ALÉM DAS BIBLIOTECAS


LIVROS E FLORES, FLORES E LIVROS...

Os povos divergem ou convergem em seus hábitos, costumes, lendas, mitos, atitudes, folclore, tradições, enfim, em seus traços culturais. Há algo de fascinante, na região de Catalunha, Espanha, no denominado Dia de Sant Jordi (desconheço o seu equivalente na realidade brasileira, mas deve haver...). É o dia de livros e flores. É o dia de flores e livros.

 

Tudo inicia com uma bela lenda ou como qualquer conto de fada: “era uma vez um reino, cujo rei era muito bondoso. Todos viviam felizes [...]”, até que um dragão malvado chegou à cidade. De início, devorou os animais. Começou, então, o sacrifício das pessoas, mediante sorteio de uma, a cada dia, até que chegou a hora da princesa, filha única do rei. No momento em que seria sacrificada, Sant Jordi surgiu montado num cavalo belo e garboso. Com uma espada de gume cortante, bravamente, matou o dragão, cujo sangue, onde tocava, fazia nascer um roseiral de rosas vermelhas. 

 

Assim, há mais de 70 anos, a cada dia 23 de abril, comemora-se o Dia de Sant Jordi. É uma das jornadas mais emblemáticas da Catalunha, e ao que parece, fenômeno sem precedentes em qualquer outro lugar do mundo. Aproveitando os primeiros dias da primavera, editores, livreiros e autores levam suas publicações às ruas das cidades. Grandes ou pequenas, pouco importa. Há livros e flores por toda parte. Por exemplo, em Barcelona, suas famosas Ramblas transformam-se em formigueiros humanos, com crianças, nas mais tenras idades, jovens, adultos e velhos. Artistas (de rua ou não), atores e professores se unem a profissionais de todas as áreas. Em clima de eterna campanha eleitoral, políticos aproveitam a oportunidade para angariar votos e divulgar as cores de seus partidos, com distribuição maciça de balões, que se misturam às flores e aos livros. O presidente da Generalidad de Catalunha, José Montilla Aguilera, ao lado da vice-presidente do Governo, María Teresa Fernández de la Vega, passeiam pelas ruas.

 

É um espetáculo de rara beleza. Associações e organizações de naturezas distintas marcam presença com a venda ou distribuição de materiais. É o caso dos movimentos em prol dos homossexuais, dos cegos, das mulheres vítimas de violência doméstica, dentre outros. Jornalistas entrevistam intelectuais e cidadãos “comuns”. Programas de rádio são transmitidos ao vivo das ruas. Escritores midiáticos ou os quase anônimos autografam seus livros. É uma jornada de celebração que evidencia o vínculo do povo catalão com a leitura. Para ele, a partir de 1995, e com o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 23 de abril é considerado o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor, ainda que, com a expansão da internet, cada vez mais, se discuta o conceito de autoria. É também quando se celebra a morte de um dos mais famosos escritores espanhóis, Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de la Mancha, e do inglês William Shakespeare.

 

Para quem gosta de números, em Sant Jordi, as editoras vendem um terço do seu faturamento anual, com o escoamento de publicações em campos distintos, mas com ênfase para a literatura, independentemente da nacionalidade dos autores. Por exemplo, os Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, em sua edição comemorativa de 40 anos de lançamento, foi um dos livros mais vendidos, além de títulos do português José Saramago. Do Brasil, aqui e ali, títulos de Paulo Coelho e de, praticamente, mais ninguém... No entanto, o que vale, agora, neste momento, é lembrar que se trata de traço cultural que pode ser transportado de um país para outro, ou, no mínimo, deve ser decantado e reconhecido como profícuo para qualquer nação, inclusive para o nosso Brasil brasileiro, onde livros e flores dificilmente caminham juntos. 


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”