ALÉM DAS BIBLIOTECAS


TUDO VAI SE HARMONIZANDO PARA A DESPEDIDA INEVITÁVEL

MONTENEGRO, Fernanda; GÓES, Marta. Prólogo, ato, epílogo: memórias. São Paulo, Companhia das Letras, 2019. 342 p.

 

Em “Prólogo, ato, epílogo: memórias”, no marco de 90 anos vividos intensamente e dignamente, com a colaboração da jornalista Marta Góes, Fernanda Montenegro, nascida na manhã de 16 outubro de 1929, na casa da família num subúrbio do Rio de Janeiro (RJ), narra suas memórias numa prosa leve e deliciosa. A obra é o resultado de 18 entrevistas concedidas à jornalista, sobre as quais Fernanda se debruça, acrescentando, modificando, e, talvez, suprimindo, numa tentativa confessada de se autoproteger, pois não se trata de ficção ou de literatura. Ao contrário, é uma memória vivida e revisitada, o que traz consigo certa melancolia e a sensação de precisar dizer de novo – adeus – aos amigos queridos que já partiram. 

De início, no que denomina de prólogo, conta a saga de seus antepassados: lavradores portugueses, do lado paterno; pastores sardos, do lado materno. Ao narrar a chegada ao Brasil dos avós maternos, coincidentemente, no mesmo navio, ano 1897, como integrantes de uma caravana de 800 italianos destinados a trabalhar nos cafezais de Minas Gerais, Fernanda reforça os males que acompanham a imigração desde então, com um desabafo genuíno: “não se é imigrante impunemente” (p. 40). Os portugueses da família paterna, por sua vez, não vieram em levas de imigrantes, mas, sim, para se unir aos parentes que já possuíam chácaras no Rio. 

Recheado de ricos detalhes, contos e recontos sobre sua infância e adolescência, nas primeiras linhas do livro, a menina, nascida Arlette Pinheiro da Silva, posteriormente, Arlette Pinheiro da Silva Torres, confessa: “para meus filhos [o diretor Cláudio Torres Filho e a atriz Fernanda Torres Filha] [...], a saga de nossos antepassados pode parecer um folhetim. Ou uma tragédia” (p. 11). E numa das entrevistas concedidas à mídia (FORTUNA, 2019, não paginado), ainda sobre a pauta da imigração, acrescenta: ao tempo em que meus avós e meus pais deixaram sua terra “[...] e foram acolhidos aqui, aceitaram adotar o sistema de alimentação, vestuário, ritual religioso e de convívio social. Eu já venho dentro dessa sociedade. Embora, na retaguarda, a comida e a maneira das festas lembrassem outra terra, sempre senti em casa a voltagem de ser deste país. Quando nasci, minha mãe já tinha 20 anos de brasilidade, a mesma coisa, o meu pai. Nunca me passou pela cabeça que nós não fôssemos absolutamente brasileiros. Apesar de que isso é uma posição generosa brasileira, não existe lá fora [...]” 

Adiante, na segunda parte do livro, denominada de ato, a autora discorre sobre sua carreira e seu encontro com Fernando Torres, em 1950. Ambos atuavam em companhias teatrais. Ela, nos “Artistas Unidos”; ele, na “Companhia Eva Todor”, após abandonar emprego na empresa aérea Panair. Casaram-se três anos depois, no dia 6 de abril de 1953. Ela, 23; ele, 26 anos. Permaneceram juntos até a morte do ator, 2008. 

A este respeito, ela diz com fina ironia: “um par que permanece unido por 60 anos sempre provoca estranhas, mirabolantes e perversas especulações. Fernando e eu nos juntamos, nos colamos. Explicar? Como? Aliás, para que explicar? Não tem explicação racional nem irracional. Nem esotérica” (p. 92). E prossegue: “o palco deu a mim e a Fernando um campo neutro. É evidente que houve muitas crises destrutivas. Avassaladoras. Devastadoras. Para ambas as partes. E continuamos. Por que continuamos? Tenho muito pudor de dizer a palavra ‘amor.’ Mas que outro sentimento explicaria o mistério de, num olhar, nós percebermos que não chegaríamos a ninguém igual? E também devemos, sim, ao teatro o fato de termos escapado da maldição do tédio, que flagela tantos casais – não tivemos tempo para isso. O palco sempre nos liberou, nos renovou, nos perpetuou” (p. 96).

Ainda nessa etapa da obra, recheada de ilustrações de diferentes naturezas, incluindo fotos e documentos, como a cópia da primeira carta enviada ao amado, a atriz relembra não só a trajetória artística do casal. Ao contrário, traça amplo e rico panorama sobre a situação mundial, com ênfase para os horrores da Segunda Guerra Mundial, e sobre o Brasil, incorporando uma visão macro da situação cultural e política mundo afora, numa prova inequívoca de sua consciência social como cidadã e profissional. Quando da Ditadura Militar, enfrentou a censura. Os primeiros vetos, com a peça “O homem do princípio ao fim”, 1966, de Millôr Fernandes e “A volta ao lar”, 1967, do renomado diretor polonês, Ziembinski. Acredita, porém, que a censura mais traumática foi dirigida à peça “Calabar”, de Ruy Guerra e Chico Buarque, sob direção de Fernando Peixoto e coprodução de Fernando Torres. 

Seu primeiro papel foi como radioatriz na rádio MEC [então Ministério da Educação e Cultura], aos 15 anos, em “Sinhá Moça Chorou”, de Cláudio Fornari. Interpreta Manuela, jovem apaixonada por Giuseppe Garibaldi, guerrilheiro italiano, conhecido como “herói de dois mundos”, face ao seu envolvimento em conflitos no continente europeu e na América do Sul. Como o trabalho na Rádio nem sempre era remunerado, intercalava sua função com a de ensinar português para estrangeiros no Curso Berlitz, onde havia estudado por quatro anos. Mesmo assim, permaneceu na Rádio por 10 anos. De início, como locutora; depois, atriz. Segue em companhias teatrais. Prossegue no cinema. E tudo caminha lado a lado – rádio, teatro, cinema e tevê! Na TV Globo, estreou em 1981, na telenovela “Baila comigo”, de Manoel Carlos, com a personagem Sílvia Toledo Fernandes, escrita especialmente para ela, sob a direção de Roberto Talma e Paulo Ubiratan.

São muitas e muitas as personagens de diferentes estirpes a quem faz alusão. Companheiros nacionais e internacionais de caminhada e/ou de aprendizagem. Diretores, atores, atrizes, comediantes, produtores, literatos etc., etc., a tal ponto que, de forma circunstancial, “Prólogo, ato, epílogo...” consiste em registro histórico da arte, no país, entre os anos 1930 até os dias de hoje. É um documentário confiável do movimento cultural do país ao longo de décadas.

Afinal, “a grande dama do cinema e da dramaturgia brasileira” afirma ao longo de sua obra: “não estou romanceando. Tenho quase um século de vida, portanto posso dizer: “‘era no tempo do rei.’” Dentre os citados, Dulcina de Moraes, idealizadora da Fundação Brasileira de Teatro (FBT), depois, Faculdade de Artes, Brasília – DF; Procópio e Bibi Ferreira; Ítalo Rossi; Glauber Rocha; Paulo Autran; Oscarito; Grande Otelo; Thomas Mann; Aldous Huxley; Ernest M. Hemingway; Carlos Drummond de Andrade; Chico Anysio; Marília Pêra; Elizeth Cardoso; Cacilda Becker; Sérgio Cardoso; Tônia Carrera; Nathalia Timberg; Ítalo Rossi; Nelson Rodrigues e muita gente mais. Este último escreveu três peças para a atriz: “Beijo no asfalto”; “Toda nudez será castigada”; e “A serpente”, mas ela protagonizou tão somente a primeira, 1960. Não houve tempo. O tempo era para a chegada ao mundo da filha Fernanda e o “Anjo Pornográfico” não tardou a partir, em 1980. 

O epílogo, por sua vez, é um hino de amor. “A grande dama” admite que só chega ao topo aqueles que se amparam mutuamente. A vida é uma imensa colcha de retalhos de pessoas. Pessoas que passam por nossa vida. Deixam marcas suaves ou dolorosas. Carregam consigo um pouco de nós e nos deixam um pouco de si. Por isto, confessa não ser uma mulher de certezas: “quando temos muitas certezas [...] corremos o risco de ficarmos circunscritos a uma técnica que nos imobiliza naquele processo domado, dominado, que nos congela” (p. 269). Ao tempo em que agradece a companhia dos filhos e dos netos Joaquim, Davi e Antônio (o trio a quem o livro é dedicado), lembra que ainda conta com uma das duas irmãs, Aída, para assegurar a memória de sua infância e juventude. Num lamento silencioso e quase invisível se queixa da solidão, ao confessar que lhe restam pouquíssimos amigos, aliás, como para mim e, quiçá, para muita gente mais. E prossegue: “tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inarredável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto” (p. 272).

Em termos estruturais, além das três partes centrais que integram a obra – “Prólogo, ato, epílogo...”, há uma longa e detalhada listagem de trabalhos e prêmios. O rol abrange diferentes modalidades: (a) teatro; (b) cinema; (c) telenovelas, minisséries e especiais de tevê; (d) radioteatros e teleteatros; (e) oficinas; (f) prêmios em ordem cronológica – o primeiro, ainda em 1953, como atriz revelação pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais; o último, 2017, menção honrosa no Prêmio Margarida de Prata na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; (g) condecorações. Dentre tantos gestos de reconhecimento, destaque para o Emmy Internacional de Melhor Atriz, 2013, com “Doce de Mãe.” No Festival de Berlim, Urso de Prata, e, também, no âmbito do National Board of Review, o Prêmio de Melhor Atriz, ambos em 1998, com o filme “Central do Brasil”, com o qual foi indicada, em 1999, para o Oscar de Melhor Atriz. Segue, ainda, lista alusiva aos créditos das imagens e, ao final, precioso índice que facilita a leitura e a consulta de “Prólogo, ato, epílogo: memórias.” 

Por fim, a “cidadã do mundo” confessa com simplicidade: “vivo em qualquer lugar, mas, no fundo, é sempre a partir desta minha cidade e deste meu país que eu olho o mundo” (p. 29). E seu olhar diante do mundo e seu enfrentamento diante dos reveses da vida parecem impregnados da força inerente à sua mãe e, sobretudo, à avó materna, sobre quem revela – “ela passou momentos insuportáveis [...], mas não me recordo de vê-la lamurienta, sem energia ao lembrar tais fatos. Era como se fosse um raconto. Uma vivência. Melancolia é um sentimento burguês. O pobre não tem tempo para dar atenção a esse tormento [...] O resistir nos era narrado com energia, com crença, para que nossa história se ‘perpetuasse’ [...] como um fato positivo em mim, nos meus filhos, netos, bisnetos e em quem mais chegasse” (p. 31). Simples assim! Simplesmente Fernanda Montenegro!

 

 

Fonte:
FORTUNA, Maria. Fernanda Montenegro: ensaio a despedida, mas ainda não estou no ensaio geral. O Globo Cultura, Rio de Janeiro, 20 set. 2019. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/fernanda-montenegro-ensaio-despedida-mas-ainda-nao-estou-no-ensaio-geral-23958502. Acesso em 21 nov. 2019.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”