LEITURAS E LEITORES


A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA

Há mais de 10 meses tento escrever minha coluna, Leituras e Leitores, mas estou diretor de bibliotecas de minha cidade e, por isso, praticamente, fui “cooptado” pelo trabalho do dia a dia. Meus dias são entre livros, mas não tenho escrito. Depois de tantos meses apenas como leitor da INFOHOME, “volto” com um texto que não é meu, mas que é de uma grande amiga, apaixonada por livros, a Sueli Bortolin. Caí na bobagem de ler o texto dela e já sabem o que me aconteceu: quero ler o livro que a Sueli indicou!

 

Vamos conferir?

 

 

A SOCIEDADE LITERÁRIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA

 

Sueli Bortolin

 

Hoje recebi um e-mail triste dizendo que poucas pessoas fazem doação de órgãos. Primeiro quero dizer que essa é uma opção pessoal e as pessoas devem ter liberdade para decidir se querem ou não doá-los. Segundo, quero dizer que esse não é o meu caso, já avisei todos os meus familiares e amigos que quero ver todos os meus órgãos sendo aproveitados, pois acredito na vida após a vida apenas de forma espiritual. E eles, os órgãos, não me farão falta. Também já me inscrevi no banco de doação de medula e quando chegar a minha vez farei isso com muita alegria.

 

Se o leitor estiver pensando: essa aí entra na coluna do Rovilson põe um título falando de torta de batata e começa a falar de doação de órgão, ela deve estar maluquinha! Você não está muito enganado, na verdade quis falar de doação porque percebi que o Rovilson está muito atarefado e quero doar alguns minutos do meu dia a esse amigo de lutas literárias!

 

Sim, estou mais maluquinha para compartilhar com o Rovilson e seus leitores algumas emoções. Dividir os sentimentos provocados pela leitura do livro A sociedade literária e a torta de casca de batata.

 

Esse livro me fez lembrar 84 Charing Cross Road, uma obra maravilhosa que ao ser transformada em filme recebeu o título - Nunca te vi... sempre te amei. Esta traz a correspondência de 20 anos entre a escritora Helene Hanff (Nova Iorque) e o livreiro Frank Doel (Londres). O seu título original retrata a localização exata da livraria de Frank onde Helene conseguia suprir suas necessidades de leitura e informação. A respeito dessa rua, Fernando Sabino escreve na quarta capa desse livro:

 

Ontem percorri a Charing Cross de cima a baixo. Estive longamente parado em frente no 84. A livraria não existe mais. Mas o lugar evoca a fonte de inspiração do livro de Helene Hanff, que tem como título este endereço – um dos mais belos momentos da literatura contemporânea. Espero que seja um dia lançado no Brasil, pois é de uma delicadeza de sentimentos não apenas inglesa, mas universal.

 

Felizmente o desejo de Fernando Sabino foi realizado. Tenho em minhas mãos a edição da Casa Maria Editorial em conjunto com Livro Técnico e Científico (LTC) que é de 1988. Acredito que hoje só é possível encontrar em sebos, mas não tenho certeza disso...

 

Ops! o leitor soprou no meu ouvido: - cuidado para não dispersar. Volte ao livro Sociedade literária e a torta de casca de batata de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows.

 

Esse livro narra a história de uma escritora chamada Juliet Ashton que ao buscar inspiração para o seu próximo livro, descobre uma sociedade literária nas ilhas Guernsey, no Canal da Mancha. Ilhas que haviam sido ocupadas pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial. Essa sociedade foi criada por Dawsey Adams e seus amigos. Adams foi o primeiro a se corresponder com Juliet, pois esperava que ela o ajudasse a encontrar livros de Charles Lamb. Sua primeira carta para Juliet dizia assim: “Eu a conheço porque tenho um velho livro que foi seu – Seleção de ensaios de Elia [...] Seu nome e seu endereço estavam escritos na contracapa.” (p. 17).

 

No entanto, Dawsey não imaginava que aquela carta era o início de uma longa correspondência entre ele, Juliet e os demais membros da Sociedade literária e a torta de casca de batata. Muito menos que Juliet não se contentaria em conhecer, apenas por carta, o gosto literário de cada um e a receita da famosa torta de casca de batata e que um dia ela resolveria conhecê-los pessoalmente.

 

Fico imaginando que o leitor deve estar admirado e curioso com um nome tão... tão... estranho da Sociedade!? E para matar a sua curiosidade, peço a simpática Amelie Maugery para explicar:

 

Will Thisbee foi o responsável pela inclusão de Torta de Casca de Batata no nosso nome. Com ou sem alemães, ele não ia a nenhuma reunião que não tivesse o que comer! Então as comidas passaram a fazer parte do nosso programa. Como quase não havia manteiga, farinha menos ainda e nenhum açúcar em Guernsey na época, Will inventou uma torta de casca de batata: purê de batatas como recheio beterrabas coadas para adoçar e cascas de batata para cobrir. As receitas de Will normalmente são duvidosas, mas essa se tornou a favorita. (p. 63).

 

Assim a obra a cada carta vai demonstrando características particulares de cada personagem, modos de leitura diversos, objetivos diferentes, recepções e reações variadas. Não caberia aqui descrever os perfis e comportamentos de todos os personagens, mesmo porque seria uma maldade com você leitor!

 

Opto então em trazer para essa Coluna as vozes de dois personagens que marcaram a minha memória. Isso só para atiçar seu desejo. Espero não decepcioná-lo, leitor:

 

- Eben Ramsey – um homem simples que admira os textos de William Shakespeare diz:

Nem sempre entendo o que ele diz, é verdade, mas um dia vou entender. [...] Sabe qual frase dele que eu mais admiro? É: ‘O belo dia terminou e a escuridão nos aguarda.’

Eu gostaria de já ter lido essas palavras no dia em que vi aquelas tropas alemãs desembarcarem, aviões e aviões cheios delas - e navios atracando no porto! Eu só conseguia pensar malditos, malditos, sem parar. Se eu pudesse ter pensado nas palavras ‘o belo dia terminou e a escuridão nos aguarda’, sentiria um certo consolo e estaria preparado para enfrentar as circunstâncias, em vez de ficar com o coração tão pesado. (p. 75).

 

- Clovis Fossey, após iniciar sua participação na Sociedade comenta:

A princípio, eu não queria ir a nenhuma reunião sobre livros. Minha fazenda dá muito trabalho e não queria desperdiçar meu tempo lendo sobre gente que nunca existiu, fazendo coisas que elas nunca fizeram.

Então, em 1942, comecei a cortejar a viúva Hubert. [...] Ralph é um falastrão quando bebe e disse para todo mundo na taverna: ‘As mulheres gostam de poesia. Basta cochichar uma palavra doce no ouvido delas e elas se derretem todas – como uma mancha de gordura na grama.’ [...] Então pensei se são rimas que a viúva Hubert quer, vou buscar algumas. [...]

Bem, conquistei o coração  da viúva Hubert – a minha Nancy. Uma noite, consegui que ela fosse comigo até o penhasco e disse: ‘Olhe para isso Nancy. A doçura do céu paira sobre o mar – Ouça, o Todo-poderoso está acordado.' Ela deixou que eu a beijasse. Agora ela é minha mulher. (p. 83-84).

 

Quero dizer ainda que essa obra também teve um efeito sobre mim por confirmar o meu pensamento de que os textos lidos solitariamente precisam ser compartilhados por meio da oralidade e um clube de leitura, uma sociedade literária (seja qual nome receba) é um espaço a ser valorizado e incentivado em âmbito público ou privado.

 

Disso tudo faltou falar de uma personagem chamada Elizabeth, uma mulher que não era compreendida pelos seus atos de coragem e bondade. Não vou trazer para cá as histórias de Elizabeth, pois ela merece um espaço especial. Quero apenas dizer que ela esteve presente na vida de todos os membros da Sociedade mesmo depois de presa e morta e que, para felicidade de todos, ela deixou um bebê de nome Christina e apelido Kit e que “a sociedade literária cria a criança como se fosse sua – ela passa temporadas na casa de cada um deles. A principal responsável pelo sustento da criança é Amélia Maugery, e os outros membros da sociedade a levam para casa – como se fosse um livro da biblioteca – para passar várias semanas de cada vez.” (p. 96).

 

Para alguns essa afirmativa pode parecer estranha, mas uma bibliotecária apaixonada por biblioteca e textos literários como eu, acha lindo!

 

Boa Leitura!

 

SHAFFER, Mary Ann; BARROWS, Annie. A Sociedade literária e a torta de casca de batata. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.