ALÉM DAS BIBLIOTECAS


INTERNET: O BEM E O MAL DE MÃOS DADAS

Nada mais banal e repetitivo do que iniciar um texto com este título – Internet: o bem e o mal de mãos dadas. O que parece falta de criatividade é pura provocação. Afinal, ainda em 1997, quando apenas vislumbrava a expansão da Grande Rede, sem dimensão exata da influência decisiva que assumiria em nossas vidas pessoais e profissionais, escrevi um capítulo de livro sobre seus impactos sociais e a possibilidade de geração de nova forma de exclusão. Publicado pelo International Institute of Communications, localizado em Londres, sob o título Cultural ecology: the changing dynamics of communications, o referido livro, à época, causa certa polêmica ou rebuliço entre parte do mundo acadêmico.

 

Com isto, confesso, "de cara lavada", que a Internet, há muitos anos, faz parte do meu dia-a-dia. Quase sempre, logo cedo, verifico minha caixa de correios.  Graças à Rede, “converso” com meus filhos, netos, alunos, amigos e companheiros de jornada, independentemente da distância física que nos separe. Depois, leio notícias, tomo conhecimento de eventos culturais e técnico-científicos de meu interesse, estudo e pesquiso ou, simplesmente, passeio pelo espaço virtual, livre, leve e solta. No entanto, hoje, transcorridos 13 anos da publicação do capítulo The social impact of the Internet: does it promote diversity, access and participation?, olho em volta e mais do que nunca, percebo o bem e o mal de mãos dadas como característica inerente à Internet.

 

A Grande Rede está por toda parte. No envio do imposto de renda, nas agências de viagem, na organização de congressos, nos consultórios médicos e odontológicos, nos bancos, na farmácia mais próxima ou mais distante, nos lares de milhões de cidadãos brasileiros ou não, nas praças, nas escolas de todos os níveis, nos aparelhos de celulares mais modernos e, sobretudo, no universo infindo das relações humanas. São os blogs, fotoblogs (agora nomeados de flogs), o webjornalismo de referência, o jornalismo de fonte aberta, etc. etc. etc. A Britannica Online cede espaço à Wikipedia. Por meio da tecnologia wiki (de origem havaiana = rápido) esta representa significativo avanço na construção de enciclopédias eletrônicas e dinâmicas. Mas como tudo que permeia o espaço virtual, atrai adeptos e dissidentes. Os primeiros a visualizam como filosofia de atuação, ao disseminar informações atualizadas, de interesse geral, e em diferentes línguas. Os segundos, dentre os quais me incluo, chamam a atenção para a falta de credibilidade e de profundidade de informações disponibilizadas por leigos e / ou amadores, sem qualquer respaldo e cuidado.

 

No entanto, a aceitação (ou não) da Wikipedia é apenas um dos pontos de discussão. Há o incremento da prostituição e de perversões sexuais, a exemplo da pedofilia. O terrorismo ganha novo aliado. O embuste editorial, idem; sem contar a nova forma de exclusão, a chamada exclusão digital ou analfabetismo digital, que deixa à margem da sociedade um número elevado de indivíduos, em diferentes nações, por razões as mais distintas. Motivações de ordem social, cultural, econômica e política. Às vezes, motivações de foro íntimo..

 

Além do mais, é preciso se indignar ante a invasão de privacidade que se torna mais e mais cruel. Jovens ou velhos, celebridades ou anônimos se deixam flagrar por filmagens ocultas via celulares ou câmaras ocultas. De repente, eis suas vísceras expostas na Rede: fraquezas legítimas, traições de amor ou desamor, desvios sexuais sórdidos à disposição do olhar de todos ou quase todos. Um caso emblemático que, agora, toma conta da imprensa brasileira é o adultério envolvendo dois casais “amigos” do interior de São Paulo, Sorocaba. Mulher traída enfrenta a amante do marido em busca de confissão. Vingança cruel: disponibiliza no YouTube vídeo do encontro entre elas. Uma semana depois, a discussão, que finaliza com agressão física, já fora vista, aproximadamente, por um milhão de internautas, ao tempo em que o tal vídeo ganha cerca de 60 réplicas. E eis a Internet pautando a grande mídia! Daí, a notícia ganha espaço em meios impressos e televisivos e o caso de traição ganha dimensão estranhamente desproporcional.

 

E há mais, muito mais: além de textos com autoria errônea ou informações equivocadas (de forma ocasional ou proposital), montagens de fotos inicialmente ingênuas e muitas calúnias circulam com rapidez. São ações que se fundamentam na prevalência do amadorismo em detrimento do aprofundamento das informações ou, ainda, na permissividade advinda do anonimato, irmão legítimo da covardia e da pusilanimidade. Mentiras gigantescas caminham a passos de gigante, reiterando a premissa do ex-primeiro-ministro britânico James Callaghan, para quem “uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas.”

 

Por tudo isto, ainda que a Internet esteja incorporada ao meu viver, não sinto qualquer atração pelos youtubes, orkuts, blogs, fotoblogs, facebooks, tuentis, enfim, qualquer recurso aí disponível, em que eu atue como figura central. Contribuir, sim. Alimentar, sistematicamente, tais dispositivos, não. Os prazos marcados, as expectativas de um ou dois leitores assíduos, tudo me traria imenso cansaço de corpo e de alma. Sinto quase pavor ao imaginar a monotonia de marcar presença quando, num dia qualquer, o que mais desejaria era me perder na imensidão da alma e me guardar de tudo e de todos. Continuo a querer mais estar com as pessoas a quem quero bem, olho no olho e mão sobre a mão. Continuo a desejar intensamente conhecer lugares e povos sem me conformar em “viajar” pela Internet, embora reconheça ser esta possibilidade que resta a muitos. Continuo a resistir à tentação de fazer download de filmes e de músicas, pela ânsia quase insana de respeitar a autoria e a propriedade intelectual. Continuo imune à curiosidade de me deliciar com as misérias humanas assistindo a vídeos que tão bem ilustram como a internet afeta nossa intimidade. O citado “barraco de Sorocaba” (como ficou conhecido o caso antes relatado) não só constata como a Internet penetra, de forma impiedosa, em nossa vida íntima, mas, sobretudo, prova sua expansão nesses 13 anos, uma vez que as redes sociais foram decisivas para agigantar a repercussão do caso, tais como os comentários (sempre impiedosos) que circularam graças ao Twitter e similares.

 

Por fim, sem esgotar o tema, afirmo que, longe de endeusar ou endemoninhar, precisamos atentar para o bem e para o mal que Rede nos proporciona. Ela veio para ficar. Nem nos livraremos dela nem há porque desejar fazê-lo. Mas a Internet não pode ocupar espaço maior do que o afeto que deveria unir famílias, companheiros de trabalho, casais enamorados ou em crise, e, decerto, vizinhos de casa ou de vida. A solidão humana tende a se acentuar no momento em que o contato cara a cara dá lugar à proximidade forjada por trás de perfis cuidadosamente construídos em mil sites de relacionamento, incluindo o Badoo, por onde andei a vagar por longos 15 dias. Afinal, é preciso ter gravado no coração e na mente: o homem ainda é o centro de todo este viver que cheira a tecnologia, modernidade, avanço e evolução, mas que não pode perder o olor de solidariedade, esperança, carinho e doce amor!

 


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”