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COVID – 19 NO BRASIL: “E DAÍ?”

 

 

 

“The Lancet” é uma revista científica na área médica, publicada a cada semana para assegurar a atualização e cujos textos são devidamente avaliados por expertos. É uma das mais antigas e renomadas publicações médicas do mundo editada pela Elsevier, Reino Unido, graças à iniciativa do Lancet Publishing Group. Há pouco, em seu volume n. 395, datado em 9 de maio último, o Editorial, seção extremamente importante das revistas, haja vista que expressa a opinião do órgão, em geral, escrito pelo redator-chefe e publicado em destaque, trata nada mais nada menos do que a pandemia do coronavírus no Brasil, utilizando a expressão que “grudou” no Governo Bolsonaro: “E daí?” Decidimos traduzir, haja vista a relevância do texto, que traduz o “olhar do outro” em relação ao nosso país. Segue:

“A pandemia da Covid-19 chegou à América Latina mais tarde do que em outros continentes. O primeiro caso registrado no Brasil foi em 25 de fevereiro de 2020. [Agora, dados atualizados em 13 de maio, apontam 188.974 infectados, dos quais 78.424 (41,5%) são considerados recuperados e 13.149 mortes], provavelmente, dados subnotificados de forma substancial. Ainda mais preocupante: o dobro da taxa de mortes se dá a cada cinco dias. Estudo recente do Imperial College (Londres, Reino Unido), analisou a taxa de transmissão ativa da Covid-19 em 48 países e demonstrou que o Brasil é o país com a maior taxa de transmissão (R0 de 2, 81) (1).

Grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro são as mais atingidas, embora haja preocupações e indícios de que o vírus está se movendo para o interior, ou seja, para cidades menores, com provisões inadequadas de leitos e ventiladores para terapia intensiva. No entanto, talvez a maior ameaça à resposta da Covid-19, no Brasil, seja seu presidente Jair Bolsonaro. Na semana passada, quando questionado pelos jornalistas sobre o número cada vez maior de casos da Covid-19, ele respondeu: “E daí? O que você quer que eu faça?” Ele não apenas continua a semear discórdia, como também desrespeita abertamente as medidas sensatas de distanciamento social e lockdown [bloqueio total ou confinamento] adotados por governadores estaduais e prefeitos, além de perder nas últimas três semanas, dois ministros importantes e influentes. 

Primeiro, em 16 de abril, Luiz Henrique Mandetta, respeitado Ministro da Saúde, foi demitido após entrevista na tevê, na qual criticou fortemente as ações de Bolsonaro e pediu unidade, face ao risco de deixar os 210 milhões de brasileiros totalmente desnorteados. Em 24 de abril, após a exoneração por Bolsonaro do chefe da Polícia Federal do Brasil, o ministro da Justiça Sérgio Moro, uma das figuras mais poderosas do Governo de direita e nomeado por Bolsonaro para combater a corrupção, anunciou sua renúncia. A desordem no âmago do Governo é uma arma mortal em meio à emergência de saúde pública e, também, representa um sinal alarmante de que a liderança do Brasil perdeu sua bússola moral, se é que alguma vez a teve. 

Mesmo sem o vácuo de ações políticas no Governo Federal, na verdade, o Brasil teria dificuldade em combater a Covid-19. Isto porque, cerca de 13 milhões de brasileiros vivem em favelas, quase sempre, com mais de três pessoas por cômodo e acesso sofrível à água potável. Nesses ambientes, recomendações de distanciamento social e higiene são quase impossíveis de serem obedecidas, de modo que muitas favelas se organizaram elas mesmas para implementar as medidas da melhor maneira possível. O Brasil possui significativo setor informal de emprego, com muitas fontes de renda que, na pandemia, sumiram.

Mesmo antes do surto da Covid-19, a população indígena já vivia sob séria ameaça porque o Governo Federal ignorou ou até incentivou a mineração e a extração ilegal de madeira na floresta amazônica. Madeireiros e mineradores, agora, correm o risco de levar a Covid-19 a essas populações remotas. Carta Aberta, 3 de maio, resultante de uma coalizão representativa de artistas, celebridades, cientistas e intelectuais, organizada pelo fotojornalista brasileiro Sebastião Salgado, alerta para um genocídio iminente. 

O que a comunidade científica e de saúde e a sociedade civil estão fazendo numa nação conhecida por seu ativismo e oposição não velada à injustiça e à desigualdade clamando pela saúde como Direito constitucional? Muitas organizações científicas, como a Academia Brasileira de Ciências e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva há muito se opõem a Bolsonaro por causa de drásticos cortes no orçamento da ciência e demolição quase generalizada da previdência social e dos serviços públicos. No contexto da Covid-19, muitas organizações têm lançado manifestos voltados ao público, tal como o “Pacto pela Vida e pelo Brasil”, além de declarações e pedidos formais a membros do Governo em prol da unidade e de soluções conjuntas.

Panelaços nas varandas de casas e de apartamentos como forma de protesto durante os anúncios presidenciais acontecem com frequência. Há muita pesquisa em andamento, da ciência básica à epidemiologia, e se registra produção acelerada de equipamentos de proteção individual, respiradores e kits de teste. Eis ações de esperança.

No entanto, a liderança no mais alto nível do Governo é essencial para evitar, com rapidez, piores resultados dessa pandemia, como é evidente em outros países. Na “Série Brasil 2009”, os autores concluíram: “O desafio é, em última análise, político, exigindo o envolvimento contínuo da sociedade brasileira como um todo para garantir o direito à saúde de todos os brasileiros”. O Brasil como país deve se unir para dar uma resposta clara ao “E daí?” de seu presidente. Ele precisa mudar drasticamente o curso ou deve ser o próximo a seguir...

NOTA

(1) Em meio a uma nova epidemia, um dos muitos indicadores usados pelos especialistas é o número médio de contágios causados por cada pessoa infectada, mais conhecido como R0 (0 de zero).

Texto original:

Editorial. Covid-19 in Brazil: “So what?” The Lancet, Reino Unido, v. 395, p. 1.461, 9 May, 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lancet/PIIS0140-6736(20)31095-3.pdf. Acesso em 10 maio 2020.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”