ALÉM DAS BIBLIOTECAS


PARA SALVAR OS TOUROS, MATARAM OS TOUREIROS

Há alguns anos, exatamente no dia 25 de agosto de 2004, a escritora brasileira e articulista da Revista Veja, Lya Luft, escreve a matéria “Baleias não me emocionam.” À época, comenta, com propriedade e elegância, sua preocupação com a corrida exacerbada de cidadãos de todas as nacionalidades para salvar baleias encalhadas e / ou pinguins perdidos nas praias longínquas. Acrescenta, literalmente: “Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena [...] Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças pedindo esmolas, adultos famintos, famílias morando embaixo de pontes e adolescentes morrendo drogados nas calçadas.”

 

Mais adiante, 17 de março de 2010, L. Luft chama a atenção para o fato de que a natureza não mata tão-somente com intempéries, mas, também, pelas mãos do ser humano. No artigo intitulado “Quando a natureza mata”, recomenda, prosaicamente, que devemos usar, no lugar do adesivo “salve as baleias” aquele que diz “salve as pessoas, que são parte da natureza.” Como esperado, ambos os textos despertam protestos e interpretações distintas.

 

Em 28 de julho de 2010, quando o Parlamento Catalão veta as touradas na região de Catalunha (Espanha), lembro da escritora brasileira e de sua posição a favor do homem. Isto porque, antes, durante e depois da tramitação da nova legislação, o país inteiro comenta a decisão, entre ânimos sempre exaltados, a favor ou contra a proibição. Nesse mesmo dia, na Universidade Internacional Menéndez Pelayo (Santander), o espaço dedicado ao jornalismo literário é usurpado pelo tema. Os conferencistas são instigados a noticiar literariamente o ocorrido. Pegos de surpresa, não hesitam. Indiferentes à posição do Coordenador da Mesa Redonda (explicitamente avesso às touradas), os convidados – um uruguaio, uma argentina, um peruano, um mexicano e, por casualidade, um catalão – de forma, mais, ou menos, contundente, são unânimes em assegurar que não votariam contra as corridas de touros.

 

Um deles, o locutor uruguaio, Victor Hugo Morales, radicado na Argentina e que se imortalizou ao narrar o denominado gol do século, quando Maradona, na Copa Mundial de Futebol (1986) assegura a vitória da Argentina ante a Inglaterra, causa grande impacto com sua confissão. Assistira na tarde anterior a uma tourada. Divisara mais do que maltrato aos animais. Percebera coragem e heroísmo nos toureiros. Com o pretenso título “Para salvar os touros, mataram os toureiros”, narra à audiência, com palavras impregnadas de poesia quase inimaginável, o espetáculo das touradas...

 

Verdade que as discussões infindas que as touradas suscitam mundo afora são realidade. Há, cada vez mais, uma corrente que se fortalece contra elas. Por exemplo, se antes, a corrida dos touros, no Equador, se impunha como grande festa nacional, até porque há indícios históricos de que a atividade se inicia nesse país, ainda em 1551, a partir de 2010, está proibida. Na Venezuela, também sumiram. Na Espanha, salvo a citada Catalunha, prossegue e, também, em Portugal e França. Na América Latina, destaque para México, Colômbia, Peru e Guatemala.

 

No entanto, indiferente aos que se surpreendem por minha postura, tal como Lya Luft e Victor Hugo Morales, no lugar do adesivo em prol das baleias, prefiro o refrão em favor das pessoas. E digo com sinceridade: não sinto prazer algum em ver o sofrimento dos animais, mas me dói muito mais a dor do ser humano a cada dia, a cada hora, pelas ruas das grandes metrópoles ou nas esquinas das pequenas cidades, seja onde for. Por tudo isto, em que pesem os argumentos contrários (sempre dignos de respeito), consigo vislumbrar as touradas como tradição cultural e não como gesto de crueldade.

 

É o combate entre touros bravos (ou novilhos = até três ou quatro anos de nascido) e homens de muita coragem e muito treino, mediante técnicas conhecidas como tauromaquia ou, simplesmente, arte de tourear. Os espetáculos com touros são muito antigos e nos remetem à Antiguidade clássica, quando esses animais são celebrados pelos povos mediterrâneos como o deus da fertilidade. E mais, o registro pictórico mais antigo de que se tem notícia está em Creta, a maior ilha periférica da Grécia, ao sul do Mar Egeu.

 

No caso particular da Espanha, em pleno século III a.C., a caça aos touros selvagens já é popular. Porém, o registro mais antigo e próximo das touradas em sua feição atual surge somente em 1135, dentre as comemorações da coroação de Alfonso VII como rei de Castela e Leão (Castilla y León). Por muito tempo, a profissão de toureiro esteve cercada de encanto, magia e prestígio. Cantoras, artistas e mulheres de muito dinheiro que ainda se mantêm na mídia têm uma história de amor com toureiros. É o caso, por exemplo, da popular Duquesa de Alba; de uma das cantoras mais famosas, Isabel Pantoja; e de Belén Esteban, colaboradora de vários programas televisivos. A justificativa é óbvia: quando do longínquo início, os toureiros são quase sempre nobres. O enfrentamento ao touro se dá com eles montados a cavalo e munidos de uma lança. Hoje, por conta da oposição crescente, a profissão perde prestígio e os toureiros, dinheiro.

 

De qualquer forma, não nego: encanta-me o ambiente das chamadas “praças de touro”. Famílias inteiras se deslocam até a praça. Consigo, carregam fartos lanches que compartem nos momentos de intervalos. Há a música que anuncia o início, quando cavaleiros e cavalos, ambos majestosos em sua imponência, antecipam a entrada dos toureiros e dos touros. Com eles, inicia-se o espetáculo. Os toureiros portam belos trajes com brilho. Os touros, discretos laços de fita coloridos. Há os banderilleros com suas bandeirolas coloridas, que se gravarão nos animais, para provocá-los visando ao final da luta. Há os picadores com suas imponentes lanças montados a cavalo que investem contra os touros, para reduzir sua força.

 

Há a chamada “verônica”, manobra com a qual o toureiro recebe o touro segurando o capote (capa vermelha de forro amarelo) com as duas mãos. Incapaz de distinguir as cores, o touro é atraído pelo movimento da capa e, ao contrário do que se pensa, o vermelho serve apenas para disfarçar as manchas de sangue. Há passes de dança de singular beleza entre touro e toureiro, entre algoz e vítima. Há, sobretudo, o olhar indecifrável entre homem e animal.

 

Quanto ao público, não se limita a assistir. Lenços brancos se agitam ao ar como forma de reivindicar à Comissão Julgadora premiação para o toureiro. A depender do desempenho, uma ou duas orelhas do animal morto. Há aplausos. Há eventuais vaias dirigidas a toureiros e / ou aos touros. Há a venda da carne em açougues no dia seguinte.

 

Enfim, há muito a dizer em defesa das touradas ou contra elas. Taurinos ou antitaurinos possuem sempre argumentos... Os antitaurinos clamam contra a crueldade contra os animais. Os taurinos recorrem a argumentos variados em defesa das touradas: questões econômicas, haja vista que a atividade assegura trabalho a muita gente; manutenção de tradição cultural; visíveis interferências de ordem política. E há que se convir que, não obstante o declínio das touradas, no caso da Espanha, ainda hoje, há cerca de 330 arenas espalhadas pelo país e que são palco de 17 mil touradas por ano. Isto corresponde a, aproximadamente, um bilhão de dólares e a garantia de emprego para 200 mil cidadãos, o que vale quase 1% da força de trabalho nacional.

 

Por fim, em tudo isto, reforçamos que, como Lya Luft e Victor Hugo, cremos que se não é louvável o sofrimento dos animais, há muito a ser feito a favor do ser humano. Este é o argumento mais sólido para que as touradas dêem espaço, na mídia, às misérias humanas que fingimos não ver, a cada dia: pedintes, famintos, desabrigados, torturados, enfermos, drogados, prostituídos, escravizados, etc.etc.etc.  


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”