ALÉM DAS BIBLIOTECAS


SOBRE IDEIAS EM RETALHOS: SEM RODEIOS NEM ATALHOS

Para alguns, sou um fotojornalista. Não é verdade. Para outros, sou um militante. Tampouco. A única verdade é que a fotografia é minha vida. Todas as minhas fotos correspondem a momentos intensamente vividos por mim. Todas elas existem porque a vida, a minha vida, me levou até elas. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou até elas. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou àquele lugar. Às vezes fui guiado por uma ideologia, outras, simplesmente pela curiosidade ou pela vontade de estar em dado local. Minha fotografia não é nada objetiva. Como todos os fotógrafos, fotografo em função de mim mesmo, daquilo que me passa pela cabeça, daquilo que estou vivendo e pensando.

Sebastião Salgado

 

É, assim, plagiando ou parafraseando o fotógrafo e, sobretudo, o grande humanista mineiro e brasileiro Sebastião Salgado, que estou de volta:

 

Para alguns, sou uma jornalista. Não é verdade. Para outros, sou uma militante. Tampouco. A única verdade é que a escrita é minha vida. Todos os meus escritos correspondem a momentos intensamente vividos por mim. Todos eles existem porque a vida, a minha vida, me levou até eles. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou até eles. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou àquele evento. Às vezes fui guiado por [...] ideologia, outras, simplesmente pela curiosidade ou pela vontade de estar em dado local. Meus escritos não são nada objetivos. Como todos os cronistas, escrevo em função de mim mesmo, daquilo que me passa pela cabeça, daquilo que estou vivendo e pensando.

 

Depois de exatos seis anos, “repito a dose”, no momento em que decido, mais uma vez, reunir textos dispersos, aqui e ali, distantes do tecnicismo e próximos de nosso dia a dia. São crônicas ou reflexões antes publicadas em jornais, revistas e endereços eletrônicos acerca de temas que perfazem a vida das pessoas “comuns”, como eu e você, você e eu. São temas, alguns dos quais controversos ou instigadores à meditação, à imaginação e / ou ao sonho. São temas que podem interessar a um e outro, porque tratam, literalmente, de ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos. Não há uma sequência rígida. Não há imposições. Os textos nem seguem rótulos nem tampouco fórmulas, o que permite sua leitura a torto e a direito, sem sequência rígida e distante de qualquer engessamento.

 

É evidente que não se trata de obra de ficção. Apoio-me em fatos reais que, de uma forma ou de outra, me afetaram ou me afetam. Fatos e eventos com chance de perdurarem na mente humana sempre me fascinam mais do que acontecimentos efetivamente pontuais, ou seja, tenho interesse precípuo e profundo em seguir o curso do mundo. São sempre textos despretensiosos que comportam críticas, posicionamentos favoráveis, opiniões diversificadas, até porque somente um desvalido ou desvairado pode se arriscar a enunciar verdades. Quer dizer, não clamo por aceitação. É só esta vontade imensa de compartilhar experiências e sentimentos, sentimentos e contradições, contradições e aceitação do outro.

 

Há temas sobre ebola, black blocs, amor ou amores, sexualidade, tradições culturais, mulher, violência urbana, violência contra a mulher, saúde e educação pública, touradas, elefantes-bebês, artes e museus, a bendição ou maldição do poder, livros, flores e bibliotecas, as fases da vida, o dom da palavra, Igreja, etc. São tópicos que mesclam alegria, tristeza, saudade, ironia, ou simplesmente, permitem a cada um escolher o próprio caminho de leitura e de discernimento. Sempre mergulho de cabeça e de alma nos temas que escrevo. Não consigo isenção. Objetividade não faz parte de meu universo. Sou extremamente emocional. Ao tempo em que me debruço sobre as temáticas (sofro e / ou sorrio com elas ou sobre elas), tenho consciência profunda de que minhas crônicas – nenhuma delas – não são capazes de mudar o caos que salpica a realidade contemporânea.

 

Estou ciente de que elas consistem em parcelas minúsculas do movimento mais extensivo dos que enaltecem o júbilo, a alegria, a união entre irmãos e povos, ou, em sentido inverso, dos que lamentam a desagregação familiar, os riscos ambientais, a violência urbana e a dor. Quando enuncio ou trago à tona situações de dor e de injustiça social, minha intenção não está impregnada nem de culpa nem de acusação gratuita contra os demais. É mera reflexão. É mera tentativa de conscientização.

 

Quem escreve desnuda-se. Quem se desnuda, se expõe. Quem se expõe, se mostra desavergonhadamente, e, portanto, está sujeito a críticas ou aplausos. Nada disso, de fato, me importa, uma vez que escrevo para viver. Eis minha forma de sobreviver à hipocrisia que permeia grande parte das relações humanas. Eis minha resposta às traições que atingem a qualquer um em diferentes circunstâncias de vida. Eis minha forma de dizer em alto brado que prossigo viva e vívida.

 

Referência da publicação:

Targino, M. das G. Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos. Teresina: Halley, 2014. 256 p. il.

e-mail para aquisição: gracatargino@hotmail.com


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”