ALÉM DAS BIBLIOTECAS


LEITOR E LEITURA: UM ENCONTRO DE AMOR? LEITURA, ESCRITA E INTERNET

Diante desta temática tão ampla e ao mesmo tempo, tão sugestiva, por estar impregnada de fantasia – onde há a palavra AMOR, rondam a fantasia, o sonho e o devaneio –, optamos por enfocar o trinômio LEITURA, ESCRITA E INTERNET. Começamos com duas notícias: uma excelente; uma, muito ruim. Como se faz no dia-a-dia, iniciamos com a nota auspiciosa, constante da edição do Jornal Nacional, sete de setembro de 2011, atualizado às 21h32:

 

O Dia da Independência do Brasil foi comemorado com desfiles militares e cívicos [...] Fantasmas, múmias, bruxas e bailarinas: em Osasco, na Grande São Paulo, um 7 de setembro com caras diferentes.

 

“A ousadia é fantástica. As crianças estão interagindo mais. Nos outros desfiles não estavam assim”, elogiou a artesã Gleice Amaral.

 

O desfile cívico virou uma grande festa literária contada por mais de dez mil crianças. Foi exatamente a leitura que levou todas elas para lá.

 

Uma vitória para a dona da ideia. “Cada uma das crianças que estão participando leram em dois meses cinco títulos de livros, o que é bastante promissor”, comentou Mazé Favarão, secretária municipal de Educação de Osasco.

 

Promissor é o que já está acontecendo nas escolas da cidade. “Quando você começa a ler, o mundo te leva a outro mundo, entendeu? Te leva para um lugar que você não conhecia antes”, conta Mariane Soares, de 10 anos [...]
(Site: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/09/dia-da-Independencia-leva-45-mil-para-esplanada-dos-ministerios.html)


Também bem atualizada, matéria publicada em jornal impresso de Teresina, Piauí, O Dia, edição de 12 de setembro de 2011, da autoria de Pedro Lessi, jurista brasileiro com formação na Ohio University, Columbus, Estados Unidos da América (EUA), denuncia nova e perigosa tendência no processo de alfabetização, tanto naquele país como no Brasil:

 

A digitação em teclados e smartphones e aparelhos similares parece ser a forma de escrita do futuro, mas e daí? Por causa disso vamos abandonar a forma maior de escrita, que é a tradicional, ou seja, a letra cursiva? Pois é o que está acontecendo em algumas regiões dos Estados Unidos, onde a digitação simplesmente substituirá a letra cursiva nas escolas. Norma aprovada em Indiana, nessa semana, exige que as escolas ensinem as crianças a digitarem, mas não as obriga a treiná-las no uso da letra cursiva.

 

Esta iniciativa [...] faz parte de um projeto amplo [...] adotado por 46 Estados (o país possui 50) em junho de 2010. Ele delimita as habilidades que as crianças precisam ter. Para ele, a digitação é uma dessas habilidades, mas a escrita cursiva, não.

 

...................................................................................................................

 

Aqui no Brasil [...] quem defende tal prática diz que hoje as crianças não mais necessitam escrever com caneta ou lápis no papel, o que é inverídico, pois a tecnologia não ocupou 100% do dia-a-dia de qualquer pessoa.
(Site: http://issuu.com/jornal-0-dia/docs/j-8?mode=a_p)

 

Acrescentamos: a tecnologia nem ocupa 100% do dia a dia de qualquer pessoa nem tampouco alcança todas as coletividades, haja vista a realidade de parcela significativa da população brasileira que continua fora do circuito das redes eletrônicas de comunicação. Se antes, falávamos de exclusão social, agora, mencionamos também a exclusão ou o analfabetismo digital. Estamos nos referindo aos que vivem em situação de pobreza e / ou de extrema pobreza, segundo classificação do Governo Federal brasileiro para justificar a distribuição de auxílios sociais. São os desempregados ou subempregados. São os que compõem grupos raciais e étnicos minoritários. São os presidiários, os drogados, os bandidos, as prostitutas com poucos recursos e, às vezes, os enfermos, os hospitalizados e os portadores de deficiências físicas. E pondo no lixo os eufemismos, o que dizer dos velhos? As barreiras impostas por diferenças entre as gerações, entre os saberes e os valores culturais, salvo raras exceções, os expulsam das inovações tecnológicas.

 

Na realidade, no Brasil ou fora dele, há um número elevado e difícil de definir estatisticamente de indivíduos fora dos avanços da ciência e tecnologia. E mais, ao lado dos excluídos por razões de ordem social, cultural, econômica e política (impossível esquecer o rígido e implacável controle informacional vigente nos regimes ditatoriais), há, ainda, quem não se aproxime das tecnologias por decisão de fórum íntimo. Por determinação pessoal, recusam-se a se submeter à ordem tecnológica. Às vezes, nutrem sentimentos de repulsa ou de rejeição diante dos aparatos tecnológicos. Não constituem uma subclasse até porque não se sentem assim. São opções de vida. São leituras de vida. Merecem apreço e respeito, e não comiseração, dentro do refrão popular, segundo o qual o difícil de viver é aceitar as diferenças.

        

Como veem, são duas notícias atuais e que se referem, respectivamente, à leitura e à escrita, mas são em si contraditórias. Enquanto a primeira traz à tona o universo mágico da leitura como possibilidade de ler o próprio mundo (retomando Paulo Freire) e novos mundos (retomando a fala da menina Mariane, entrevistada na reportagem do JN), a segunda denuncia o risco de ignorar os que estão à margem da tecnologia. Se a alfabetização substitui a letra cursiva (ou “letra de mão”) pela letra bastão (ou de forma) por ser mais fácil sua assimilação, podemos até aceitar a inovação, ainda que reconhecidamente a letra cursiva seja um recurso valioso para desenvolver a coordenação motora fina. Se tal substituição ocorre a partir da premissa de que a escrita não constitui mais uma habilidade a ser estimulada, cedendo seu lugar à digitação, estamos diante de um disparate.

 

Por exemplo, quando o citado projeto do Conselho de Diretores de Colégios e da Associação Nacional de Governadores dos EUA diz textualmente que, na contemporaneidade, uma das habilidades centrais dos educandos deve ser “[...] usar a tecnologia – inclusive a Internet – para produzir e publicar textos para a interação e a colaboração com colegas”, além de olvidar a exclusão digital (mesmo naquele país), relega elementos relevantes. Em primeiro lugar, a produção de textos independe dos artefatos tecnológicos. Envolve motivação pessoal; exercício de criatividade; conhecimento do idioma; sensibilidade diante de situações novas; flexibilidade na convivência com os demais; conhecimento de outras culturas; dinamismo; persistência; visão ampla de mundo; comportamento ético; dom de inovação; e capacidade de desvendar novos caminhos (originalidade) e, sobretudo, leitura, muita leitura. A intimidade com o computador é apenas um requisito a mais, com a ressalva de que a estes itens, é possível acrescentar outros em consonância com a individualidade de cada produtor, seja criança ou não, seja brasileiro ou não, seja católico ou ateu...

 

Segundamente, ao apregoar a ditadura da tecnologia sobre o processo de criação, os EUA (via seus representantes) esquecem que o agrupamento leitura, leitor e Internet traz em si vantagens e desvantagens. Os textos no espaço virtual se impõem, quase sempre, como hipermidiáticos, interativos e hipertextuais. Isto é, permitem a convergência de variados meios, acentuam a relação dialógica autor-leitor e tentam suprir as demandas dos cidadãos, de forma individualizada.

 

Se a interatividade prevê oportunidades de participação do internauta para expressar opiniões, votar, enviar produções em vídeo ou em outros suportes, a hipermídia agrega informações sob a forma de gráficos, sons, fotos, narração, sequências animadas e outros tipos de dados, organizadas segundo o modelo associativo e de remissões, próprio do hipertexto. Este consiste em método de organização não linear de informações, permitindo a cada um selecionar o material que vai ler / ver / ouvir, quando e como o fará. O próprio interessado manipula o sistema, graças às interfaces amigáveis homem x máquina: o leitor percorre caminhos bastante diferenciados ainda que diante de um mesmo texto. Ao manipular os dados, não apenas supre suas necessidades informacionais, em tempo mais ágil, com maior acuidade, graças à gama de recursos disponíveis e à leitura hipertextual, que favorece alternâncias, supressões e acréscimos. Vai além. Efetiva comunicação democrática e dinâmica rumo à ciber-cidadania, em que o processo de escrita e leitura é compartilhado, as páginas frias ou “poéticas” dos impressos dão lugar a textos variados, permitindo a quem assim o deseje se tornar autor e editor de suas produções.

 

Porém, por trás dessas trajetórias solitárias e “independentes”, está o controverso “internês”. Para alguns, responsável pela degradação dos idiomas. Para outros, responsável pela aproximação entre cultura escrita e cidadãos não letrados, resgatando na escrita digital a reconstrução de laços entre os internautas. Se o “internês” constitui per se um tema à parte e que comportaria discussões acirradas, ainda no que se refere à ditadura da tecnologia versus criação textual chamamos a atenção para a superficialidade crescente na leitura e, por conseguinte, na escrita.

 

A cada dia, observamos crescente horizontalização das leituras. O leitor / o escritor não apenas perde as chances de uma visão totalizante dos temas como também abandona o interesse por obras mais densas, básicas e / ou de conteúdo clássico, essenciais à formação de qualquer profissional.  Aqui, por uma questão de justiça, lembramos que mesmo antes da expansão da Internet, a prática do "xeroquismo" adotada em escolas do ensino médio e universitário também conduz a conhecimentos rasteiros, em meio ao que denominamos erroneamente de sociedade de informação, na verdade, sociedade de desinformação ou sociedade de aprendizagem. Isto porque, há muito tempo, as fotocopiadoras instaladas em escolas e universidades, amparadas pela atitude dos docentes em “cobrarem” a leitura de um ou outro capítulo de livros, reinam como soberanas. E o que dizer da prática também em expansão de alunos que estudam para eventuais avaliações graças à cópia de eslaides cedidos por professores ou pior, graças às anotações dos cadernos de companheiros de classe? Há de tudo...

 

É inquestionável que esses vícios contribuem, em muito, para a mediocrização do ensino, que se não é generalizada, parece contagiante, desde que se tem propalado assustadoramente. Neste momento, é preciso lembrar que os educandários não são os únicos responsáveis pela educação: a família precisa acompanhar a vida escolar de seus filhos e o uso que crianças e adolescentes fazem da Rede.

 

Se a Internet integra nossa realidade de forma irremediável, nos resta tirar máximo proveito de suas potencialidades sem, no entanto, visualizá-la como panaceia para a formação integral de cidadãos, estejam onde quer que estejam. Devemos manter uma postura racional e vanguardista frente às mutações que se anunciam, mas seguros de que toda e qualquer mudança comporta pontos positivos e negativos. Por exemplo, retomando as múltiplas possibilidades do hipertexto, sem dúvida, a mudança mais significativa é o entrelaçamento entre as funções do autor e as do leitor. O hipertexto transfere parte do “poder” do autor para o leitor. Este, agora, determina sua trajetória de leitura, elaborando um metatexto: faz anotações, estabelece interconexões com outros documentos do mesmo autor ou de outros.

 

E ao definir sua rota de leitura entre textos e autores, o leitor-usuário concebe novo sentido ao texto proposto, ou seja, um sentido pessoal, que pode transformar o original num novo texto, dentro da dinamicidade da leitura-escritura. A informalidade das relações estabelecidas, o conflito entre teorias e preceitos, a desobediência a regras pré-fixadas, a impossibilidade de linhas de pensamento hegemônicas conduzem a novas formas de geração e assimilação de leituras / escritas / saberes e a novas formas de agir, pensar e viver. Assim, ao lado do hipertexto e da hipermídia, a interatividade constitui um dos maiores trunfos da virtualidade, assegurando diálogo rico, em que às informações disponibilizadas se acrescem observações, às vezes, apontando ângulos imperceptíveis ao primeiro autor. Na contramão de vantagens tão abrangentes, ronda a expansão das fraudes, dos embustes, das falcatruas, em síntese, o desrespeito à autoria...

 

Por fim, diante da temática leitor e leitura: um encontro de amor, e mais especificamente, diante do trio leitura, escrita e internet, resta-nos a certeza de que a produção de textos ainda é, em sua essência, um ato de criação, geração, gestação, e, sobretudo, de amor, que vai muito além da força das inovações tecnológicas. Alunos que leem e escrevem podem desmentir a crença quase generalizada de que os estudantes estão cada vez mais despreparados ante o mercado de trabalho, segundo palavras recentes da articulista da revista Veja, Lya Luft, para quem:

 

[...] as empresas reclamam da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, médicos e advogados quase não sabem escrever, alunos de universidade têm problemas para articular o pensamento, para argumentar, para escrever o que pensam. São, de certa forma, analfabetos [...] Não é alfabetizado quem sabe assinar o nome, mas quem o sabe assinar embaixo de um texto que leu e entendeu. 

 

Alimentar esta esperança, e, sobretudo, lutar com nossa ação cotidiana e incansável pode afastar para longe o fantasma da realidade que ora se apresenta de forma tão cruel e verdadeira, porque fundamentada em números precisos e implacáveis. Os dados das provas do famoso Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ano 2010, e somente agora divulgados, mostram que apenas 6% das escolas (= 1.500) do total de 23.900 participantes podem ser categorizadas como educandários capazes de formar alunos prontos para competir na economia global e / ou digital do século XXI. Matéria assinada por Renata Betti, Luís Guilherme Barrucho e Sandra Brasil, edição da Veja de 21 de setembro de 2011, evidencia que são índices espantosos e desastrosos. É urgente a mobilização de todos – Governo e sociedade civil – no sentido de colocar a educação como prioridade nacional sem a ilusão de que a tecnologia per se é a solução para nossos males...

 

Fontes

 

BETTI, R.; BARRUCHO, L. G.; BRASIL, S. É preciso preencher a cabeça deles. Veja, São Paulo, ano 44, n. 38, p. 92-96, 21 set. 2011.

 

LESSI, P. O emburrecimento da população brasileira e mundial.  O Dia, Teresina, p. 2, 12 set. 2011.

 

LUFT, L. Educação: reprovada. Veja, São Paulo, ano 44, n. 37, p. 24, 14 set. 2011.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”