LEITURAS E LEITORES


CEMITÉRIO: UMA LEITURA DO MICROCOSMO HUMANO

Há muitas possibilidades de leitura em nossa existência, uma delas é o cemitério, embora nem sempre gostemos de pensar nessa perspectiva. Cada povo tem sua maneira de lidar com essa instituição, ou melhor, com os seus mortos.

 

Cemitério, na fase adulta, nunca nos é agradável, pois temos melhor dimensão da fugacidade do tempo e da precariedade humana. Mas nem sempre nossa percepção do cemitério é essa, pois ao longo da vida nossa percepção vai se alterando: é como se com o passar do tempo, fôssemos, pouco a pouco, nos acostumando à ideia da morte, ou melhor, fôssemos lendo diferente o cemitério e o que ele representa para nós.

 

Parte de minha infância, por exemplo, morei próximo ao único cemitério de uma cidade do interior do Paraná. A cidade contava com uma estrutura cultural, pois tinha festas regionais, cinema, encenações, biblioteca pública, mas não tinha museu. Era uma cidade muito nova, como são as cidades do norte do Paraná que, em média, possuem 70 anos.

 

Ser quase vizinho de um cemitério me oportunizou a encontrar mais um espaço para brincar. Em meio a imagens etéreas e cotidiano terreno, era misterioso brincar ali, caminhar por aquelas construções desafiava minha percepção visual, instigava minhas perguntas internas acerca da vida e da morte, da decomposição do corpo, da ideia claustrofóbica de estar embaixo da terra. A morte era algo assustador.

 

Por outro lado, meu primeiro contato mais “sistemático” com os diferentes estilos de construir, de estilos arquitetônicos foi no cemitério de minha cidade. Ali podia observar desde cruzes simetricamente fincadas sobre a cabeceira das sepulturas até os túmulos apenas massa de cimento e os jazigos de materiais nobres como o cobre, mármore, granito, além de vidro bisotê e azulejos especiais.

 

As construções me deram a noção de cúpulas, arcos e pérgulas, caramanchões, abóbadas, arabescos e vitrais. Anos mais tarde, ao estudar a história das civilizações, aprenderia como arquitetura etrusca, gótico-medieval, clássica, contemporânea. Na verdade, eu estava sendo iniciado na História da Arte e nem me dava conta disso. 

 

As construções sempre continham um vitral diferente e, principalmente, esculturas em gesso ou cimento de anjos e arcanjos, mães e crianças, santos, imagens bíblicas. A disposição daqueles objetos era para mim como se eu estivesse entrando num museu, na época não nomeava assim, nem tinha consciência disso. Só adulto, fui perceber que aquele cemitério fez parte de minha educação para Arte. Aguçou minha sensibilidade, estimulou minha observação e da melhor maneira possível, ou seja, num local silencioso, onde meus olhos, meu cérebro podiam estar harmoniosamente juntos para receber aquelas informações por meio das emoções que nem sempre compreendia.              

 

Num cemitério, cada década é um pouco da história da arquitetura, dos materiais e técnicas empregados. Por exemplo, túmulos da década de 50 usam capelas mais ao estilo medieval, década de 70 há o uso de azulejos, atualmente há multiuso de materiais e técnicas.

 

As construções de um cemitério nos dão um pequeno retrato da história de um povo, de sua arquitetura e de sua maneira de homenagear aos seus  antepassados.

 

A organização dos cemitérios reflete a organização social, ou seja, há setores em que estão apenas as famílias importantes da cidade, ali podem ser encontrados jazigos projetados por arquitetos: o uso de materiais nobres, jardins paisagisticamente construídos. Por outro lado, existem ainda as construções de classe média que possuem túmulos menos requintados e há aqueles de família menos afortunada, economicamente falando, que estão numa sepultura de terra, simples, apenas com uma cruz de madeira em sua cabeceira. 

 

Enfim, os cemitérios também são uma das maneiras de ler o mundo, a sociedade, pois em vários locais do mundo eles são atração turística tanto por sua arquitetura quanto pelos artistas e políticos famosos que lá estão sepultados, dentre eles destaco dois: um em Buenos Aires, o cemitério da Recoleta e outro em Paris, o cemitério Père Lachaise. 

 

O Cemitério da Recoleta em Buenos Aires é uma construção do século XIX,  desde a entrada, possui jazigos da aristocracia, imponentes mausoléus com materiais (mármores, lustres etc.) importados da Europa. Nesse cemitério, um dos túmulos mais visitados é o de Eva Perón.

 

Em Paris, o Père Lachaise é o maior cemitério da cidade e um dos mais famosos do mundo, pois lá foram sepultadas muitas pessoas famosas do mundo das artes, música, pintura, filosofia, dentre eles: Kardec, Balzac, Maria Callas, Chopin, Jim Morrison, Wilde, Modigliani, Auguste Comte e Edith Piaf. Esse cemitério foi inaugurado no início do século XIX. Na portaria, são entregues mapas com a direção de cada túmulo dos famosos que lá estão sepultados. Visitá-lo no inverno é uma experiência singular, pois há corvos a crocitar e sobrevoar nossas cabeças, num dia frio, sem sol e com muita neve, criando uma atmosfera lúgubre. 

 

O cemitério é uma das possibilidades que temos para ler o ser humano, a expressão de sua saudade, de seu amor, de sua organização social, de suas manifestações arquitetônicas e artísticas. Cemitério é um microcosmo da vida.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.