Câmara dos Comuns. Em realidade, a problemática da catalogação apenas começava.

 

Apesar das regras assegurarem certa qualidade nas descrições de cada livro, a elaboração do catálogo impresso da coleção completa foi uma tentativa de seguidos fracassos. Neste sentido, a partir de 1841 seguiram-se as tentativas de impressão do catálogo, em volumes incompletos e projeção de conclusão postergada para anos seguintes.

 

Diante da situação, em 1847, uma Comissão foi instaurada para analisar a gestão do Museu Britânico. A Comissão deu ênfase maior à discussão sobre impressão do catálogo. Interrogado, Panizzi informou que o melhor a ser feito era ter um catálogo completo da coleção até 1854, impresso em 1895.

 

Se olharmos para hoje com os recursos tecnológicos que apoiam o catalogador na construção de um catálogo bibliográfico, e as dificuldades complexas envolvidas, a manifestação de Panizzi, no contexto tecnológico da época não soa absurda.

 

O trabalho de Panizzi não contava com a simpatia de algumas pessoas. Diante da sua abordagem para a catalogação, e a ação da Comissão os fatos atraiam destacada atenção da sociedade científica e de escritores. Apesar de tudo, ele saiu-se bem. Afinal, Panizzi estava instrumentalizado com um conhecimento profundo da biblioteca e do catálogo.

 

Ademais, tinha formação em direito, e da sua experiência como militante político desenvolvera um instinto para o combate verbal. Assim, na medida em que ele era submetido aos argumentos de ataque, estes murchavam diante de sua sustentação. Ele analisou ponto por ponto as colocações feitas, e com grande sucesso até para os seus críticos.

 

Panizzi era um homem que, segundo testemunhas, tinha um hábito irritante de não só estar certo, mas ser capaz de provar esta certeza. Ele foi inocentado quando a própria Comissão decidiu que ele estava correto e os seus opositores, estavam errados.

 

O escritor Thomas Carlyle foi um dos oponentes de Panizzi. Ele, como outras personalidades, pensava que a construção de um catálogo era um simples procedimento de escrever uma lista de títulos. Panizzi demonstrou que era algo mais complexo, envolvia a compreensão de uma “obra” e uma noção clara das necessidades dos seus usuários.

 

Aliás, ainda hoje, há aqueles que pensam que a biblioteca é algo simples de montar e o catálogo, algo semelhante a uma lista de compras que qualquer pessoa pode elaborar. O Brasil, aliás, é cheio desta espécie de “entendidos” e “palpiteiros” na organização de bibliotecas e de suas políticas.

 

Lubetzky e Svenonius comentam que, aos seus inquisidores, Panizzi respondia ser verdadeira a sua exigência para o leitor olhar em dois lugares a informação que ele buscava:

 

é porque eu quero dizer a ele muito mais do que meramente informar se a biblioteca tem ou não um determinado livro [..]; Sim, as minhas regras são complicadas, mas isso é porque minhas regras estão preocupadas não só com o livro como um único e separado item, mas também como um complexo de edições e traduções de potencial interesse para um leitor.

 

Nas palavras de Panizzi,

 

um leitor pode conhecer a obra que queira, mas não se pode esperar que ele conheça todas as peculiaridades das diferentes edições, e esta informação ele tem o direito de esperar dos catálogos.

 

No embate, entre Carlyle e Panizzi, havia dois indivíduos olhando para o mesmo objeto: o livro, mas cada um vendo coisas diferentes. Carlyle viu o livro como um objeto material, uma entidade separada e alheia a qualquer outro livro armazenado na biblioteca, e ele não entendeu o motivo de não estar assim representado no catálogo.

 

Panizzi viu o livro como uma edição de uma obra particular que está intimamente relacionada com as outras edições e traduções da obra que a biblioteca possa ter, e pensou que deveria, portanto, estar integrado com elas.

 

Lubetzky comenta a compreensão do catálogo por Panizzi, da seguinte maneira:

 

Um catálogo adequado, está preocupado com as reais necessidades do leitor, deve ser concebido para dizer não apenas se o livro em particular que o leitor procura está na biblioteca, mas também o que as outras edições da obra e que outras obras do autor, a biblioteca tem. Esse foi o objetivo das regras de Panizzi.

 

Segundo Denton, a carreira de Panizzi no Museu Britânico foi marcada de controvérsias e discussões, mas ele saiu sem culpa das investigações a que foi submetido durante o seu tempo de atuação, e foi responsável por transformar a biblioteca em um organismo importante e respeitado dentro de uma grande instituição em que se tornou o Museu Britânico – e na instauração da famosa Round Reading Room (Salão Redondo de Leitura). Panizzi foi promovido ao cargo de bibliotecário principal em 1856, tendo se aposentado em 1866, e foi nomeado cavaleiro (por interferência de seu amigo, o primeiro ministro William Gladstone), em 1869.

 

As regras de Panizzi são a fonte da moderna catalogação por várias razões:

 

§  Foram desenvolvidas por um grupo e não apenas um homem (embora Panizzi tenha sido a força motriz do processo);

§  Foram submetidas a intensos debates, análises e justificativas;

§  Foram aprovadas por órgãos de governo;

§  Foram usadas em uma grande biblioteca;

§  Receberam a atenção internacional e, na raiz, elas eram boas regras elaboradas por um grande bibliotecário e possibilitou um catálogo melhor do que qualquer outro que houvesse antes.

 

Barbosa comenta que entre as principais características destacam-se: a valorização da página de rosto, a introdução do conceito de autoria coletiva (embora de maneira vaga), a escolha do “cabeçalho” de entrada de um autor, de acordo com a forma encontrada na página de rosto, acatando sempre a vontade do autor.

 

Panizzi não estabeleceu qualquer “afirmação”, mas as “necessidades do usuário”, a “ideia de obra" (embora ele não pensasse dessa maneira), e a “normalização” são todas, parte do seu legado.

 

Garrido Arilla comenta que Panizzi é considerado o pai do catálogo moderno. Para alguns autores, Panizzi foi a força criadora que teve o Museu Britânico. Para outros, o primeiro bibliotecário entre bibliotecários.

 

Independente do pedestal em que colocá-lo, é fato que no momento que se avança na compreensão das novas normas catalográficas (modelagem do FRBR, código RDA), ele continua ainda mais presente.

 

Mas significativa é a ideologia contida nas 91 regras, destacada por Fiuza:

 

O catálogo deve ser visto como um todo. O livro procurado por uma pessoa não é na maioria das vezes, o objeto de seu interesse, mas a obra nele contida; esta obra pode ser encontrada em outras edições, traduções e versões, publicada sob diferentes nomes do autor e diferentes títulos e, consequente, para servir bem ao usuário, o catálogo deve ser planejado para revelar todas as edições, versões, etc. das obras, bem como outras obras geneticamente relacionadas ás que existem na biblioteca.

 

Assim quando se fala em obra, expressão, manifestação e item os princípios podem ser buscados em nosso próprio legado – catalogação.

 

Indicação de Leitura:

 

Barbara Tillett. O que é FRBR?: um modelo conceitual para o universo Bibliográfico. EUA: Biblioteca do Congresso. Disponível em: http://www.loc.gov/cds/FRBR.html

 

Barbosa, A. P. Novos rumos da catalogação. Rio de Janeiro: BNG/Brasilart, 1978.

 

Denton, W. FRBR and the history of cataloging. In: Taylor, A. G. Understanding FRBR: what it is and how it will affect our retrieval tools. Westport: Libraries Unlimited, 2007.

 

Fiuza, M. M. Funções e desenvolvimento do catálogo: uma visão retrospectiva. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v. 9, n.2, p.139-159, 1980.

 

Garrido Arilla, M.R. Teoria e História da catalogación de documentos. Madrid: Sintesis, 1996

 

Gorman, M. Let us now praise... American Libraries, April, 1980.

 

Lubetzky, S.; Svenonius, E. The vicissitudes of ideology and technology in anglo-american cataloging since Panizzi and a prospective reformation of the next century. In: Svenonius, E.;

McGarry, D. (eds.). Seymour Lubetzky: writings on the classical art of cataloging. Englewoog: Libraries Unlimited, 2001.

 

Santos, P.L.V.A.C.; Corrêa, R.M.R. Catalogação: Trajetória para um código internacional. Niteroi: Intertexto, 2009.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.