ALÉM DAS BIBLIOTECAS


PROTOCOLO FINAL PARA O ENSINO EM TEMPOS DE PANDEMIA - EDUCAÇÃO AO FINAL DAS PRIORIDADES NACIONAIS

Se a educação consiste em problemática complexa, com múltiplas vertentes, que está na base desenvolvimentista de qualquer nação, no Brasil, os protocolos sobre seu direcionamento frente à pandemia da Covid-19 deveriam ter sido prioritários.

Exatamente, ontem, num desses noticiários que se impõem em nosso dia a dia, escutamos um dos jornalistas enfaticamente afirmar: “pais e educadores de mãos dadas”, referindo-se à crise que se instalou em território nacional diante do impasse de retorno ou não às aulas presencias em tempos da Covid-19 nos diferentes níveis – educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e educação superior (graduação e pós-graduação), incluindo as modalidades educação para jovens e adultos (EJA) e ensino profissionalizante.

É consenso entre os minimamente esclarecidos que a pandemia instalada em, praticamente, todo o mundo, final de 2019 e/ou início de 2020, ainda carrega consigo uma série de questionamentos. O universo do novo vírus está pleno de mistérios e interrogações: como se dá exatamente o contágio; os vitimados e curados podem ser infectados mais de uma vez; as consequências diluem-se por completo, no decorrer dos dias ou permanecerão vida afora; as vacinas serão em dose única ou anuais, et cetera. São questões que invalidam a corrente de “pais e educadores de mãos dadas”, uma vez que há muita imprecisão, muito temor e muita dor, sobretudo, no meio nas famílias que perderam entes queridos.

Há concordância que os riscos se acentuam na educação básica e, em especial, na educação infantil e no ensino fundamental, uma vez que nesse estágio de vida, somos, naturalmente, mais inocentes, mais inconsequentes e mais audaciosos. Porém, o que causa estranheza, mais do que as mentiras que abarrotam nossas caixas de mensagem nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais em geral, é encontrar textos assinados por profissionais de saúde, a exemplo de “O óbvio ululante”. A princípio, o autor reclama do excesso de informações em circulação. De tão férteis e frequentes tornam-se desinformação. Matérias falsas sempre existiram com diferentes roupagens, incluindo as comadres dos pequenos vilarejos ou dos condomínios de luxo ou o chamado “rádio corredor” que grassa nos mais diferentes ambientes. Mais do que antes, o avanço e a expansão das inovações tecnológicas conquistam acentuado relevo, velocidade e alcance, atingindo em cheio a ética da informação.

Ou seja, a indignação do autor diante do fluxo informacional exacerbado é perfeita. Imperfeita é sua fala quando diz, literalmente, que apela “[...] como médico e cidadão para que se pare de ficar repisando fatos conhecidos por todos. É desnecessário realizar mais pesquisas sobre o assunto [...]. De altruísmos científicos e noticiosos, estamos todos cheios e até intoxicados, empeçonhados e envenenados. A verdade quando grita não necessita de comprovações científicas…” Apresenta-se como um dos primeiros neonatologistas brasileiros e Consultor Honorário da Oxford University, além de membro da Academia Recifense de Letras. É assustador ver alguém com tal formação acadêmica ser incapaz de vislumbrar os riscos da pandemia e os benefícios dos estudos em andamento.

O problema, porém, vai além. O gestual “pais e educadores de mãos dadas” exige o direcionamento dos governantes nas esferas federal, estaduais, municipais e locais. Pais e educadores e até os sindicatos não possuem poder de decisão. E aí vem a pergunta que não quer calar: por que os governos criaram protocolos para TUDO, deixando o retorno às aulas para o final? Quase oito meses! Gravem: oito meses! Políticos e governantes pensaram em abertura de cafés, bares e restaurantes; frequência às praias; aos mercados; viagens ou percursos em meios distintos de transportes públicos, incluindo ônibus, aeronaves, trens, metrôs; salões de beleza; academias de ginástica; parques, praças, jardins e zoobotânicos; programas televisivos ao vivo; salas de cinema; espetáculos teatrais; shows; estádios de futebol; prática de outros esportes; corridas de carro; festas populares e religiosas; clínicas odontológicas e de cirurgias plásticas eletivas; comércio atacadista, lojas em geral e shoppings...

Aos que argumentam que a justificativa está na complexidade que ronda a educação e/ou o ensino formal, o bom senso sinaliza exatamente o oposto. Sim, trata-se de terreno intrincado, com múltiplas vertentes, mas que está na base desenvolvimentista de qualquer nação. Então, os estudos / protocolos sobre seu direcionamento frente à pandemia deveriam ter sido prioritários, como em nações avançadas, como Austrália e Nova Zelândia. Afinal: a educação, no Brasil, importa ou não importa? Se a dúvida persistir, basta vasculhar os fatos ocorridos em território nacional, nos intramuros do dito Ministério da Educação nos últimos 20 meses.

Cabe, então, a cada um buscar sua resposta e seu próprio posicionamento, enquanto protocolos racionais para os diferentes níveis de ensino e para as diferentes realidades dos mil brasis não chegam e não deixam desfilar “pais e educadores de mãos dadas”. Para mim, está muito claro: protocolo final para o ensino = educação ao final da lista de prioridades nacionais. É desalentador!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”