BIBLIOTECONOMIA DIGITAL


AS BIBLIOTECAS E O ALUGUEL DE LIVROS DIGITAIS

Uma das oportunidades que tive em minha carreira foi passar um período em bibliotecas escolares. Lembro-me dessa época com carinho. Foi um local onde convivi com educadores, estudantes e crianças da pré-escola que exercitavam os primeiros contatos com o universo dos livros. Foi nessa ocasião também que escutei pela primeira vez a pergunta: Você aluga livros? Sempre que recebia esse questionamento eu orientava o aluno que ele não precisava alugar livros, mas podia toma-los emprestados, sem custo. Certo tempo depois, já fora de bibliotecas escolares, essa pergunta novamente volta a ser feita, agora na mídia, nas redes sociais, em diversos lugares, e passa a ser um serviço oferecido ao público.

 

Bibliotecas não alugam livros. Aliás, são vistas como locais que não representam lucro, o que usualmente dificulta a obtenção de recursos. Evidentemente as bibliotecas proporcionam ganhos, porém não são simples de serem mensurados e não costumam ser representados em estatísticas ou balanços.

 

Mudanças advindas com a digitalização do livro são propagadas há tempos, principalmente se for considerado que os livros digitais são utilizados em bibliotecas no exterior há mais de dez anos. Da mesma forma que ocorreu com a música, a conversão ao formato digital pode vir a proporcionar mudanças na forma de consumo dos livros, com a aquisição sendo alterada a partir da experiência do usuário (NEWMAN, 2014). E esses reflexos serão sentidos nas bibliotecas, independente do segmento no qual ela está inserida.

 

A notícia de destaque dos últimos dias foi o aluguel de livros oferecido pela Amazon. Esse serviço já vem sendo praticado por empresas que enxergaram um segmento de negócios interessantes: oferecer um serviço onde o leitor pode consultar diversos livros pagando um valor fixo. Conhecidos como o Netflix dos livros, os serviços de assinatura de ebooks são oferecidos por empresas como o Scribd, Oyster Books e o Entitle (SERRA, 2014). No Brasil damos destaque a Árvore de Livros e o Nuvem de Livros.

 

No Árvore de Livros o leitor pode consultar quantidade ilimitada de títulos, podendo utilizar-se simultaneamente de até três obras. Seu acervo é voltado ao público escolar (fundamental e médio) e o serviço é oferecido apenas para escolas e empresas (ÁRVORE DE LIVROS, 2014).

 

O Nuvem de Livros é oferecido para clientes da operadora Vivo e o período assinado pode ser semanal ou mensal, com renovação ocorrendo de forma automática. Por um valor fixo o leitor tem acesso a amplo acervo digital, com livros, audiolivros, entrevistas, filmes, conteúdo interativo, enciclopédias etc. (NUVEM DE LIVROS, 2014).

 

A Amazon já possui um serviço de empréstimo de livros, o Kindle Owner’s Lending Library. Nele, o proprietário de qualquer modelo de Kindle filiado ao programa Amazon Prime pode tomar emprestado um livro digital e utiliza-lo por tempo indeterminado. Um novo empréstimo somente será autorizado quando ocorrer a devolução do título que estava com o leitor (AMAZON, 2013). O objetivo desse programa é aumentar a comercialização do dispositivo de leitura da Amazon (em qualquer modelo), visto que não é um serviço expansível a leitores de tablets diferentes do Kindle Fire, mesmo com a instalação de aplicativos IOS ou Android. Os clientes Prime têm acesso a 500.000 títulos para empréstimo (com exceção de audiobooks), além de músicas, filmes etc., ao custo de US$ 100/ano (KNIBBIS, 2014).

 

O serviço de assinatura Kindle Unlimited (KU) é pago. O anúncio vazou um pouco antes do previsto e causou um burburinho na internet. As páginas que tratavam do assunto foram retiradas do ar e isso apenas aumentou a curiosidade. A um custo de US 9,99 mensais (US$ 120/ano) os leitores têm à disposição uma oferta de 600.000 títulos e audiobooks, inclusive lançamentos (AMAZON, 2014). Restrito aos Estados Unidos, a oferta permite a leitura de títulos de diversas edições, apesar de não terem sido localizadas obras de grandes editoras como a HarperCollis, Simon & Schuster e outras do grupo das Big Five, por exemplo (DIGITAL BOOK WORLD, 2014; KNIBBS, 2014), presentes nos catálogos dos concorrentes Oyster e Scribd. Aparentemente boa parte do conteúdo é formada por obras lançadas pela ferramenta de autopublicação da Amazon, o Kindle Direct Publishing Select, oferecendo títulos que são exclusivos da loja virtual. A remuneração dos autores será feita com base na leitura realizada, que pode ser medida pelo acesso ou porcentagem da obra que já foi lida.

 

A assinatura da Amazon não é limitada aos proprietários do Kindle como ocorre com o Kindle Owner’s Lending Library, com o recurso disponível aos leitores que se utilizam dos aplicativos em tablets. Além dos audiobooks, também é oferecido o acesso à plataforma Whispersync for Voice, que realiza a leitura de livros digitais. Esse recurso – opcional e disponível para o Kindle Fire e tablets com os sistemas Android ou IOS -, permite ampliar a experiência da leitura pela imersão, com destaque das palavras narradas na medida em que o texto é lido e escutado. Ao aderir ao serviço é oferecido um mês gratuito.

 

As bibliotecas não visam competir com esse serviço. Nossa missão não é arrecadar valores sobre os serviços prestados ou cobrar pelo uso dos acervos. As bibliotecas visam reunir, preservar, conservar e disponibilizar acesso a informações aos usuários. Obras em formato digital já estão presentes nos acervos principalmente por meio de iniciativas de open access, domínio público ou, por exemplo, pelo Projeto Gutenberg ou HathiTrust. A inclusão de conteúdo digital licenciado é complexa, com fornecedores, modelos de negócios e bibliotecas buscando uma alternativa que seja interessante a todos, incluindo nesse conjunto autores e leitores.

 

A Amazon está presente em bibliotecas norte-americanas por meio do agregador de conteúdo OverDrive. Diversas discussões ocorreram com a identificação de uso de informações de circulação dos usuários que eram feitas pela Amazon, representando violação de privacidade (SERRA, 2013). Sendo a mantenedora do serviço, o acesso aos dados dos usuários será ilimitado, assim como o próprio nome do produto lançado.

 

O serviço de assinaturas representa um desafio às bibliotecas. Como competir com oferta de conteúdo quando uma grande empresa oferece acesso ilimitado a publicações a um custo baixo enquanto as bibliotecas enfrentam cortes progressivos de verbas para aquisição, manutenção, preservação, recursos humanos etc.? Os investimentos feitos em acervo são grandes e observamos ano a ano um decréscimo nos investimentos, principalmente no setor público.

 

Além do exposto acima, outras considerações/restrições sobre o Kindle Unlimited podem ser feitas, como:

 

- Nem todas as obras estão disponíveis em meio digital (MATHEUS, 2014);

 

- A Amazon disponibiliza seus livros digitais nos formatos proprietários AZW e Mobi, limitando o acesso;

 

- Ao encerrar a assinatura perde-se acesso aos livros digitais (MATHEUS, 2014);

 

- As bibliotecas são locais de guarda e preservação de informações e promovem acesso aos documentos sob sua responsabilidade;

 

- E se a Amazon realizar aumento de preço abusivo? (MATHEUS, 2014)

 

- Como garantir que as publicações poderão ser utilizadas pelos usuários no futuro?;

 

- Nem todos os usuários tem interesse em leitura digital;

 

- Dispositivos de leitura não são equipamentos baratos ou populares;

 

- Quais as políticas de preservação digital estão envolvidas e como garantir uma conservação de longo prazo das publicações? (MATHEUS, 2014);

 

- Os leitores não podem ficar limitados às obras e autores presentes no pacote de assinaturas;

 

- Os acervos não são formados apenas por livros (em qualquer formato), mas por periódicos, imagens estáticas e em movimento, gravações de som, mapas etc.;

 

- As bibliotecas realizam empréstimos de forma gratuita. Algumas instituições podem cobrar taxa simbólica para afiliação ou multas por atrasos, mas sem taxas mensais ou anuais.

 

Não existem bibliotecas que podem abrigar acervos dessa magnitude, porém não é apropriado comparar quantidade de títulos com qualidade de oferta.

 

Quando o projeto de digitalização do Google Books foi lançado, discutiu-se sobre o risco de monopólio, com uma empresa comercial controlando o acesso a obras que deveriam estar disponíveis em bibliotecas. Não estamos vislumbrando o mesmo cenário?

 

Por outro lado, o serviço pode representar um oásis para leitores e pesquisadores, com a possibilidade de consultar e ler obras a um preço mensal baixo, sem necessidade de filas, reservas ou deslocamentos, diminuindo o investimento de aquisição. As empresas que oferecem aluguel de livros obtêm lucro em cima dos clientes que não realizam muitas leituras. Será, porém, que esse serviço se sustentará?

 

Muitas especulações estão no ar. Como os autores e editores vão reagir? Será que as grandes editoras (Big five) vão negociar com a Amazon a inclusão de seus títulos nesse serviço? O que a oferta de aluguel pode representar à cadeia produtiva do livro? E as bibliotecas, ainda terão seu espaço assegurado? Que tipo de leitor terá interesse nesse serviço?

 

Como é possível ver, as questões estão abertas e é necessário um período de observação para ver como os mercados produtor e consumidor irão reagir. Esses ventos ainda não interferem no Brasil, mas espera-se que ocorra expansão do serviço de assinatura de livros digitais. Com exceção do Árvore de livros, as opções existentes no país são voltadas aos consumidores finais e não para instituições ou bibliotecas.

 

Acredito que a pergunta do usuário Você aluga livros? será cada vez mais frequente aos bibliotecários. Apoiando Silveira (2014), já passou da hora das bibliotecas repensarem o seu papel e espaço na sociedade, com serviços e investimentos voltados ao público usuário, com apropriação do local para atividades de lazer, estudo, pesquisa, discussões e trocas de ideias. O bibliotecário é um mediador entre o acervo e seu usuário. O fato de existir serviços que disponibilizem diversos títulos aos leitores não significa que a encontrabilidade das obras está garantida ou qual uso do conteúdo será realizado. O livro digital é uma nova alternativa de acesso à informação. É o livro impresso disponível em outro formato, com as vantagens e desvantagens que essas mudanças representam. O primeiro passo é o bibliotecário utilizar-se de livros digitais. Ser usuário e leitor. E depois explorar as possibilidades que estão surgindo.

 

Referências

 

AMAZON. Introducing Kindle unlimited. 2014. Disponível em: < https://www.amazon.com/gp/feature.html/ref=sv_kstore_2?ie=UTF8&docId=1002872331>. Acesso em 20 jul. 2014.

 

AMAZON. Kindle Owners’ lending library. Disponível em: <http://www.amazon.com/gp/feature.html?docId=1000739811>. Acesso em: 21 nov. 2013.

 

ÁRVORE DE LIVROS: leia ebooks sem limites!. 2014. Disponível em: <http://www.arvoredelivros.com.br/institucional/faq>. Acesso em: 21 jul. 2014

 

DIGITAL BOOK WORLD. Amazon Officially Launches Ebook Subscription Service, Kindle Unlimited. 2014. Disponível em: <http://www.digitalbookworld.com/2014/amazon-officially-launches-ebook-subscription-service-kindle-unlimited/?et_mid=682880&rid=240989477>. Acesso em: 18 jul. 2014

 

KNIBBS, Kate. Should you get Amazon Kindle Unlimited? Gizmodo, 19 jul. 2014. Disponível em: http://gizmodo.com/should-you-get-amazon-kindle-unlimited-1607137417. Acesso em: 22 jul. 2014.

 

MATHEUS, Brian. Did Amazon just change the world?: Unlimited Kindle Books is game changer (if they can license everything). The Ubiquitous Librarian, 18 jul. 2014. Disponível em: < http://chronicle.com/blognetwork/theubiquitouslibrarian/2014/07/18/did-amazon-just-change-the-world-unlimited-kindle-books-is-a-game-changer/>. Acesso em: 21 jul. 2014.

 

NEWMAN, Jared. Amazon appears to be testing all-you-can-read Kindle ebook subscriptions. Time, 16 jul. 2014. Disponível em: <http://time.com/2992348/amazon-appears-to-be-testing-all-you-can-read-kindle-ebook-subscriptions/>. Acesso em 21 jul. 2014.

 

NUVEM DE LIVROS. 2014. Disponível em: <http://www.nuvemdelivros.com.br/>. Acesso em: 21 jul. 2014

 

SERRA, Liliana Giusti. Faz sentido pagar uma assinatura para alugar ebooks? 2014. Disponível em: <http://revolucaoebook.com.br/faz-sentido-pagar-uma-assinatura-para-alugar-ebooks/>. Acesso em: 20 jul. 2014.

 

SERRA, Liliana Giusti. Sobre redes sociais e a privacidade de informações dos usuários. Infohome, nov. 2013. Disponível em: <http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo_print.php?cod=796>. Acesso em 22 jul. 2014.

 

SILVEIRA, Alex da. Kindle Unlimited, a biblioteca sem limites mais barata que a biblioteca pública. Bibliotecno: mais ideias, mais estudos, 19 jul. 2014. Disponível em: <http://bibliotecno.com.br/?p=3444>. Acesso em: 19 jul. 2014.


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LILIANA GIUSTI SERRA

Doutoranda em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP). Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Bibliotecária com especialização em Gerência de Sistemas e Serviços de Informação pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Profissional de Informação dos softwares SophiA Biblioteca, SophiA Acervo e Philos.