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ESPANHA AINDA EM RITMO DE COPA

Muitos dias transcorridos na vida da gente espanhola (ou não) marcam o final da Copa de Mundo de Futebol 2010 e a primeira vitória da Espanha no decorrer de 13 participações, a partir de 1934. Trata-se de um país que, tradicionalmente, tem atraído futebolistas brasileiros para times de primeira linha, como o Real Madrid e o Sevilla, respectivamente, Kaká e Adriano. Por muito tempo, Ronaldinho Gaúcho brilhou no festejado Futbol Club Barcelona ou simplesmente Barça e esteve por toda parte, em grandes peças publicitárias da poderosa Nike. 
 

Três fatos, entre muitos outros, chamam a atenção, quando nos referimos ao Mundial, ocorrido entre 11 de junho e 11 de julho, em diferentes cidades africanas, a exemplo de Durban, Pretória e Johannesburgo. Nesta última, a equipe La Furia Roja (Fúria Vermelha) vence a Holanda por 1 a 0. O gol da história, protagonizado por Andrés Iniesta Luján, aos 115 minutos do início da partida, em sofrida prorrogação, disputada no estádio Soccer City, dá à primeira Copa do Mundo na África, o oitavo campeão da história.

 

Dentre os acontecimentos interessantes, o primeiro, extremamente positivo, refere-se à realização até então inédita de uma Copa na África, o que pode ser indício (somos otimistas por natureza e vocação) da redução dos preconceitos presentes no imaginário das populações mundo afora e que perseguem o terceiro continente mais extenso, atrás tão-somente da Ásia e das Américas. De forma inconsciente, invariavelmente, pensamos na África com suas flagrantes e terríveis desigualdades sociais, seus escassos rincões de esperança e certa dose de exotismo. Depois, acontecer, em especial, na África do Sul, país que ainda luta em busca da reconciliação do território nacional não deixa de ser promissor, ainda que o fantasma da Aids não pare de crescer...  Há, ainda, a imagem dos africanos, como as vítimas mais visíveis do aquecimento global da Terra. Vemos corpos esquálidos e encurvados sob o peso das dores do mundo, na condição de foragidos, chegando a outras nações em busca de sobrevida, amontoados em canoas (cayucos) ou barcos (pateras) em condições cruelmente precárias.

 

Segundamente, está a surpresa (quase total) diante da derrota inglória da seleção brasileira, face aos investimentos maciços do País nesse esporte, os salários milionários dos jogadores e, sobretudo, nossa posição de “eterno favorito” em qualquer competição esportiva de futebol. Há quem possa sentir certo estranhamento ante a expressão – derrota inglória. Acreditamos que existem, sim, e em qualquer circunstância de vida, pessoal ou profissional, derrotas cercadas de heroísmo, que se revertem em modelos de superação. São resistências históricas de determinados povos, como o enfrentamento de Cuba ante o poderio dos Estados Unidos, ainda que se trate de exemplo sob ótica ideológica ou sentimental. São superações que cercam histórias de vida de milhões de anônimos ou de famosos, à semelhança de Lars Schmidt Grael. Na condição de velejador premiado, em 1998, depois de grave acidente por imprudência de alguém, em Vitória do Espírito Santo, perdeu uma de suas pernas, e devagar, precisou reaprender a viver, sem, porém, abandonar a prática esportiva.

 

No futebol, o arquétipo está naqueles que lutam com garra quase insana (não necessariamente violenta) pelas cores do time ou da nação que defendem. Entregam-se de corpo e alma, conscientes de que um momento fugidio pode ser decisivo, para o bem ou para o mal. Na semifinal, eis Uruguai enfrentando Alemanha, cuja superioridade foi inquestionável. Os uruguaios erraram feio muitas vezes. Acertaram bonito infinitas vezes. Lutaram sem temor e sem pudor até o fim. Em linha oposta, no caso do Brasil, independentemente de ser ou não especialista na área, é visível a qualquer brasileiro a prepotência de parte de nossa equipe, incluído aí o técnico Dunga, que parece ter deixado nos caminhos percorridos, o dom da humildade. Havia flagrante clima de “já ganhou” dentro da equipe...

 

Em terceiro lugar, e isto é estupendo, a Copa, inesperadamente, uniu a Espanha. A convivência próxima com um jovem jornalista salmantino, cujo único vício confesso é o futebol, nem de longe nos transformou em expertise, mas nos brindou com muitas informações. Com freqüência, espanhóis de diferentes estirpes torcem contra o Barça. É uma forma nada silenciosa de protestar contra as tentativas sistemáticas do povo catalão em se sentir “cidadão único” de uma nação independente e, por mera casualidade, inserida no território espanhol.

 

Desta vez, porém, tudo foi diferente. Os espanhóis se deram as mãos. Além dos separatistas mais ferrenhos, como catalães, bascos e galegos, La Roja recebeu apoio incondicional do povo em sua totalidade. Populações de Norte a Sul, de Leste a Oeste acompanharam, quase compulsivamente, as partidas de seu time. A bem da verdade, há quem atribua tal união à heterogeneidade da equipe, com jogadores advindos de diferentes times e localidades, com supremacia do Barça, com sete jogadores (Gerard Piqué, Carles Puyol, Andrés Iniesta, Xavi Hernández, Víctor Valdés, Sergio Busquets e Pedro), dentre os 23 convocados para a seleção pelo treinador salmantino Vicente del Bosque.

 

De qualquer forma, as intensas celebrações em torno do time capitaneado por Iker Casillas (Real Madrid) não foram inesperadas. No dia 11 de julho de 2010, como previsto na publicidade ostensiva e radical da Nike, responsável pelo vestuário de oito das 32 seleções participantes do Mundial, o 1 a 0 entrou para a história da Espanha, como um dia de vitória, de batalhas vencidas e de guerra orgulhosamente ganha. Por toda parte, numerosos bares e restaurantes dispuseram telas gigantescas para transmissão das partidas como agrado aos clientes e apelo aos passantes. Em algumas cidades pequenas (os chamados pueblos), o prefeito (alcalde) providenciou telões em locais públicos, sobretudo, praças ainda floridas ou desnudas, para estimular a concentração dos populares. Tudo em clima de muita festa, algazarra e brincadeiras. Mais do que antes, bandeiras da Espanha, de todos os tamanhos, pareciam fazer parte da paisagem das cidades. Estavam em carros, bicicletas, motos, ônibus, etc. etc. As varandas de casas e apartamentos, em vermelho e amarelo. Crianças, jovens, adultos e velhos, aqui e acolá, baniam as roupas convencionais. Em seu lugar, peças que remetiam ao clima da Copa e da vitória. Blusas e camisas, lenços e echarpes e, algumas vezes, bandeiras postas como longa capas ou excêntricos cintos... Tudo era válido para lembrar a importância da La Furia, até como forma de incrementar a auto-estima em tempos de crise. Enquanto, no Brasil, a onda de recesso virou marola, como previsto ironicamente pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Espanha se ressente e vive tempos difíceis. Dados credíveis constatam que o Ministério do Trabalho reconhece, em julho de 2010, um total de desocupados em torno de 3.982.368 cidadãos. São indivíduos ativos, em plena capacidade de trabalho, que não podem se deliciar com o futebol na TV sem pensar no amanhã...

 

Não obstante este senão, a descrição cheia de cor se faz mais forte, ao anoitecer do já passado dia 11 de julho. À alegria do cenário multicolorido, unem-se gritos, sussurros de dúvidas, caras de susto ou de espanto, de tristeza ou de raiva diante de tentativas frustradas de gol. Por fim, caras de alegria incontida, de entusiasmo sem controle... O País não dormiu. As festas por todos os cantos e recantos atravessaram a noite. Em Madri, dados da Delegada do Governo de Madri, Amparo Valcarce, asseguram que as festividades prosseguiram. A segunda-feira, dia 12 de julho, reuniu em torno de 500 mil pessoas nas ruas madrilenses, para receber a equipe. Gente de todas as nacionalidades, até porque, reconhecidamente, Madri é uma cidade cosmopolita que abriga pessoas de diferentes países, inclusive muitos brasileiros, cuja soma total é sempre um enigma por conta de imigração irregular. Os serviços de limpeza recolheram um total de 52.150 quilos de lixo das ruas depois das comemorações pela vitória da Espanha no Mundial da África do Sul.

 

E hoje, quase dois meses depois, a grande festa não termina. Espanha prossegue em ritmo de Copa do Mundo. Na segunda-feira seguinte à vitória, a equipe inteira seguiu diretamente do aeroporto para o Palácio Real de Madri, conhecido como Palácio do Oriente, residência oficial de Juan Carlos I, rei da Espanha. O encontro futebolistas x Família Real ganhou destaque ainda maior graças à presença das duas filhas dos Príncipes de Astúrias. Vestidas com o uniforme da seleção, as infantas Leonor e Sofía se encantaram com a Taça da Copa de 2010 e encantaram a todos. A cena das crianças com os jogadores se repetiu, de forma quase incessante e insana, nas emissoras de TV públicas e privadas por muitos e muitos dias. E ainda hoje, em bares e em escolas, a seleção de futebol é tema de conversas e bate-papos impregnados de orgulho e de euforia.

 

O Presidente José Luis Rodríguez Zapatero também recebeu os campeões do mundo, no Palácio de La Moncloa. Num gesto emblemático de político atento à relevância do marketing, aproveitou a ocasião e reuniu “gente do povo” ao lado das autoridades governamentais. E fez mais: dedicou o título do Mundial à África e a todos aqueles que lutam contra a pobreza. Como conseqüência, durante semanas a fio, dentre os freqüentes e repetidos debates incluídos na mídia sobre o desempenho dos espanhóis na Copa, muitos giraram em torno do gesto presidencial, imprimindo-lhe conotação populista e política. Aqui, temos a comprovação de que, há muito tempo, na Espanha ou no Brasil, e por aí afora, o futebol deixou de ser apenas um esporte para assumir diferentes funções. O caso brasileiro é emblemático. Em pleno Regime Militar, instalado em 1964, a ênfase excessiva à vitória do tri-campeonato, em junho de 1970, no México, nos mostra como o futebol pode ser “o ópio do povo". À época, os brasileiros vivenciaram uma das campanhas publicitárias mais intensas, com destaque para o hino "Pra Frente Brasil", ainda hoje entoado aqui e ali. Há quem diga, inclusive, que o general Emílio Garrastazu Médici, à frente do País entre 1969 e 1974, num dos períodos mais repressivos de nossa história, acompanhou cuidadosamente a composição de Miguel Gustavo.

 

Além disso, o futebol cresce como atividade econômica que movimenta valores incalculáveis. Os salários altíssimos dos jogadores, como antes citado, surpreendem. A revista norte-americana Forbes, editada desde 1917, e que vem se distinguindo por listar, com esmero, as pessoas e empresas mais ricas do mundo, aponta o futebolista inglês David Beckham como milionário: recebe, a cada ano, mais de 40 milhões de dólares. Há, ainda, transações comerciais astronômicas envolvendo compra e venda de jogadores de um país para outro ou de uma equipe para outra. Afora o exemplo do próprio Beck, que percorreu diferentes times, chama a atenção a ida do português Cristiano Ronaldo do Manchester United para o Real Madrid, ao custo de 132 milhões de dólares.

 

E, num gesto nem de longe livre de interferências comerciais e de interesses paralelos, há quem organize rol dos “11 Melhores da Copa do Mundo de 2010.” É o que faz, por exemplo, o jornal italiano La Gazzetta dello Sport. Como esperado, a Espanha aparece, com o número mais alto de candidatos, quatro. São eles: Íker Casillas; Carles Puyol; de novo, Andrés Iniesta e David Villa. Apenas a seleção alemã alcança o mesmo total, com Philipp Lahm, Arne Friedrich, Thomas Muller e Schweinsteiger. A publicação esportista, a francesa L’Equipe incorpora Sergio Ramos à listagem anterior e cita o meio-campo Iniesta como um dos fortes candidatos, ao lado do concorrente holandês Wesley Sneijder, para receber a próxima Bola de Ouro, um dos três prêmios mais reconhecidos do mundo, concedido, regularmente, pela revista France Football.

 

E há mais... Ainda em ritmo de Copa e de festa, Salamanca prestou homenagem grandiosa ao filho ilustre, o treinador Vicente del Bosque, a quem as autoridades locais concederam o título de “Filho Predileto da Cidade de Salamanca.” Sob o slogan “Somos campeões”, a cadeia poderosa de lojas Corte Fiel, por sua vez, disponibilizou (e lá está) no endereço eletrônico http://cortefiel.com/seleccion/posterseleccion.pdf foto assinada dos campeões a qualquer internauta interessado e a custo zero.

 

Todas estas são evidências do poder do futebol nos dias atuais. Está na política e na economia. Impõe, também, profundas mudanças comportamentais na sociedade. Ao contrário da predição das peças publicitárias da Nike, como o curta-metragem de três minutos, “Escreva o futuro”, em que o desempenho individual dos futebolistas é mostrado como capaz de gerar mudanças profundas na humanidade, há que levarmos em conta que tais transformações não são sempre nem puras nem puristas. Além da mercantilização do esporte ou do engodo no universo dos conchavos políticos, conduzem à nítida distorção de valores. Basta confrontar, nas mais próximas ou nas mais longínquas nações, o salário de um professor universitário ou de um bibliotecário devidamente qualificados com os ganhos elevadíssimos dos beckhams ou ronaldinhos perdidos nos campos de futebol... Porém, a esta altura da vida, há que brindarmos a alegria dos espanhóis ou brindar com eles uma vitória tão esperada!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”