SALA DE AULA: DIA A DIA NA UNIVERSIDADE


  • A coluna propõe reflexões sobre o dia a dia na universidade e na sala de aula, desafios do início na carreira docente etc. A inspiração advém de conversas com colegas e algumas leituras, sobretudo, das obras "Pedagogia da Autonomia" e "Pedagogia do Oprimido" de Paulo Freire e "Conversas com um jovem professor" de Leandro Karnal.

ROTINA(S) DOCENTE EM TEMPOS DE COVID-19

Não, NÃO ESTAMOS EM FÉRIAS! É necessário deixar isso bem claro e, de preferência, em letras garrafais.

- Mas se vocês não estão dando aula, estão fazendo o quê?

Essa é uma das questões que nos tem sido feita desde o início da pandemia. Com a suspensão das aulas, muitos acreditam que estamos em férias. Sabemos que isso não é verdade! No entanto, talvez a sociedade e o Estado não saibam.

Na rotina docente o formato “home office” sempre existiu, mas nos últimos dois meses ela só aumentou, duplicou, triplicou. Se antes, passávamos de 4 a 6 horas fazendo “home office” somadas a mais 6 ou 8 horas na universidade, faculdade, escola etc., ultimamente temos feito mais de 14 horas na frente do computador e dos dispositivos móveis #emcasa.

- Mas tudo isso fazendo o quê?

Bom, os professores da educação infantil e do ensino fundamental deram continuidade a suas atividades laborais, dentre outras formas, das seguintes maneiras: gravam aulas; utilizam ferramentas de aulas online; criam grupos em aplicativos de conversas instantâneas; mandam vídeos; recebem vídeos; (re)planejam as suas disciplinas, avaliações, atividades; participam de reuniões diárias ou semanais com a equipe pedagógica; e, às vezes, precisam ir até a escola cumprir determinada carga horária. Essa mudança alterou significativamente não apenas a rotina do professor, como do estudante e de sua família, que precisa acompanhar e assegurar que TODAS as atividades serão feitas no horário e tempo estipulados.

Os professores do ensino médio e cursinhos pré-vestibulares, por sua vez, também tiveram que remodelar e reestruturar suas aulas. Afinal, os vestibulares estão aí e o ENEM até então, não havia sido adiado. Para acompanhar a tendência, presente há alguns anos, muitos têm criado canais no YouTube para ministrar aulas e tornar o processo de ensino-aprendizagem com essa nova geração mais prazeroso e interativo. Ainda que essa geração esteja acostumada a estudar em casa e fazendo o uso de fontes audiovisuais, também teve que se adaptar frente ao novo cenário de isolamento e distanciamento social. Se antes, esse processo já era solitário, ultimamente é ainda mais.

No contexto da graduação a situação se agrava um pouco. Digo isto pois a maioria dos calendários das universidades estaduais e federais foi suspenso. As instituições privadas, obviamente, deram continuidade às aulas conforme a tecnologia permite. Na universidade pública, lidamos com docentes e estudantes de distintas gerações, ou seja, coexistem nessa ambiência aqueles que lidam muito bem com a tecnologia, aqueles que possuem uma conta de e-mail e aqueles que sequer tiveram contato com um computador. Muitos inclusive, após ingressar na universidade, continuam sem acesso a computador e internet, pois não dispõem de recursos para tal.

- Ah, que besteira! Todo estudante tem um computador ou celular com acesso à internet!

Esse discurso também não é verdadeiro. Em todos os níveis do ensino, as condições não são iguais. No entanto, ainda que alguns as tenham, será mesmo que estudantes e professores estão preparados, capacitados e até mesmo, dispostos, a retomar as aulas de maneira remota?

Preparados, pois o formato de aulas e atividades online requer preparo prévio, desde a infraestrutura até a cultura do “home office”;

Capacitados, pois não é simplesmente ligar uma câmera e começar a falar e ouvir, se fosse para trabalharmos com a concepção de educação bancária - tanto refutada por Paulo Freire e acredito eu, pela maioria de nós – indicaríamos os vídeoaulas que já estão disponíveis nas plataformas e não teríamos trabalho. No entanto, se pretendemos manter o ensino de qualidade e queremos manter aberto o diálogo e a troca, precisamos pensar no formato dessa aula. Afinal, não fomos capacitados para o ensino EaD. Aliás, não chegaremos nem perto do que se configura o EaD de fato. Estaremos apenas utilizando recursos e tecnologias educacionais online.

Dispostos, pois é necessário que tanto o docente quanto a turma estejam dispostos a aprender e ensinar em novo formato, o que talvez, será uma dificuldade e desafio para muitos.

Além disso, o posicionamento formal da instituição de ensino autorizando, certificando e acompanhando é condição sine qua non para que todas as atividades sejam retomadas.

- Tá, acho que deu pra entender. Não sei se é bem assim mesmo, mas ok. E o que você tem feito nesse período?

A pergunta persiste. Vou indicar algumas das ações que temos feito na graduação: Estudo e muita leitura que antecedem o preparo de aula e (re)estruturação dos conteúdos; Indicações de leitura e materiais relacionados às disciplinas para as turmas; Orientação de TCC, iniciação científica, monografias; Atividades de projeto de pesquisa, ensino e extensão; Correção de textos dos estudantes oriundos de disciplinas já finalizadas e com potencial para publicação científica; Estudo e muita leitura que antecedem a produção científica; Reuniões semanais com os conselhos departamentais e coordenação dos cursos; Manutenção se sites e redes sociais dos cursos; Participação como convidado em lives e palestras online; Participação como ouvinte em eventos, seminários, cursos, lives e palestras online; Emissão de pareceres para artigos de periódicos, livros e capítulos de livro, trabalhos de evento; Leitura e participação em bancas de TCC, monografia, dissertação e tese.

Muitos docentes além de atuar na graduação, também atuam na pós-graduação stricto sensu. Esta, por sua vez, não teve seu calendário suspenso. As agências de fomento e a CAPES não têm como suspender suas atividades. No entanto, esta última prorrogou por três meses o prazo para defesa e as bolsas de mestrado e doutorado. Acredito que muitos programas de pós deram continuidade a maioria de suas atividades. Dentre elas, destaco além das indicadas anteriormente:

- Reuniões dos Grupos de Pesquisa; Planejando e administrando eventos e palestras online; Orientação de dissertação e teses; Supervisão de pós-doutorado; Produção científica atrelada à uma cobrança cada vez maior; Preenchimento e coleta na Plataforma Sucupira (especialmente para os coordenadores).

Essas são algumas das atividades que têm sido feitas diariamente no computador e dispositivos móveis por tantos professores, do ensino infantil ao ensino superior/pós-graduação. Para nós da graduação e da pós-graduação, até que a rotina não mudou, mas se intensificou.

Sim, eu sei que é necessário e urgente se reinventar. Sobretudo, no contexto atual. Concordo e estou disposto. Preparado? Não sei...

No entanto, precisamos ter cautela e manter o diálogo aberto, pensando sempre nas condições sociais, econômicas, psicológicas etc. que interferem no processo educacional.

Não quero dizer aqui que trabalhamos ou fazemos mais que outros profissionais, nem realizar comparações. Muito menos reclamar. A questão não é essa. É explicitar que não estamos em férias.


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PROFESSOR “TEMPORÁRIO”, “SUBSTITUTO” OU “COLABORADOR”?
Janeiro/2020



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JOÃO ARLINDO DOS SANTOS NETO

Professor Colaborador do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2013. Doutor e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista e Bacharel em Biblioteconomia pela UEL.