ALÉM DAS BIBLIOTECAS


MORTOS EM VIDA

Novo dia de finados. Nova ida ao cemitério e/ou ao templo, qualquer que seja a crença. Nova oportunidade de limpar os túmulos, onde jazem os restos mortais dos que partiram e que, durante um intervalo de tempo, fizeram parte de nossa vida. Nova chance de apaziguar a consciência por erros cometidos na convivência dos que se transmutaram em estrelas luminosas nos céus ou em peixinhos dourados que pairam no fundo do mar. Novo momento de reviver instantes fugidios de felicidade. Muitos sentimentos embaralhados, confusos e difusos.

Afinal, todos nós, salvo raríssimas exceções, sofremos perdas em vida. Grandes perdas. Perdas que persistem como ganhos de dor. Muita dor. Porém, de repente, não mais do que de repente, sinto vontade suprema de chorar mil choros. Lamento os que perdi ainda em vida. Perdas incontáveis. Pessoas que traíram minha confiança, meu amor, minha amizade, meu bem-querer. Pessoas que me negaram colo ou um ombro para me apoiar quando de minhas estações de desesperança. Pessoas que fingiram não se dar conta de minha solidão, de minha quarentena em vida, independentemente de qualquer pandemia. Pessoas que me utilizaram como trampolim para os saltos efêmeros da vida, acreditando, talvez, na escalada montanhosa vitoriosa, e não íngreme, sem lembrar que há pântanos por todos os lados. Pântanos, na acepção de regiões inundadas por águas estagnadas e fétidas, atoleiros e lamaçais.

A essas pessoas – e não foram poucas – devo direcionar um olhar de indulgência e de perdão, de complacência e de compaixão para que ressuscitem em sua plenitude, a cada dia, em busca de ser uma pessoa melhor, capaz de cultivar elementos máximos da grandeza humana – a amizade e a gratidão. É a certeza de que, para nós, presentes dentre os vivos, a passagem e/ou a morte é mera transformação. Fenece o corpo. Ressurge a alma. E os túmulos ora visitados simbolizam tão somente a porta para a imortalidade com seus mistérios insondáveis e segredos impenetráveis à razão humana. Para os que optaram pela cremação, suas cinzas, perdidas em águas de mares profundos ou em terras férteis ou áridas por aí afora, representam a lembrança e, quiçá, uma doce saudade.

De qualquer forma, é evidente que a vida significa tudo o que sempre significou, a depender das expectativas que nutrimos, da tapeçaria de opções que tecemos ao longo do caminho. Há uma inquebrantável continuidade. Por tudo isto, lembremos dos que perdemos – em morte ou em vida – para que dimensionemos sempre um lugar de espera, de reencontro e de perdão. Pode ser aqui. Ali. Numa esquina qualquer. Num parque florido. Numa vereda plana e de extasiante beleza. Num vale florido à beira de um ribeirão. Só não vale recorrer ao “vale de lágrimas”, quando enxergamos o mundo visto como local de sofrimentos insuportáveis.

Afinal, solidão nem é a falta de pessoas ao redor da gente nem tampouco a falta que sentimos de nossos entes queridos que partiram para o céu diáfano e transparente. Solidão é muito mais do que tudo isto. Solidão é a sensação de fracasso, quando buscamos dentro de nós mesmos nossos sonhos e não os encontramos mais em qualquer lugar d’alma que seja. Eles se foram levando consigo nossas alegrias e esperanças. Para sempre!



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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”