ALÉM DAS BIBLIOTECAS


STÊNIOS DE ONTEM, DE HOJE E DE AMANHÃ

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos – não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.

As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora. Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração - e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar

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“Cerrar Ciclos” (ou “Fechar Ciclos” ou “Encerrando Ciclos”), de Sonia Hurtado.

Nada mais irreversível do que os ciclos de vida. De forma simplista, nascimento, quando a vida se inicia; morte, quando ela se esvai. Entre nascimento e morte, porém, há muito a acontecer. Há muitas variações. Há muitas etapas. Há muitos poréns. Há muitos senões. Afinal, a vida é feita de ciclos, com inícios, meios e fins. Nada é eterno. Em sua essência, a vida é um rio que flui. Em profunda reflexão do “Pai da dialética”, o pensador pré-socrático Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.), ninguém penetra duas vezes no mesmo rio. Quando retornamos a ele em questões de segundos ou de horas, não encontramos as mesmas águas e nós já não somos os mesmos. Tudo é regido pela dialética e/ou tensão e pelo revezamento dos opostos. 

Por sua vez, em termos biológicos, salvo imprevistos ou antecipações, dizemos que a vida humana integra fases centrais. A primeira é a infância, que se estende do nascer até os 11 anos, caracterizando-se pela descoberta do mundo à volta. Na adolescência, entre 12 e 20 anos de idade, as mutações mentais, intelectuais e físicas são profundas. Com a fase adulta, que se inicia aos 21, eis o enfrentamento diante da própria existência, do trabalho, da formação de uma família, da adesão a alguma religião, de hábitos e comportamentos delineados pouco a pouco. Adiante, sorrateiramente, chega a Dona Velhice.

 

 

Fonte: Diferentes sites da Internet, 2020

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o velho (odeio os eufemismos – boa idade / melhor idade / terceira idade / idoso) como alguém com 60 anos de idade ou mais, limite válido para as nações em desenvolvimento, como o Brasil. Os países avançados adotam um ponto de corte de 65 anos de idade, uma vez que há, cada vez mais, indivíduos de 60 a 70 anos, que mantêm excelente qualidade e expectativa de vida e prosseguem ativos e produtivos no mercado de trabalho. De qualquer forma, reforçamos que o ser humano é único e mutável. Pode ocorrer que sua mente e suas condições físicas não reconheçam a rigidez desses marcos. Tudo pode acontecer...

Isto tão somente para externar nosso ponto de vista sobre a demissão do ator Stênio Garcia, 87, da Rede Globo, em 30 de março de 2020, depois de 47 anos de trabalho, com cerca de 60 atuações, incluindo novelas e séries na tevê, além de extensa filmografia. Não nos interessa julgar a emissora; o talento do ator; as futricas de bastidores; sua vida amorosa etc. Nosso intuito é discutir a identificação que eu e, quiçá, muita gente, ainda lúcida, produtiva e sapeca vivenciou com o caso. Vê-lo rogando nas redes sociais e depois ouvindo sua fala reproduzida em canais de tevê e em sites e blogs chacoteadores e inescrupulosos para que lhe devolvessem seu emprego foi algo de cortar o coração. Exibição pública de sua vida financeira. Baque emocional e físico por ele descritos foram cenas muito fortes. Vislumbramos naquele Stênio derrotado e acabrunhado sua dignidade se esvaindo; suas entranhas e vísceras desavergonhadamente expostas.

De imediato, lembramos do já esquecido Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, 59, depois de 18 dias de prisão arbitrária e vergonhosa pela Polícia Federal, ano 2017. Antes do suicídio planejado meticulosamente, registrou a mensagem em que dizia: “minha morte foi decretada quando fui banido da Universidade.” Também fomos banidas da Instituição pela qual e/onde vivemos. Entendemos, sempre, que tal como a natureza caminha em ciclos – suas estações (verão, outono, inverno, primavera) – o sol faz seu giro, a lua marca presença, o planeta Terra roda em torno do sol – temos que encerrar cada ciclo de vida. Há outros que emergem. Há outros que precisam de oportunidades e de espaço. É a renovação da existência e, sobretudo, das instituições.

Nossos relacionamentos evoluem ou involuem. Nossa espiritualidade transmuta-se. Nossos hábitos e comportamentos, idem. Alguém abandona o álcool ou o tabagismo. Alguém se encanta com a meditação e a ioga. E por aí vai. Nosso trabalho avança ou regride: o começo da carreira; o desenvolvimento, que cheira a entusiasmo sem fim; a plenitude, quando alcançamos pleno domínio de nossas funções; a saturação, quando o escanteio velado passa a incomodar; e, por fim, o momento de nos reinventarmos. 

O processo existencial é um fato universal e necessário à alma ao cumprir um ciclo biológico e espiritual do ser humano. Porém, nada nem ninguém tem o direito de impedir que o outro encerre com amor e dignidade cada ciclo de sua vida. Nosso ponto de discussão é COMO o outro fecha / lacra / agride os ciclos de vida dos companheiros. Cada um de nós, no recôndito d’alma, precisamos estar atentos para saber quando um de nossos ciclos se esgotou. Se teimamos em nele estagnar, aos poucos, perdemos a alegria que nos resta para viver, reforçando Sonia Hurtado, quando diz, em seu preâmbulo, que deixamos para trás “[...] o sentido das outras etapas que precisamos viver. E mais, sempre houve stênios. Há stênios. Sempre haverá stênios perdidos mundo afora...


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”