ALÉM DAS BIBLIOTECAS


REESCREVENDO CLÁSSICOS: SOLUÇÃO OU EMBUSTE?

Consenso é algo difícil de ser conseguido. Há muito tempo, frase atribuída a então primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Hilda Thatcher, que “reinou” entre 1979 e 1990, dizia algo mais ou menos assim: “o consenso é sempre escassez de lideranças associada ao excesso de conveniências”. Na realidade, é difícil aceitar opiniões divergentes e que fogem ao previsto no dia a dia. Mas há fatos realmente assombrosos. Enquanto planos de estudo e / ou de pesquisa de reconhecido valor são vetados por serem apresentados, às vezes, sem os “devidos padrinhos” junto aos órgãos governamentais, outros seguem adiante, nem que causem transtornos e impasses extremamente negativos a qualquer pessoa de bom senso.

 

Projeto apresentado ao Ministério da Cultura do Brasil, país sempre espantosamente pleno de novidades e surpresas, quase sempre, nem gratas nem benéficas à população, prevê a reedição de autores clássicos brasileiros com “escrita facilitada”, ou seja, com palavras de acesso mais fácil à população. Em “Os clássicos e a leitura”, o primeiro título da listagem é a obra de Machado de Assis, “O alienista”. Vamos lá: desde sempre, ao longo de toda uma vida, como criança, adolescente, adulta, educadora e aprendiz, soube que os dicionários existem para dirimir dúvidas, ampliar o vocabulário e desvendar universos inimagináveis. A prova está que até hoje, aos 66 anos, no momento em que ligo o computador, gesto automático e imediato, abro o dicionário eletrônico. Tem sido sempre assim. Insisto, inclusive, em oficinas de redação ministradas a alunos de graduação, de pós-graduação e / ou a companheiros de profissão, a riqueza que o uso de dicionário proporciona a qualquer indivíduo. Sem contar a lenga-lenga junto aos filhos e netos...

 

Além de uma primeira alternativa do tal projeto em investir maciçamente na vulgarização dos dicionários de línguas, ou, se for o caso, em obras especializadas, há uma segunda opção. Indicar a quem possui dificuldade genuína de compreender os clássicos, obras “facilitadas” por si mesmas. Há muito escritor / novelista / contista que escreve de forma simples ou simplória. Aqui, é só retomar um dos preceitos estabelecidos em 1928 e publicados, pela primeira vez, ainda em 1931, pelo indiano Shiyali Ramamrita Ranganathan.  Dentre as denominadas “cinco leis da biblioteconomia”, uma se aplica “em cheio” ao projeto do MinC, em pleno século XXI, ano 2014. Refiro-me à prescrição número dois do “pai da biblioteconomia da Índia”, que diz com simplicidade e clareza indiscutível: a cada leitor seu livro.  Enfatiza a multiplicidade de usuários a que o livro, como recurso precioso, pode atingir. É sempre possível permitir a qualquer interessado – letrado e iletrado; rico e pobre; criança e jovem; adulto e velho; homem e mulher; surdo e mudo; alfabetizado, neoalfabetizado e analfabeto; quem navega em oceanos profundos ou quem desbrava céus azulados; quem se restabelece de um dia de trabalho no sofá confortável de sua casa ou quem luta num leito sujo de hospital – o deleite advindo da leitura como riqueza suprema. Basta a sapiência de pais, mestres, bibliotecários e quaisquer outros envolvidos em identificarem a verdadeira demanda do leitor em forma embrionária.

 

Tudo isso põe por terra o argumento da idealizadora do Projeto, Patrícia Engel Secco, que afirma com insensatez: “A ideia é distribuir os livros para não leitores, para pessoas simples, que sequer sabem quem é Machado de Assis, como o meu eletricista ou o porteiro do meu prédio. Quero aproximar os clássicos dessas pessoas, não distribuir livros em escolas, para crianças. Aliás, nem quero que os jovens leiam isso (grifos nossos). É para um outro (sic) Brasil, para aqueles que nunca leram e de repente querem ter a oportunidade de conhecer um livro […]” (http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/08/projeto-para-descomplicar-machado-gera-racha-ate-entre-escritores.htm). Haja preconceito interiorizado! Haja segregação afrontosa!

 

Terceiro argumento tão simples quanto os dois anteriores é acrescentar à edição dos clássicos “complicados” (barbaridade!) um glossário. Talvez Patrícia, como escritora moderna e “descolada” (de quê?), desconheça que os adendos, ao final de algumas edições, servem como “dicionários de bolso”. Explicam o significado de palavras de pouco uso; elucidam termos técnico-científicos ou jargões; “traduzem” expressões regionais ou de emprego restrito. Enfim, todas são alternativas possíveis, sem que seja preciso mutilar ou agredir clássicos brasileiros.

 

Afinal, espera-se do MinC que cumpra, no mínimo, o que propõe em sua página institucional, qual seja, desenvolver políticas de fomento e de incentivo no campo das letras e artes, do folclore e das mais distintas formas de expressão da cultura nacional, incluindo, logicamente, tanto o patrimônio histórico e arqueológico quanto o artístico e literário. E eis mero adendo: chama atenção a dificuldade de localizar no site do MinC o Projeto em sua íntegra! Não consegui! Por que será?


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”