LEITURAS E LEITORES


CONTAR HISTÓRIAS NA ESCOLA

Ouvir histórias, desde os tempos mais remotos, leva as pessoas a se nutrirem de imaginação e fantasia, alimentos que parecem invisíveis e pouco importantes na vida cotidiana, mas que estão intrinsicamente presentes em cada pessoa durante o seu dia.

 

Da vida para a escola, esse microcosmo social, o contar histórias tem sido utilizado como estratégia pedagógica para formar leitores no meio escolar. Mediada pelo professor ou pelo bibliotecário escolar, a história contada ou lida diretamente do livro estimula a fantasia infantil e essa é uma das maneiras de a criança elaborar o mundo a sua volta, principalmente, o mundo que está dentro dela mesma e que ainda não compreende na totalidade.

 

Nesse caso, a história auxilia o amadurecimento psicológico da criança, ajuda-a na compreensão de suas emoções e, portanto, a lidar melhor com elas e com o meio que a rodeia.

 

A escola, ainda que existam críticas a respeito da condução da leitura em seu meio, continua a ser uma das principais promotoras da formação de leitores, em larga escala, no Brasil, daí a importância pedagógica de se oferecer Hora do Conto no espaço escolar.

 

Ao se optar pela Hora do conto na escola como procedimento pedagógico para formar leitor, a escola reflete: por que contar histórias aqui? A resposta a essa pergunta desvela a concepção que a escola tem a respeito de formar leitores. Essa missão, na escola, não é apenas do professor de sala de aula, mas de toda a estrutura escolar, pedagógica e administrativa, que deve corroborar para isso.

 

No âmbito pedagógico, por exemplo, devem estar em consonância professores e coordenação pedagógica que, por extensão, estão intimamente ligados à direção da escola. Assim, cada setor em sua instância trabalhará em prol da formação de leitores: desde a organização do projeto político escolar, passando pelas intervenções pedagógicas ao espaço destinado à leitura na escola.

 

Na convivência com a leitura, cabe à escola oportunizar ao seu aluno momentos orientados pelo adulto de forma sistemática e momentos livres em que o aluno busque a leitura espontaneamente, sem a tutela do professor, ou bibliotecário escolar. Aliado a tudo isso, a biblioteca escolar deve ser acessível, com acervo e mediação disponíveis para todos da escola.

 

A coexistência de atividades programadas, como é o caso da Hora do Conto, e momentos livres é perfeitamente compatível quando se propõe a formar leitor na escola, pois a compreensão disso é fundamental para o êxito da proposta, uma vez que a leitura é algo íntimo, mexe com aspectos psicológicos internos que precisam de tempo ocioso para serem processados.

 

Portanto, ao almejar que a criança se transforme em leitora, não convém transformar os momentos de encontro com a leitura, em especial na Hora do Conto, num compêndio de atividades para inculcar preceitos morais, regras ortográficas, geográficas e qualquer outra prática escolarizante.

 

Compreender que as histórias ensinam por si mesmas e que cada criança, de acordo com seu desenvolvimento pessoal, apreende aquilo que pode apreender no momento, pois na infância é o envolvimento da criança com a leitura que trará benefícios e isso se dá sem que ela perceba, pois foi envolvida pela ficção, pela fantasia.

 

Para estimular a imaginação infantil, a história deve, predominantemente, se instalar na imaginação e no coração da criança, ou seja, razão e emoção, pois é uma mudança interna, demorada, contínua. Assim, trabalhos como desenhos, pinturas, ou redações após a Hora do Conto apresentam uma parte externa e que, nem sempre, é o substancial na formação da criança. O que a história contribui para cada criança não é visível a olho nu, imediatamente, mas contribuirá para seu amadurecimento como pessoa ao longo de sua vida.

 

Àquele que deseje contar histórias na escola, professor de sala de aula ou professor da biblioteca ou bibliotecário escolar é preciso refletir que:

 

- você deve ser o primeiro a gostar da história que vai contar. Se a história lhe emocionar, ao contar, também emocionará seus alunos.

 

- leia a história antes, ao ponto de ter intimidade com ela, com a escrita, de modo que, ao lê-la, seja natural e, portanto, fique agradável e claro para a criança que ouve.

 

- cada contador tem sua maneira de contar, encontre a sua em cada história que contar. Você deve ser a primeira pessoa a se sentir bem ao contar a história.

 

- ao iniciar com turmas novas que talvez não tenham a convivência com atividade de Hora do Conto, procure estabelecer uma rotina para a contação de histórias, principalmente nos dois primeiros meses, para que a criança vá compreendendo que tipo de atitude se espera dela nessa atividade pedagógica que vai prepará-la para ouvir, compartilhar opiniões e, principalmente, expor suas opiniões, comentários e ou silêncios.

 

- antes de começar a história, procure ter um momento em que explore a oralidade dos alunos em direção ao que trará a história, sem revelar o enredo. Assim, tratar de assunto que esteja no universo temático da história que será ouvida, pois essa é uma das maneiras de diminuir a ansiedade da criança, o que, consequentemente, evitará interrupções durante a contação de histórias.

 

 

Obras que embasam as concepções deste texto:

- Contar Histórias: uma arte sem idade – Betty Coelho

- A psicanálise dos contos de Fadas – Bruno Betelheim

- Fazeres cotidianos na Biblioteca Escolar: Rovilson J. Silva e Sueli Bortolin (Orgs.)

 


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.