LEITURAS E LEITORES


DESAFIOS DA RELAÇÃO PESQUISA, ESCOLA E BIBLIOTECA ESCOLAR

A pesquisa escolar ainda é um nó da escola pública brasileira, principalmente quando se refere aos primeiros anos do Ensino Fundamental, vulgarmente chamado de ensino primário. Por um lado, devido a pouca intimidade com a pesquisa, de outro, pela falta de consenso de procedimentos didáticos e, por último, pela falta de bibliotecas nas escolas.

 

Há alguns fatores que podem ser aventados para justificar a falta de intimidade da escola com a pesquisa. Um deles é que o sistema de ensino que forma o aluno, obviamente formou o professor, ou seja, as mesmas dificuldades (deficiências) e ou qualidades que o ensino tiver, provavelmente, o professor herdará. Assim, se a pesquisa não foi um elemento presente na escola básica do professor, é provável que ele pouco incentive seu aluno, ou que o modelo de pesquisa a ser utilizado será o último mais próximo que teve, ou seja, o da faculdade.

 

No cotidiano escolar podemos encontrar o modelo de pesquisa que, em muitos aspectos, assemelha-se ao modelo universitário. Esse modelo pode até ser compatível aos alunos maiores, que têm autonomia e maturidade escolar, entretanto, não o é para os menores, pois ainda necessitam de acompanhamento próximo, tanto do professor quanto do bibliotecário escolar, para estruturar sua pesquisa, para identificar as fontes apropriadas ao assunto. Assim, para os alunos de Ensino Fundamental há muito que ser feito nesse aspecto, pois falta clareza nos procedimentos a serem usados na escola, inclusive a concepção de pesquisa que a escola tem.

 

A prática da pesquisa no ensino fundamental, em geral, processa-se da seguinte maneira:

 

- o professor solicita um título ou assunto para que os alunos pesquisem. Muitas vezes, não há discussão com a turma a respeito de quais aspectos devam ser pesquisados;

 

- nem sempre é feita a indicação de referências aos alunos, pois o professor não fez o levantamento prévio do material disponível na biblioteca;

 

- geralmente os alunos recebem a data para a entrega do que foi pesquisado, mas nenhuma outra informação que seja substancial para orientá-lo ou acompanhá-lo durante a pesquisa a ser feita;

 

- nem sempre há integração entre a sala de aula e a biblioteca da escola, pois o assunto a ser pesquisado não transitou da sala de aula para a biblioteca. Desse modo, perdem todos: os professores regentes de sala de aula por não trocarem idéias com o responsável pela biblioteca e não terem o levantamento exato das obras existentes na escola, portanto, o trabalho deixa de se enriquecer.

 

- De outro lado, perde o bibliotecário ou professor responsável pela biblioteca que, por não ser informado previamente a respeito do assunto, poderá oferecer materiais menos ricos e adequados aos alunos em menor tempo possível;

 

- do lado dos alunos, em muitos casos, chegam à biblioteca apenas com o assunto, não têm a menor idéia do que vão fazer, do que pesquisar;

 

- no retorno à sala de aula, após a pesquisa, o aluno entrega o material pesquisado, sem, entretanto, haver discussão, troca de informações de como foi?  O que ele descobriu? O que gostaria de comentar? O que a pesquisa lhe acrescentou?  

 

Assim, para encaminhar a pesquisa na escola é necessário que se pense em, pelo menos, dois pólos dessa questão, ou seja, tanto na busca solicitada pelo professor quanto na busca solicitada pelos alunos.   

 

Na escola, antes de se pensar no assunto que o aluno vai pesquisar, é preciso que em reuniões pedagógicas ou cursos seja discutida a relação pesquisa e escola, ou seja:

 

- discutir o conceito de pesquisa pelo qual a escola se pautará;

 

- analisar e propor os procedimentos de pesquisa a serem empregados pela escola;

 

- estabelecer o número de fontes de pesquisa que a escola usará;

 

- explicitar os aspectos que serão solicitados aos alunos (por exemplo, se for ÁGUA, que aspectos o aluno deverá pesquisar);

 

- definir a participação da biblioteca da escola na pesquisa (preparação, seleção de material, ação pedagógica com os alunos);

 

- levantar o acervo existente na biblioteca da escola;

 

- realizar parceria entre a o professor e a biblioteca escolar; 

 

A pesquisa, quase sempre, está ausente das discussões pedagógicas na escola. Reúne-se para planejar os conteúdos a serem trabalhados, mas dificilmente discute-se diretamente a pesquisa, o conceito de pesquisa apropriado à escola.

 

Muitas vezes a escola deixa a pesquisa de lado, pois a sua biblioteca também está de lado, ou por não existir, ou porque não funciona com toda a sua potencialidade, pois a biblioteca é condição indispensável ao desenvolvimento da pesquisa escolar.

 

A quase ausência de discussões acerca da pesquisa no âmbito da escola de ensino fundamental corrobora para a sedimentação de conceitos de senso comum a respeito do assunto, de modo que o ensino perca a dimensão de encaminhamento científico que deve ter no âmbito escolar e passe a repetir fórmulas desgastadas que não contribuem para a maturação investigativa dos alunos.

 

Após essa etapa, a escola deve discutir qual será a participação da biblioteca no apoio à pesquisa. O papel da biblioteca estará condicionado ao trabalho que acontece antes e durante o desenvolvimento da pesquisa.

 

Antes de apresentar o assunto a ser pesquisado para os alunos, é necessário que o professor de sala de aula defina o assunto a ser pesquisado, comunique ao responsável pela biblioteca e dê a ele um prazo mínimo de dois dias para que seja feito o levantamento do acervo existente na escola a respeito do solicitado.   

 

Outro aspecto em relação ao acervo é a busca em sítios da internet, embora ainda não seja muito comum em parte das escolas públicas, mas é uma possibilidade que não deve ser ignorada, pois cedo ou tarde fará parte da rotina da biblioteca escolar.

 

Convém lembrar que a pesquisa por meio da internet requer alguns procedimentos prévios da escola, ou do professor, dentre eles, destacamos a seleção prévia dos sítios de busca; a restrição ou não de acesso e como selecionar o texto a ser utilizado, entre outros aspectos.  

 

Feitos esses procedimentos iniciais, é hora de se definir qual será o enfoque a se dar ao assunto. Que aspectos a biblioteca disponibilizará aos alunos, por isso, os alunos devem ter os itens solicitados para a pesquisa por escrito, no caderno, para que também possam se orientar ao buscar o assunto.

 

Nas pesquisas escolares ainda predominam as indicações dos professores, pois a concepção de pesquisa está relacionada diretamente ao conteúdo da sala de aula. Mas e as dúvidas que surgem nos alunos? Há espaço para que sejam pesquisadas? O cotidiano escolar necessita proporcionar momentos de busca que mitiguem a curiosidade infantil.   

 

A escola deve estimular a pesquisa, ou seja, levar o aluno à busca de respostas para seus predicamentos, à reflexão, à discussão e, principalmente, a compartilhar o fruto de suas investigações, quer sejam elas solicitadas ou não pelo professor.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.