A BIBLIOTECA DO BIBLIOTECÁRIO


  • Coluna voltada para a discussão de textos que abordem temas de interesse da área da Ciência da Informação

ORTEGA Y GASSET E A MISSÃO DO BIBLIOTECÁRIO

Pierce Butler, em sua obra An introduction to library science, originalmente publicada em 1933 e tendo uma tradução brasileira, lançada em abril de 1971 [Introdução à ciência da biblioteconomia. Rio de Janeiro: Lidador, 1971. 86 p.], ao comentar o comportamento do bibliotecário, cunhou a expressão “simplicidade do seu pragmatismo” para relacioná-la com o exercício da sua profissão. A razão dessa expressão foi ocasionada pelo fato de que

 

“ao contrário de seus colegas em outros campos da atividade social, o bibliotecário, por estranho que pareça, desinteressa-se pelos aspectos teóricos de sua profissão. Parece possuir uma imunidade peculiar a esse tipo de curiosidade (...) O bibliotecário aparentemente permanece isolado na simplicidade do seu pragmatismo: uma racionalização de cada processo técnico imediato, tomado isoladamente, parece satisfazer seu interesse intelectual. Na verdade, qualquer esforço para generalizar tais racionalizações na tentativa de compor uma filosofia profissional parece-lhe não apenas inútil, mas definitivamente perigoso” (BUTLER, p. ix-x).

        

Mas, por que estou falando dessa simplicidade do pragmatismo existente na maioria dos bibliotecários? É para assinalar a importância da tradução para a nossa língua, do ensaio de José Ortega y Gasset, intitulado Missão do bibliotecário [Brasília: Briquet de Lemos Livros, 2006. 82 p.]. Tendo sido originalmente publicada em 1935, estranhamente, a obra só apareceu em português setenta anos depois! Mesmo assim, ela veio dar uma grande contribuição para a escassa bibliografia brasileira na área de filosofia da biblioteconomia.

 

Seu conteúdo faz parte do discurso inaugural proferido pelo filósofo espanhol – na época, ministro da educação – em 20 de maio de 1935, por ocasião da abertura do Segundo Congresso Internacional de Bibliotecas e Bibliografia, realizado em Madri. Complementa e enriquece a tradução brasileira o posfácio, elaborado por Antonio Agenor Briquet de Lemos, intitulado “Circunstância e recepção de Missão do bibliotecário” (p. 57-82).

 

Nessa obra, Ortega y Gasset começa comentando que “missão significa, antes de tudo, aquilo que um homem deve fazer em sua vida. Pelo visto, a missão é algo exclusivo do homem” (p. 3). Mais adiante, reforça esse conceito ao afirmar que “eis que toda vida humana tem uma missão. Missão é isto: a consciência que cada homem tem de seu mais autêntico ser, daquilo que está chamado a realizar” (p. 7). A seguir, analisa a missão profissional, pois “a vida é, sobretudo, trabalho. Não nos damos a vida, mas é ela que nos é dada. (...) para viver devemos estar sempre fazendo algo, sob pena de sucumbir. Sim, a vida é trabalho. Sim, a vida dá trabalho, e, o maior de todos, acertar fazer o que é preciso fazer. (p. 7-8).

 

O intelectual espanhol aponta que “as profissões são tipos de atividade humana de que, pelo visto, a sociedade necessita. E um deles, há cerca de dois séculos, é o do bibliotecário” (p. 11). Adiante, o autor aponta para a existência de uma dualidade: “a missão do homem, o que cada homem deve fazer para ser o que é, e a missão profissional, em nosso caso a missão do bibliotecário, o que o bibliotecário deve fazer para ser um bibliotecário” (p. 12). Ele também pondera que o bibliotecário “ao exercer uma profissão, compromete-se a fazer o que a sociedade necessita. (...) para determinar a missão do bibliotecário, é preciso partir (...) da necessidade social a que serve vossa profissão. E esta necessidade, como tudo que é propriamente humano, não consiste em uma magnitude fixa, mas é, essencialmente, variável, migratória, evolutiva; em suma histórica” (p. 13, 16).

 

Portanto, como vemos, essa necessidade social é mutável ao longo do tempo e “o trabalho do bibliotecário variou sempre em função, rigorosamente, do que o livro significava como necessidade social” (p. 16). Como é sabido, historicamente o livro cumpriu diversas necessidades sociais ao longo dos séculos, assim

 

“durante a Idade Média, a ocupação com os livros ainda é infra-social, não aparece para o público: está latente, secreta, pode-se dizer, intestina, confinada no recinto secreto dos mosteiros. (...) Ser guardião dos livros não era algo especial. Somente no alvorecer do Renascimento é que começa a delinear-se na área pública, a diferençar-se dos outros tipos genéricos de vida, a figura do bibliotecário. (...) é precisamente a época em que, também pela primeira vez, o livro é sentido socialmente como necessidade. (...) Neste sentido, digo que até o Renascimento a necessidade do livro não foi vigência social. E como foi então que se tornou vigência social aí vemos surgir imediatamente o bibliotecário como profissão” (p.18-20).

 

Nessa fase do Renascimento “a catalogação não é ainda urgente. A aquisição e a produção de livros, em compensação, adquirem traços de heroísmo. Estamos no século XV” (p. 21). Passaram-se três séculos e o autor argutamente indaga:

 

“o que aconteceu entrementes com os livros? Publicaram-se muitos e a impressão tornou-se mais barata. São tantos os que existem que se sente a necessidade de catalogá-los. (...) Agora se sente a necessidade não de buscar livros – isso deixou de ser um problema real – mas de promover a leitura e buscar leitores. E, de fato, nessa etapa as bibliotecas se multiplicam e com elas os bibliotecários. Já é uma profissão que ocupa muitas pessoas” (p. 21-22).

        

Continuando, Ortega y Gasset, como se fosse numa aula de história, comenta que a Revolução Francesa transformou a sociedade européia. Para ele

 

“esta sociedade foi consequência última daquela fé no livro sentida pelo Renascimento. A sociedade democrática é filha do livro, é o triunfo do livro escrito pelo homem escritor sobre o livro revelado por Deus e sobre os livros das leis ditadas pela autocracia. (...) O livro tornou-se socialmente imprescindível. É a época, por isso, em que surge o fenômeno das enormes tiragens. (...) O Estado oficializa as ciências e as letras. Reconhece no livro uma função pública e o considera um organismo político fundamental. Em virtude disso, a profissão de bibliotecário se converte em burocracia, por uma razão de Estado. Chegamos, pois, (...) à fase em que o livro se tornou uma necessidade imprescindível” (p. 24-26).

 

Em seguida, o filósofo espanhol aponta que, no Ocidente, até os meados do século XIX, o livro era uma necessidade social e também um instrumento benéfico por minorar as dificuldades de conservar todas as idéias. Porém, já no século seguinte, com o aumento das tiragens e de novos títulos, em toda a Europa existia a impressão de que havia “demasiados livros, ao contrário do que acontecia no Renascimento. O livro deixou de ser um desejo e é sentido como um peso. O próprio homem de ciência adverte que uma das grandes dificuldades de seu trabalho está em orientar-se na bibliografia do seu tema” (p. 34). Aqui, Ortega y Gasset aponta para o fenômeno que, tempos depois, seria denominado “explosão documental”.

 

Assinala-se aqui que foi no século XX, que ocorreu o enorme incremento no volume de informação registrada e também das pessoas alfabetizadas, potencialmente produtoras de novos documentos. Daí a aceitação do uso da metáfora “explosão” para qualificar esse contexto como explosivo. Para domar essa “explosão” é sugerida uma nova missão para o bibliotecário, pois, até aquele momento, esse profissional tinha “se ocupado principalmente do livro como coisa, como objeto material. A partir de hoje terá que cuidar do livro como função viva: terá de exercer a polícia do livro e tornar-se domador do livro enfurecido” (p. 39).

 

Agora é preciso ver o livro como conflito. Nesse ponto o autor espanhol analisa três tópicos relacionados com essa situação conflituosa. O primeiro tópico se refere ao volume de livros, pois “mesmo reduzindo bastante o número de temas a que cada homem dedica sua atenção, a quantidade de livros que ele precisa absorver é tão gigantesca que supera os limites de seu tempo e sua capacidade de assimilação” (p.40). Assim, para penetrar nessa “selva de livros” serão necessários novos instrumentos. Neste ponto, de forma interessante, Ortega y Gasset propõe uma “estatística de idéias” – conceito anteriormente denominado bibliometria, em 1934, por Paulo Otlet, em seu clássico Traité de documentation – para determinar “com rigor o instante cronológico quando nasce uma idéia, o processo de sua difusão, o período exato durante o qual perdura como vigência coletiva e, por fim, a hora do seu declínio” (p. 42).

 

Nesse mesmo tópico o autor, dez anos antes do surgimento do primeiro computador, sugere a criação de “uma nova técnica bibliográfica de um automatismo rigoroso” (p.43). É possível que aqui esteja a semente da idéia de utilização dos enormes potenciais do que hoje conhecemos por tecnologia da informação em prol da modernização do fluxo informacional. Foi acertada, portanto, a intuição do filósofo espanhol de uma ordenação rigorosa e rápida da bibliografia, felizmente conseguida com a utilização, cada vez mais crescente, do computador e da internet.

 

No segundo tópico, o autor ao comentar essa explosão documental sugere que a profissão do bibliotecário “será incumbida pela sociedade de regular a produção do livro, a fim de evitar que se publiquem os que forem desnecessários e, que, em compensação, não faltem aqueles que são exigidos” (p. 43-44). É sugerido que o bibliotecário tenha um novo papel profissional, quase similar ao de censor. Essa ideia, conforme comentada no posfácio provocou enormes discussões em diversos países.

 

No último tópico, é apontada a importância do futuro bibliotecário “orientar o leitor não especializado na selva selvaggia dos livros, e ser o médico, o higienista de suas leituras” (p. 45). Aqui Ortega y Gasset está propondo ações relacionadas com o treinamento e educação do usuário. É possível que também esteja sugerindo uma seleção criteriosa dos volumes contidos nos acervos e nas indicações de leituras. Ao final deste tópico, o filósofo mencionou uma frase muito conhecida em nosso contexto: “nesta dimensão de seu ofício imagino o futuro bibliotecário como um filtro que se interpõe entre a torrente de livros e o homem” (p. 46). Propôs, portanto, que o bibliotecário seja o mediador/avaliador entre o documento e o usuário – um conceito que perdura até hoje.

 

Nota-se, assim, que veio em boa hora o lançamento da Missão do bibliotecário. Esse ensaio tem sido reeditado com frequência, traduzido para vários idiomas e objeto de inúmeras discussões e debates em artigos de periódicos, cursos e teses acadêmicas. Esse lançamento veio facilitar o acesso por parte do aluno de biblioteconomia à fonte original e, para o bibliotecário, a chance de sair um pouco do seu pragmatismo exacerbado, parando um pouco para refletir sobre uma filosofia da profissão sugerida sete décadas atrás pelo grande Ortega y Gasset. Suas idéias ainda são válidas e precisam ser conhecidas, discutidas e divulgadas na nossa área.


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MURILO BASTOS DA CUNHA

Murilo Bastos da Cunha é professor do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília (UnB). Fez doutorado em biblioteconomia na University of Michigan (EUA) e mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais. Dentre as atividades que exerceu na UnB estão a de diretor da Biblioteca Central, Faculdade de Estudos Sociais Aplicados e chefe do Departamento. Foi presidente da Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal (ABDF) e do Conselho Federal de Biblioteconomia. Publicou: Uso de informações científicas e técnicas no Brasil, com Victor Rosenberg (1983); Bases de dados e bibliotecas brasileiras (1984); Documentação de hoje e de amanhã (1986 e 1994), com Jaime Robredo; Para saber mais: fontes de informação em ciência e tecnologia (2001); Dicionário de biblioteconomia e arquivologia (2008), com Cordélia Cavalcanti.