ALÉM DAS BIBLIOTECAS


BRINCANDO DE BIBLIOTECAS: UMA FORMA DE SER FELIZ

Alguém me envia um questionário de pesquisa sobre a atuação do profissional bibliotecário em projetos sociais. Nossas respostas às múltiplas perguntas se resumem numa só: a participação de bibliotecas e bibliotecários em projetos sociais é a face mais visível da biblioteca – instituição eminentemente social – e do bibliotecário como agente social. Mesmo assim, salvo honrosas exceções, nos cursos acadêmicos de Biblioteconomia, o tecnicismo ainda persiste – há distanciamento da prática social, há descompasso entre o que se diz e o que se faz. Salvo honrosas exceções, falta aos professores formação pedagógico-didática. Falta aos professores sensibilidade de uma ação conjunta entre docentes, discentes e sociedade. E a deficiência na academia se reflete na atuação “capenga” do profissional jogado no mercado de trabalho.

 

Resgatar o direito à informação para todos é a missão mor do bibliotecário. Mas não é imprescindível ter formação específica para exercitar a prática cidadã. Há casos, entre milhares de outros, que encantam. Por exemplo, um gaúcho de Alegrete, Robson Mendonça, com a morte trágica da mulher e dos filhos num acidente, se vê nas ruas, onde permanece por seis anos, até 2003. Em meio à desilusão extrema, um hábito não lhe abandona: o gosto pela leitura. Mas, na condição de morador de rua, enfrenta a burocracia. Não consegue usar o material das bibliotecas por falta de endereço fixo.

 

Decidido a retomar o rumo da vida, se apoia na leitura para resgatar a dignidade. O “ponto de arranque” é o contato com a célebre obra “A revolução dos bichos” de George Orwell. Decide criar a bicicloteca (institutomobilidadeverde. wordpress.com/bicicloteca), a partir da premissa de que a leitura é um instrumento de inclusão social por excelência. Com o apoio da ONG Mobilidade Verde (http://institutomobilidadeverde.wordpress.com) e de voluntários, sem nenhuma ajuda governamental, consegue uma bicicleta equipada com um baú contendo centenas de títulos.

 

Assim, desde 2003, o sessentão Robson faz circular livros variados e sonhos nas ruas de São Paulo capital. Graciliano Ramos e Jorge Amado convivem em harmonia com autores estrangeiros, a exemplo do norte-americano Truman Capote. O leitor pode devolver o livro quando quiser. Pode propor trocas. Pode passar adiante para quem se interessar. Pode fazer doações à bicicloteca. Com sua perseverança, esse cidadão brasileiro já conseguiu expandir sua ideia para bibliotáxis, que colocam livros à disposição dos clientes. Sonha em atingir os metrôs. E segue em frente apesar de já ter sido roubado – um dia, levaram sua bicicleta, posteriormente recuperada, numa evidência da violência urbana de nossas cidades.

 

Na Colômbia, outro exemplo de superação. Trata-se de uma biblioteca itinerante montada em dois burros, Alfa e Beto. Nesse caso, circula nas zonas rurais mais afastadas e mais empobrecidas do país, exatamente em La Gloria. Idealizada pelo professor do ensino fundamental Luis Soriano, 36 anos e habilitação em Literatura Espanhola, circula aos finais de semana. São dicionários, obras literárias, muitos livros infanto-juvenis, alguns livros didáticos. Há um pouco de tudo. São quase 5.000 títulos. Para El Profesor, mais do que novidade, é um dever social. De novo, alguém acredita no poder transformador da leitura para o ser humano e para as coletividades. De novo, os governantes se fazem ausentes.

 

Há muito mais. O “Projeto lê pra mim” (lepramim2010.blogspot.com) consiste em fazer com que famosos dediquem minutos de sua vida contando histórias para crianças. De autoria da atriz Sônia de Paula tem percorrido capitais brasileiras, com destaque para Belém e a capital Brasília. Todas estas são iniciativas que alertam a bibliotecários e aos cidadãos em geral sobre o poder da leitura e, quiçá, da alegria que pode haver na produção de textos. É o lado luminoso de um Brasil coalhado de analfabetos à espera de uma chance de desvendar letras e mundos!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”