LEITURAS E LEITORES


WILL EISNER E A VIDA EM QUADRINHOS

Há pessoas que tendem a omitir de onde vêm. Para outras, a origem é uma força vital. Por exemplo, grandes artistas se aproveitam da vivência, experiência existencial e de seu lugar de origem para fortalecer sua identidade pessoal e expressão artística. Nesse caso, as raízes socioculturais nutrem a formação do sujeito e, ao mesmo tempo, impulsionam a singularidade artística em construção.

O artista Will Eisner parece ter impregnado sua obra com vivências da infância, adolescência, vida adulta e maturidade em Nova York. Ele apresenta a cidade e suas narrativas transmutadas em traços gráficos e diálogos curtos, num ritmo ora frenético, ora silencioso, ora solitário.

Will Eisner (1917 – Brooklyn -/N.Y/ 2005 Lauderdale Lake) nasceu de uma família de imigrantes judeus no Brooklyn e estudou no Instituto DeWitt Clinton, no Bronx. É um dos precursores da indústria de HQs na década de 1930. Além disso, é o criador de The Spirit, um dos personagens mais famosos do mundo dos quadrinhos. Trabalhou com quadrinhos de mensagem educativa tanto para empresas quanto para o governo americano com manuais para o exército, sobretudo no período da Segunda Guerra Mundial.

De cidadão a artista, Eisner participou ativamente da sociedade e, por mais de 6 décadas, caracterizou com sua narrativa gráfica, apoiada em linguagem econômica, precisa, em breves diálogos de mulheres e homens submersos no pântano urbano da Grande Cidade. Além disso, ao criar o gênero graphic novel abriu perspectiva para se compreender e valorizar a produção em quadrinhos, transpondo-a para um enredo com início, meio e fim num único volume com imagem e texto. Eisner fez arte, pensou criticamente acerca dela, pedagógica e tecnicamente, além de produzir livros teóricos a respeito da narrativa gráfica.

O autor esteve no Brasil, sete vezes, de acordo com entrevista* concedida a Jô Soares em 1999. Ao falar sobre suas histórias, das imagens urbanas, Eisner disse “A vida numa cidade como São Paulo ou Nova York é um drama.”

Na introdução da obra “Nova York: a vida na grande cidade/ Will Eisner*”, Neil Gaiman afirma:

Will Eisner era amável. Gentil, amigável, acessível, estimulante, e ainda assim feito de aço. Ele possuía uma praticidade, uma consciência da fragilidade e falibilidades humanas, uma imensa generosidade de espírito. (2014, p.08)

A obra “Nova York: a vida na grande cidade”, em mais de 400 páginas, traz blocos temáticos que formam a unidade do livro, a saber: Nova York: a grande cidade; O edifício; Caderno de tipos urbanos e Pessoas invisíveis, além de apresentar algumas cenas excluídas.

 

 

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Na temática “Nova York: a grande cidade”, Eisner afirma: “Propus-me a compor, aqui, uma série de vinhetas construídas ao redor de nove elementos que, reunidos, são o meu retrato de uma grande cidade... qualquer cidade.” (2014, p.19)

O universo de Eisner evidencia o ser humano. Cada vinheta, cada cena, está intrinsicamente ligada ao existir na cidade, na periferia. Na virulência, na rapidez da cidade que não para, das pessoas que não param, dos dramas individuais que são engolidos pelo anonimato.

A cidade é um organismo vivo, embora as criações humanas sejam feitas de matéria fria, bruta:

Conforme a cidade grande tateia o céu em busca de mais espaço, ela igualmente entoca na terra, procurando lugar para o transporte, criando para si catacumbas como capilares, através dos quais os trens vão e vêm [...] insípidos répteis de ferro [...] serpenteiam através dos labirintos dos edifícios [...] mergulham nas entranhas da cidade. (2014, p.43)

O humano povoa predominantemente as cenas. Eisner apresenta personagens e seus monólogos interiores. Por exemplo, no vagão de um metrô leva o leitor a acompanhar o sonho romântico de um desconhecido com uma bela passageira sentada à sua frente, embora seus olhares nunca se cruzem. Quando ela olha, o outro está fixando outra direção, embora com o mundo interno a fantasiar o relacionamento amoroso entre eles.

No contexto urbano, as latas abarrotadas de lixo são simbólicas de uma sociedade consumista, cujo ter subverte o ser. Assim, o lixo torna-se fonte para os mais pobres: no reaproveitamento de objetos, restos de alimentação, vestuário. Ao mesmo tempo, mantém o trabalho daqueles que fazem a coleta. O caminhão da coleta, quando passa pela rua, transfigura-se em referência para os moradores pelos sons dos recipientes sendo esvaziados e deixados de volta na calçada, geralmente nos mesmos dias e horários.

O lixo é, ainda, um divisor social, pois o autor questiona “Por que o lixo dos ricos é sempre menor que o dos pobres?” (2014, p.65) e a indagação é acompanhada por duas imagens que destacam o armazenamento em frente à porta de um edifício popular, com muitas famílias, em contraste com a porta de uma residência abastada. Nítidas são as diferenças entre o que é descartado pelos pobres do que é descartado pelos ricos. Converte-se o lixo em fonte de vida para a parte pobre da sociedade.

O movimento das ruas e os sons de vários matizes que compõem a sinfonia urbana embalam a vida na grande cidade. Na periferia, camadas de imigrantes buscam subsistir: desde reaproveitar objetos que estão no lixo até usar da água pública por famílias que vivem em ocupação de prédios e, nesse cenário, o hidrante torna-se o manancial que provê o beber, o banhar e o brincar nos dias de calor.

O Edifício, segunda temática da obra, transforma o prédio em personagem central para microscopicamente apresentar as relações humanas que se avolumam dentro, fora e nas imediações do símbolo das grandes cidades. O leitor é levado a acompanhar o nascimento, crescimento e morte de um edifício com mais de 80 anos. No enredo, o prédio é personagem coadjuvante para evidenciar as histórias de quatro fantasmas que tiveram ligação afetiva ou profissional com aquele lugar.

Com isso, acompanha-se a história de Monroe Mensh que, após se omitir na ajuda de uma criança, passou o resto de sua existência tentando trabalhar em prol das crianças desprotegidas da cidade; depois Gilda Green e seu amor por Benny e casamento com Irving; na sequência a história de Antonio Tonatti e sua paixão pela música, embora fosse músico medíocre. Por último, apresenta-se a trajetória de P.J Hammond, o proprietário do Edifício. As quatro personagens estão muito ligadas ao Edifício com sonhos, crescimento, envelhecimento e morte.

A terceira unidade temática da obra, intitulada Tipos Urbanos, o autor assim define:

Viver numa cidade grande pode ser comparado a existir numa selva. Tornamo-nos criaturas do ambiente. A reação aos ritmos e coreografia é visceral, e em pouco tempo a conduta de um morador fica tão singular quanto a de um habitante da selva. Vemos habilidades ancestrais de sobrevivência e mudanças sutis de personalidade afetarem o comportamento. Aqui temos uma espécie de estudo arqueológico de tipos urbanos. (2014, p.238).

Eisner era profundo observador dos tipos que habitam a cidade, mais que isso era um conhecedor da alma humana: das vilanias, das fraquezas, do lado obscuro que habita em cada ser. Por exemplo, na história Tempo de vida, o autor fixa a narrativa numa mesma esquina e o leitor é levado a acompanhar, hora a hora, a cidade e as pessoas em momentos distintos: pela manhã, as atividades físicas, limpeza pública; tumulto da multidão no meio do dia. Quando a tarde vem, a volta das crianças da escola e a proximidade da noite e de seus tipos: volta para a casa, a rua mais vazia e os tipos humanos vão se alterando, aparecem os namorados, os grupos, os ladrões, as brigas e finaliza em uma cama para um morador de rua.  

Na última unidade da obra, intitulada Pessoas invisíveis, apresentam-se três breves histórias: “O Santuário”, “Combate Mortal” e “O poder”. Há uma ligação entre as três narrativas: a invisibilidade humana nas veredas hostis da selva urbana. São pessoas comuns, cotidianas, como em toda a obra e o autor reflete:

Desde a época de minha juventude nas ruas da cidade, me impressionava o anonimato das pessoas ao meu redor. A indiferença das pessoas em relação umas às outras em espaços cheios de gente parecia contraditória à ideia comumente aceita de que as cidades foram criadas para proporcionar segurança. (Introdução a “Santuário”, 2014, p.323)

As pessoas invisíveis Pincus (de Santuário), Morris (de O poder) e Hilda e Herman (de Combate mortal) personificam o mundo urbano e a produção do anonimato, o ser humano anônimo que a cidade produz, embala e depois descarta, sem piedade. As personagens das três narrativas são pessoas que têm bons propósitos, entretanto, a vida lhes é amarga, fria, seca para o sonho, mas aberta à tragédia.

A leitura de Eisner apura os sentidos do leitor, tanto no “texto” visual quanto escrito. Conduz o olhar do externo, do visual, aparentemente factual na vida, para um plano mais amplo, interno, psicológico, do reconhecimento das caraterísticas humanas, do homem em busca de si mesmo, tentando equilibrar-se na tênue linha da sobrevivência do dia a dia. 

Consultas

EISNER, Will. Nova York: a vida na grande cidade/ Will Eisner. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 

Will Eisner no Jô Soares partes 1 e 2 in. https://www.youtube.com/watch?v=URd

 


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.