ALÉM DAS BIBLIOTECAS


A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

Mais um filme fundamentado em obra ficcional. Desta vez, trata-se do drama norte-americano The book thief (A menina que roubava livros), ano 2013, 131 minutos, rodado pelo diretor Brian Percival e produzido por Karen Rosenfelt e Ken Blancato.  Sua fonte de inspiração é o romance do jovem autor australiano, Markus Zusak, que leva o mesmo título. Aliás, ao lado de Michael Petroni, o próprio Zusak aparece como um dos roteiristas da filmagem.

 

Sempre que uma película parte de um livro, há discussões intermináveis sobre sua fidelidade ou seu distanciamento diante da essência da obra. Há questionamentos reincidentes: qual o melhor? O livro ou o filme? Há quem diga: “no livro não era assim”; “o diretor deturpou a obra” e comentários do gênero. São atitudes de certa forma ingênuas, haja vista que literatura e cinema não se opõem. São artes que mantêm, inevitavelmente, suas especificidades. Em meu caso, confesso sem pudor: adorei ambos, livro e filme. Há alguns anos li a obra literária, lançada originalmente em 2005. Precisei revisitá-la. Apesar de densa e longa – 539 páginas na edição em espanhol, ano 2007 – lembro que sua leitura se deu num fôlego só. O mesmo ocorreu com o filme: não consegui desviar o olhar um só minuto da telona mágica.

 

Mesmo assim, diante das diferenças (graças a Deus!) que há entre os indivíduos, lembro que há poucos dias, encontrei alguém que não conseguiu ler o livro, simplesmente por não compreendê-lo. Talvez, isso se explique pelo fato de que, tanto no livro como no filme, o narrador é a morte. É muito interessante! Sua imagem simbólica – uma pessoa ou uma caveira com capa preta e foice nas mãos – que, aliás, representa a maior mudança de nossas vidas, – não aparece. Os diálogos conduzidos pelos personagens são de beleza extrema. As colocações da morte, com voz imperativa que soa ao fundo das cenas, vão desvencilhando enigma por enigma, externando, aqui e ali, seu apreço e seu desacordo, mas, inevitavelmente, leva à reflexão.

 

E há mais: há quem diga, de forma quase hilária, que livro e filme não refletem a essência da história. Algo assim: “afinal a menina Liesel [protagonizada por Sophie Nélisse] nem rouba tantos livros assim! Toma emprestado, na maioria das vezes”. É alguém que passa longe do entendimento de que o título reflete muito mais do que a ação de furtar. Reflete, sim, o amor desmesurado da criança por livros, o que a faz aprender a ler às escondidas com a ajuda do pai adotivo. É a leitura como forma de desvendamento do mundo!

 

É a época do impiedoso nazismo de Hitler. A caça às bruxas visa judeus, deficientes físicos, comunistas e outros segmentos marginalizados. São eles perseguidos e torturados à exaustão, quando conseguem escapar de mortes violentas e cruéis. É uma fase dura, da qual Liesel sobrevive com o coração em chagas. Afinal, são muitas perdas. Além do irmão pequenino que morre no trem quando a mãe leva os dois filhos para um subúrbio pobre numa pequena cidade alemã para adoção, a mãe comunista se esvai, de imediato, como fumaça. E é, exatamente, no momento de muita dor, quando do sepultamento do irmão, que Liesel consegue a façanha de “pedir emprestado” seu primeiro livro, fora de qualquer olhar vigilante, graças ao descuido do ajudante de coveiro, que deixa cair sua cartilha de aprendiz na imensidão da neve. 

 

Os pais adotivos a querem: cada um à sua maneira. O pai Hans (Geoffrey Rush) é o anjo de todas as horas, com quem divide momentos de intensa alegria e / ou de intensa tristeza. A mãe é Rosa (Emily Watson). Por baixo da “carcaça” de dureza, esconde uma alma frágil e amorosa. Nesse meio tempo, se dá a chegada de Max (vivido por Ben Schnetzer), judeu acolhido secretamente pela família. É ele quem leva Liesel a descobrir a magia da escrita e a força das palavras. Afinal, é a palavra que eterniza fatos e fenômenos e, sobretudo, põe a descoberto as profundezas da alma humana. Na verdade, é muito júbilo em meio a muita dor.

 

O fato é que quando todos partem levados pelas mãos frias da morte, inclusive o amiguinho de todas as horas, Rudy (Nico Liersch), a Liesel, como a qualquer outro sobrevivente de grandes guerras (como se fora possível guerras pequenas em seu horror sempre imenso!) resta somente um futuro cheio de incógnitas. Mas a vida continua...

 

Aos 90 anos, casada, com filhos e netos, vai ao encontro da morte. Antes, já reencontrara o amigo Max, com quem mantém vínculos de afeto até os últimos dias de vida. Afinal, graças ao amigo, conseguira ir além da mera repetição de palavras para conseguir brincar com elas de forma amorosa. Como os grandes literatos, Liesel Meminger, sensibilidade aguçada, conseguira alçar voos de imaginação graças à delícia do jogo das palavras. Eis Liesel como famosa escritora, bem além de uma simples menina que roubava livros!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”