ALÉM DAS BIBLIOTECAS


LIVROS E FILMES: “O ESCRITOR FANTASMA”

São mais de duas horas com olhos irremediavelmente fixos no telão. As imagens expõem a última trama do controverso e premiado diretor franco-polonês (nasceu casualmente em Paris) Roman Polanski, O escritor fantasma, fundamentada no romance The ghost writer do inglês Robert Harris, que atua também como roteirista ao lado de Polanski. Em sua essência, é o relato da experiência vivenciada por um jovem escritor (Ewan McGregor), contratado para escrever as memórias do ex primeiro-ministro britânico, Adam Lang, interpretado por Pierce Brosnan.

 

A princípio, quando do lançamento da obra escrita, rumores dão conta da possibilidade de sua apreensão por possível paralelo entre o protagonista e o ex primeiro-ministro Tony Blair. Puro boato. Até porque, em nossa opinião, a semelhança se limita à presença no livro / filme de um político com traços físicos próximos (mas nem tanto) aos de Blair, à menção constante ao cargo por ele ocupado, à participação da Inglaterra, por sua decisão, na Guerra do Iraque e à repercussão mundial sobre maus-tratos aos prisioneiros de guerra. E só...

 

Aliás, em que pesem os últimos contratempos vividos por Polanski, preso desde setembro de 2009, por abuso sexual a uma adolescente de 13 anos, há 33 anos atrás, 1977, e, portanto, impossibilitado de comparecer à premiação, O escritor fantasma já conquista reconhecimento da crítica e do público, com a conquista do Urso de Prata, Festival de Berlim, em fevereiro último. Àquela época, após o escândalo, o diretor, cuja vida tem sido marcada por sucessivas tragédias – mãe morta em campo de concentração; infância em gueto judeu; a mulher Sharon Tate, grávida de oito meses, assassinada pela família Manson, clã de fanáticos religiosos – foge dos Estados Unidos rumo ao continente europeu, em 1978. Proibido de voltar ao solo norte-americano até para receber o Oscar, categoria Melhor Diretor, ano 2002, pela obra-prima, O pianista, transcorridos anos, foi detido na Suíça, país que mantém acordo de extradição com os EUA, embora a própria vítima Samantha Geimer reconheça que punição tão tardia já não faz sentido. No Festival de Cinema de Zurique, seria premiado pelo conjunto de sua produção, que inclui filmes de sucesso mundial, como O bebê de Rosemary, Chinatown e Oliver Twist.  

 

O enredo de O escritor fantasma, suspense rodado na Alemanha, entre fevereiro e maio de 2009, pouco antes de sua detenção, ganha fôlego quando o ghost writer contratado percebe que a morte de seu antecessor, anunciada como afogamento, detém mistérios insondáveis. Os originais da autobiografia, praticamente finalizados, devem ser apenas revistos por ele. Mas há algo de funesto no ar. Há segredos e conspiração que põem sua vida em risco e lhe impõem o encargo inesperado e indesejado de investigar fatos que lhe metem medo e o apavoram.

 

De fato, Polanski retorna ao cinema, quase que simultaneamente, na Grã-Bretanha, França, Alemanha e Espanha, depois de mais ou menos cinco anos de “silêncio”, e atesta que seus 76 anos não lhe tornam menos astuto. Se O escritor fantasma não está entre suas obras maiores, não precisa recorrer a efeitos especiais grandiosos para nos deixar presos às imagens que passeiam na tela, em meio a uma atmosfera cuidadosamente construída como opressiva e hipnotizante. Há espaços vazios na ilha paradisíaca norte-americana que acolhe a trupe britânica. Seu vazio e sua grandiosidade assustam e atemorizam. Há mansão luxuosa, que se abre ao mundo por meio de janelas enormes e que, ao mesmo tempo se cerra, por sua inacessibilidade.

 

Há o céu sempre cinza e os dias insistentemente chorosos. Há a força dos ventos ruidosos. Há silêncios intermitentes coalhados de palavras não ditas. Há sexo sem amor. Há a feição tensa e retesada, sem resquícios de alegria ou felicidade, praticamente, de todos os personagens, que incluem a ex primeira-dama / a “mulher-surpresa” Ruth Lang (por Olivia Williams), a secretária poderosa e insinuante Amelia Bly (por Kim Cattrall) e os muitos serviçais. O ex primeiro-ministro Adam Lang alterna momentos de descontrole e de exaustão com sorrisos ensaiados e ostensivamente colados em seu rosto, a lembrar as horas de ator nos cursos de teatro intramuros da universidade em anos que se faziam longínquos...

 

Há anúncios nítidos do poder das inovações tecnológicas – aeronaves modernas, GPS que orientam e desorientam, computadores de última geração, pen drives que surpreendem por sua potência e o celular, que paira como um zumbi por toda parte. E há, sobretudo, o resgate do ghost writer. Ele não é ficção. Existe em todas as culturas. Está por trás de belos discursos de políticos, de sermões surpreendentes, de estupendas obras acadêmicas, a começar de trabalhos monográficos de graduação a teses de doutorado ou pós-doutorado... Assim, O escritor fantasma termina por denunciar a solidão, às vezes a um custo alto para ambos os envolvidos, de quem escreve para o outro, mas sem chances de compartilhar o sucesso de seus escritos ou de chorar os fracassos. É detalhe. É informação: durante os 128 minutos, em nenhum momento, o espectador escuta o nome do escritor contratado – um rosto sem nome e sem identificação.

 

Mas, em se tratando de momento, em algum deles, O escritor fantasma nos faz lembrar Budapeste, do excelente compositor e festejado escritor brasileiro, Chico Buarque, e também, levado às telas. O livro / filme tem como personagem central um ghost writer, exaurido pela prática de seu ofício. Ironicamente, cada vez mais, a imprensa brasileira brinca com Chico na função de ghost writer de si mesmo, por sua decisão de se manter anônimo e distante de qualquer contato com o público.

 

Eis a vida repetindo livros ou filmes! Eis os livros ou filmes repetindo a vida! É evidente que são muitos os livros que dão margem à produção cinematográfica. Há uma imensidão deles. Há exemplos clássicos, como é o caso de Nome da rosa, da autoria de Umberto Eco e O silêncio dos inocentes, de Thomas Harris, que deram origem, respectivamente, a filmes homônimos. Casos mais recentes, além do próprio The ghost writer (2007), são os filmes Comer. Rezar. Amar (2011), baseado no best-seller do mesmo título, da norte-americana Elizabeth Gilbert e O doce veneno do escorpião, lançado no Brasil, em outubro de 2010. Da autoria da ex-garota de programa Bruna Surfistinha, “nome de guerra” de Raquel Pacheco, graças à intensa publicidade, o livro, em 2005, conseguiu inesperado sucesso, despertando estrondosa polêmica em diferentes meios sociais. Como filme, O doce veneno... , que conta com Deborah Secco como protagonista, não escapa dos críticos e deixa literatos e acadêmicos em meio a conjecturas que expliquem o fenômeno SUCESSO, seja na literatura ou na indústria cinematográfica. Afinal, hoje, Raquel Pacheco está na mídia, na Wikipedia e no The New York Times!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”