A (IN)CIVILIDADE ESTÁ NO COCÔ DO CACHORRO
Amanhece,
em duplas,
saem dos prédios
Mulher e Cão
saco plástico na mão
Homem e Cão
saco plástico na mão.
Lado a lado, humanos e caninos
passeiam pelas calçadas
por jardins com vegetação
muito distantes dos jardins das avós,
quase plásticos, frios.
Momento vibrante:
a postos
focinhos despertos
turbinas de cheiros
contato com o mundo externo
com outros de sua raça
latidos
e caudas
em ebulição.
Cheira,
para,
averigua,
talvez aqui...
ali...
xixi
mais adiante o cocô.
Nesse momento,
A dona
O dono
desenrolam sua sacolinha plástica
e, num gesto rápido,
urbano,
recolhem as fezes do canino.
Do aparente gesto civilizado:
da recolha
à dispensa das fezes do animal
na lixeira alheia
no jardim alheio
Ou em qualquer lugar...
reluz, num saco plástico,
o cocô
espalhado pelas calçadas.