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O COVID-19 E A SEGURANÇA DA CATALOGAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

O COVID-19 ou SARS-CoV-2 (o seu nome técnico), é a doença do momento. Um tipo de vírus que pode ser fatal em pessoas que apresentem alguma tipologia específica de enfermidade pré-existente ou cardiopatias

A infecção pode ocorrer em duas situações: a pessoa desenvolve os sintomas ou os sintomas não se manifestam (caso das pessoas assintomáticas). A transmissão ocorre pelo contato pessoal, por meio de gotículas respiratórias (quando alguém com o vírus tosse ou espirra e o outro respira), sendo que é preciso estar próximo (menos de um metro e meio). Outra forma de contágio é tocar uma superfície ou objeto contaminado e, em seguida, tocar com as mãos a boca, nariz ou os olhos. 

Em ambas as formas de contágio há um período de incubação (em média 5,2 dias) até o aparecimento dos sintomas. É uma doença invisível e perigosa, justamente pelo fato de a pessoa infectada começar a contaminar outra, antes dos sintomas se manifestarem. A sua disseminação, nos países em que chegou, obrigou a procedimentos específicos, como o isolamento social e causando uma tripla crise de saúde, economia e política.

Neste contexto, as bibliotecas, enquanto modelo econômico e social, tiveram que enfrentar a suspensão de seus serviços, em especial o de atendimento presencial, além do fechamento físico de seus espaços.

Muito embora várias bibliotecas terem procurado desenvolver maneiras criativas de continuar a servir suas comunidades, ao mesmo tempo, precisaram manter as equipes seguras ou pelo menos atendendo aos requisitos de isolamento. 

Assim, vimos surgir o estabelecimento de uma programação on-line de atividades biblioteconômicas; formação de parcerias com escolas e locais de doação de alimentos; ações de auxílio na preparação da “população de rua” em alternativas de abrigo; e na criação de canais de informação para a população em geral sobre procedimentos para enfrentar o Coronavírus. Contribuições bibliotecárias com a finalidade de colaborar com o “achatamento da curva” de contaminação, no ambiente social.

Desta forma, os profissionais de bibliotecas públicas, acadêmicas, escolares e corporativas com as ações adotadas, se esforçam em adequarem suas atividades à auto quarentena. 

O problema agora colocado para as bibliotecas é o pós-pandemia, na adoção de medidas para o retorno das operações de abertura e de funcionamento – um novo normal de operação.

Como o convívio com o vírus é e será a realidade, até que se desenvolva uma vacina eficaz; as bibliotecas terão que adotar protocolos rígidos de funcionamento e de contato com o público.

Para as atividades biblioteconômicas, em especial, relacionadas ao tratamento técnicos, os protocolos precisam ser certificados em procedimentos científicos, no que se refere ao manuseio dos recursos bibliográficos, documentais e outros objetos.

Estudo publicado em janeiro de 2020 no Journal of Hospital Infection, relata que Coronavírus semelhantes ao COVID-19, podem persistir em algumas superfícies inanimadas (metal, vidro e plástico) por até nove dias, e no papel entre quatro a cinco dias; em cobre por até quatro horas; em papelão por até 24 horas; e em plástico e aço inoxidável por dois a três dias. 

Bibliotecas possuem em seus acervos, conteúdos armazenados nestes tipos de suportes. Bibliotecários (as) em geral, e de catalogação em especial, lidam em suas atividades com estes suportes.

Portanto, manter as bibliotecas seguras é importante para os bibliotecários, suas equipes e os seus usuários. Porém, sob a atual pandemia, como as bibliotecas podem ser espaços seguros? 

Principalmente, quando o seu acervo é composto de materiais cujas superfícies são suscetíveis a uma contaminação, decorrente do manuseio pela consulta ou circulação.

Outros estudos, sobre a questão, conduzidos por comunidades médicas e científicas, com base na compreensão da evolução do vírus, têm promovido indicações sobre procedimentos a serem seguidos. 

Exemplo, neste sentido, é o realizado pelo Northeast Document Conservation Center (NEDCC), ao estabelecer recomendações para a comunidade do patrimônio cultural (Arquivos, Bibliotecas e Museus), sobre a maneira mais adequada de desinfetar os recursos e objetos. 

Este, também, é o caso do artigo publicado no New England Journal of Medicine, em março de 2020, no qual é mostrado que o COVID-19 sobrevive em:

  1. Superfícies de papelão por 24 horas. Assim o tempo de quarentena é o indicado para produtos de papel ou papelão comum.
  2. Superfícies plásticas ou de materiais à base de plástico, como CD e DVD, tablets e laptops, por até 72 horas. Assim o tempo de quarentena serve para livros cobertos de poliéster (por exemplo, Mylar) ou outros plásticos.

Observa-se que uma quarentena de 72 horas é indicada para os itens coletados após o manuseio de membros da equipe e pela consulta dos usuários, como a maneira segura e eficiente de desinfetar esses itens. Até mesmo para qualquer outro item sobre o qual o bibliotecário (a) tenha alguma incerteza sobre o período de desinfecção. 

O profissional pode até acrescer 24 horas de tolerância. Até porque, materiais como: DVDs, tablets e laptops, são feitos de superfícies não porosas, onde o vírus pode sobreviver por muito mais tempo.

Em webinar organizado pelo Institute of Museum and Library Services (IMLS), no dia 30 de março, sob o título: “Mitigating COVID-19 When Managing Paper-Based, Circulating, and Other Types of Collections”, foi recomendado adotar tratamento com desinfetantes para os suportes em papelão ou revestidos em plásticos. 

No entanto, comentários efetuados no Twitter apontaram que a promoção de uma segurança dos materiais impressos, poderia camuflar os riscos enfrentados por membros da equipe da biblioteca, que fossem solicitados a supervisionar o recolhimento de publicações ou objetos e sua desinfecção.

O uso de desinfetantes líquidos, embora citados em procedimentos de higienização, pode ser prejudicial aos materiais bibliográficos e arquivísticos. É preciso cautela e orientação técnica. 

A exposição aos raios UVC como meio de esterilização, também não é recomendada. Não apenas os raios UVC são prejudiciais aos materiais, mas, em correspondência eletrônica encaminhada à lista de discussão ALCTS Preservation Administrators' Interest Group list-serv, o Presidente do American Institute for Conservation Health and Safety Committee recomendou o uso de raios UVC, sob altas doses, pelo período de 40 minutos de exposição para matar bactérias; porém o procedimento não desinfecta totalmente os suportes. 

A desinfecção pela luz UVC pode reduzir significativamente a contaminação bacteriana ambiental, entretanto não pode ser usada sozinha, mas complementada com a desinfecção química.

Porém, deve-se ressaltar que, além dos documentos e estudos até o momento apresentados, outros seguem em desenvolvimento para melhor pautar as discussões e os procedimentos no âmbito das agências do patrimônio cultural. É o caso do REALM Project, um plano de teste de materiais, em andamento, apoiado pelo IMLS e a OCLC; e que visa criar e distribuir informações baseadas em procedimentos científicos, para reduzir o risco de transmissão do COVID-19 entre funcionários e visitantes de museus, bibliotecas e serviços de arquivo. 

A pesquisa deve fornecer informações sobre a sobrevivência do vírus em superfícies e como os materiais podem ser manipulados. Este plano de teste é conduzido pelo laboratório Battelle, e irá testar a longevidade do COVID-19; e o tempo necessário para que o vírus seja efetivamente indetectável.

Independente das recomendações técnicas e científicas, é certo que as condições de quarentena irão ter impacto na circulação dos materiais e, também, efeitos sobre os processos de tratamento técnico. 

Afinal, os materiais que chegam pela aquisição, doação e permuta deverão passar pelo mesmo filtro de controle e higienização; bem como, toda a manipulação deve seguir um manuseio procedimental de higiene, rigidamente controlada. A disponibilização do material no acervo para circulação ou consulta terá um retraso de tempo, no acesso e mesmo no serviço de referência de pronta resposta e consulta. Há que dimensionar e alertar aos usuários.

Procede-se, desta forma, a atender a uma questão de segurança direta de toda a equipe da biblioteca, e indireta do público. Os membros da equipe devem ser instruídos e conscientizados da necessidade de usar máscaras e luvas ao tratar os materiais tecnicamente, ou ao mover itens para a quarentena, removendo as luvas imediatamente após a operação, para não tocar acidentalmente em qualquer outra coisa (maçanetas das portas, mesas, cadeiras, equipamentos, outros materiais bibliográficos). 

Após remoção das luvas, deve-se lavar as mãos por 20 segundos, conforme diretrizes do CDC (Centers for Disease Control). Mesmo a adoção de substituição de calçados, em setores como de tratamento técnico, onde a circulação pública é restrita, pode ser adotado pelo tempo de evidência dos perigos de contágio.

Para realização do período de quarentena, espaços físicos devem ser destinados dentro das bibliotecas. E este pode ser um problema para algumas bibliotecas, ou seja, dispor de um local específico no qual a finalidade da desinfecção possa ser realizada. 

Em casos assim, o bibliotecário pode estabelecer como procedimento utilizar sacos para acondicionar os itens, pelos períodos de 24 a 72 ou mais horas, e desta forma evitar lidar acidentalmente com os materiais. Entretanto, o espaço pode ser problema se não existir disponibilidade ou opção de adaptação. 

Neste caso, a utilização das mesas de leitura podem ser alternativas, com a consequente restrição do atendimento ao público, limitado à porta de entrada, como um serviço de delivery para empréstimo e recebimento de material, guardando-se o distanciamento entre pessoas.

Entidades de representação profissional da área, como o Conselho Regional de Biblioteconomia da 8ª região, São Paulo, já manifestam recomendações sobre a abertura de bibliotecas e as medidas de segurança a serem observadas. 

E a manifestação das entidades profissionais ganha significância, na medida em que a equipe da biblioteca pode se colocar a mercê de gestores não bibliotecários, destituídos de maior atenção para com o serviço de informação em condições de pandemia. Especialmente, quando as bibliotecas necessitam de recursos financeiros e de equipamentos de prevenção para operarem em circunstâncias de segurança e preservação da saúde.

O bibliotecário também deve atentar para as implicações jurídicas relativas à transmissão do Covid-19. Questões legais relacionadas ao comportamento de pessoas e que podem causar o agravamento no quadro de transmissão do vírus; a exemplo de infectados que não cumprem a quarentena ou não se utilizam de meios de proteção individual, como máscaras, e que acabam por promover potencial risco de contágio à comunidade local. 

Convém, lembrar que as pessoas assintomáticas, transmissoras do vírus, podem ser identificadas por meio de testes de RT-PCR. No caso da equipe da biblioteca, a instituição irá arcar com os testes? No trato com o público, este é um risco sempre eminente, diante da deficiência das políticas de saúde pública em testar a população.

Indicação de leitura:

Kampf, D. Todt; Pfaender, S.; Steinmann, E. Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with biocidal agents. Journal of Hospital Infection, vol. 104 (2020): p. 246-251. Disponível em: https://bit.ly/3dCnBBG 

van Doremalen, N. et. al. Aerosol and Surface Stability of SARS-CoV-2 as Compared with SARS-CoV-1 (Correspondence). The New England Journal of Medicine. March 17, 2020. Disponível em: https://bit.ly/2XZwoa8. Versão em PDF: https://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056

Fallows, D. The Post-pandemic Future of Libraries. The Atlantic, May 12, 2020. Disponível em: https://bit.ly/2BqmN4l

Reinach, F. Evitar o abre-e-fecha. Jornal O Estado de S. Paulo, 05/06/2020. p. A11.

 


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.