ALÉM DAS BIBLIOTECAS


GRAÇA TARGINO: COM O PÉ NA ESTRADA

Este mês, reproduzimos, aqui, no INFOHOME, entrevista concedida ao jornal de Teresina – Piauí, por iniciativa da jornalista Biá Boakari, a quem coube o título da matéria. O texto foi publicado, na íntegra (com fotos), no dia 16 de novembro de 2014, na seção Metrópole, página 3. 

 

O seu novo livro fala sobre suas experiências, com crônicas que abordam diversos assuntos. Pode falar sobre ele?

 

Resposta: “IDEIAS EM RETALHOS: SEM RODEIOS NEM ATALHOS” resulta de projeto bastante longo. Quer dizer, depois de exatos seis anos após a edição do livro: “Palavra de honra: palavra de graça” trago à tona, mais uma vez, textos dispersos, aqui e ali, distantes do tecnicismo e próximos do cotidiano do homem comum. Consequentemente, as crônicas ora reunidas congregam ideias, reflexões antes publicadas em jornais, revistas e endereços eletrônicos acerca de temas tradicionais ou eternos e / ou de tópicos mais contemporâneos. São assuntos, alguns dos quais controversos ou instigadores à meditação, à imaginação e ao sonho. São temas que podem interessar a um e outro, porque tratam, literalmente, de ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos. Não há sequência rígida. Não há imposições. Os textos nem seguem rótulos nem tampouco fórmulas, o que permite sua leitura a torto e a direito, distante de qualquer engessamento.

 

É evidente que não se trata de obra de ficção. Apoio-me em fatos reais que, de uma forma ou de outra, me afetaram ou me afetam. Fatos e eventos com chance de perdurarem na mente humana sempre me fascinam mais do que acontecimentos efetivamente pontuais, ou seja, tenho interesse precípuo e profundo em seguir o curso do mundo. São sempre textos despretensiosos que comportam críticas, posicionamentos favoráveis, opiniões diversificadas, até porque somente um desvalido ou desvairado pode se arriscar a enunciar verdades. Não clamo por aceitação. É só esta vontade imensa de compartilhar experiências e sentimentos, sentimentos e contradições, contradições e aceitação do outro.

 

Como você escolheu quais as crônicas que seriam incluídas nele?

 

Resposta: Pergunta bastante interessante porque me permite revelar a filosofia de trabalho adotada para “IDEIAS EM RETALHOS...” De imediato, excluí temas de interesse pontual, ou seja, fatos que tiveram repercussão em determinado momento histórico ou espaço geográfico, mas que, por um motivo ou outro, jazem no esquecimento da memória coletiva.  Dizendo de outra forma, tenho a preocupação de rediscutir fatos ou itens que persistem atuais ou que, mesmo passados, ainda despertam sensações fortes dentre os leitores. Deixei de fora, também, longas crônicas de viagem a rincões nacionais ou não, e, também, como cinéfila e como leitora apaixonada que sou, mesmo com o coração dolorido (risos!!!), suprimi críticas sobre livros e filmes por uma questão de espaço gráfico. 

 

Alguns dos temas do seu livro são mais contemporâneos, como selfie, black blocks, ebola, expansão violenta das drogas entre jovens. Como você vê a situação da juventude hoje em dia? Eles estão se tornando mais politizados?

 

Resposta: Os jovens – e a história atesta isso – são sempre mais corajosos, mais desafiadores, mais audaciosos, e, portanto, mais inconsequentes. Impossível esquecer que a geração de 60, representada simbolicamente pelo festival Woodstock, é sinônimo de fase histórica tumultuada. Ao fim das duas Grandes Guerras Mundiais, em meio à paz reinante, parece restar um sentimento de vazio, de não pertencimento. Exatamente em 1969, aos meus 21 anos, o tema era o longínquo evento mundial de paz, amor e rock and roll, ocorrido próximo a Nova Iorque, congregando mais de 450 mil participantes, durante três dias de agosto. Independentemente de seu lado obscuro (estrutura deficitária, higiene zero, mesmo sem o crack, drogas em excesso), o Woodstock assumiu força social e histórica. Os jovens de então protestavam contra as guerras e o sistema capitalista, enaltecendo a paz, a liberdade do amor livre, as mulheres, etc.

A geração jovem brasileira também participa ativamente contra os longos 21 anos de Ditadura Militar (1964-1985). Chico Buarque de Holanda é somente um exemplo dentre tantos outros músicos e compositores, como Caetano Veloso e Gilberto Gil e / ou líderes políticos dessa fase. É o caso de Miguel Arraes (avô do candidato à Presidência do Brasil, Eduardo Campos, in memoriam) e do próprio Fernando Henrique Cardoso, que permanece no exílio entre 64 e agosto de 68. Sem contar os jovens anônimos presos, torturados e mortos... Agora, em pleno século XXI, com as tecnologias de informação e de comunicação a galope e as redes sociais a todo o vapor, a juventude continua politizada ou, no mínimo, possui condições mais propícias de se informar, participar, manifestar-se e protestar. Tudo isso mostra que, em qualquer tempo, a inquietude, própria da juventude, induz a uma participação ativa na vida dos países.

 

Você sempre viaja muito. Que lugares mais gostou de conhecer?

 

Resposta: Eis uma pergunta sem resposta. É muito, muito, muito difícil especificar os lugares ou os países mais apaixonantes. Há uma série de condições envolvidas: a companhia, meu próprio estado de espírito, as circunstâncias da permanência, o tempo, etc. Além do mais, cada país ou cada povo tem seus próprios encantos e desencantos. Como comparar a complexidade da Índia com o universo capitalista dos EUA? Como confrontar a beleza da França com as fortes imagens de Mostar? Capital cultural da Bósnia e Hercegovina, a 130 km da capital administrativa Sarajevo, Mostar exibe profundas cicatrizes de uma “guerra finda”, cujo enfrentamento atroz entre os indivíduos se dá entre os próprios habitantes...

No entanto, digo que o lugar que menos me deslumbrou foi a Rússia, em especial, Moscou – clima permanente de tensão no ar, pessoas de faces endurecidas e sorrisos raros. Essa linha imaginária e o isolamento dessa gente podem ser mera sensação de viajante. É como se, apesar das fronteiras ora abertas de sua nação, os indivíduos se debatessem frente ao próprio aprisionamento da alma, resultado, talvez, dos pesados grilhões, por longos anos, do austero regime comunista. Sem simpatia e sem resquícios de sentimentos calorosos (afinal, em média, são somente 60 dias de sol ao ano), pouco adianta ensaiar palavras de cortesia. Afinal, ao tempo em que festejam com muito barulho os casamentos nas ruas e nos parques, os russos parecem não se comover com facilidade.

 

Tem alguma história interessante de diferenças culturais nos lugares que você foi?

 

Resposta: As diferenças culturais são sempre o ponto máximo de qualquer viagem fora do país. Há muitas histórias interessantes vividas, que envolvem a forma de cumprimento; os hábitos à mesa; a forma de aproximação entre as pessoas; a simbologia de gestos; a gorjeta (ou não); a forma de proteção ao sol; a comercialização e a prática de pechinchar (exorbitante em Marrocos e na Turquia); e muita coisa mais. Entre excentricidades inesquecíveis estão as mulheres-girafa de Myanmar (Ásia). Da etnia padaung, deformam o pescoço com alongamento de até 25 cm, mediante o uso de aros metálicos e muito pesados por toda a vida, como vi na vila Maing Thauk, nas redondezas do lago Inle, onde estão os leg rowers (“remadores de perna” = método local de pesca), que também são inesquecíveis. Os elefantes-bebês, limpos e bem-cuidados, em orfanato localizado em Nairobi (Quênia, África), estão gravados no coração junto com as tribos de vida primitiva inimaginável – os massais.

 

Que conselhos você daria a quem quer viajar, mas tem medo de conhecer lugares novos?

 

Resposta: “Fique em casa.” Não há qualquer obrigatoriedade de se gostar de viajar. É permitido ficar. Mas quem parte, deve levar consigo a ânsia de conhecer lugares novos e desvendar novos povos. Não há fórmulas para viajar. No entanto, as prescrições que valem para qualquer viajante se referem à disposição de enfrentar adversidades com respeito e disposição. É exigir pouco. É exercitar a curiosidade. É experimentar os pratos da terra sem “cara de nojo”.  Não levar nas costas a bagagem do mundo todo para conhecer um pouco do mundo a cada intervalo que se faz possível. Disfarçar qualquer tipo de perplexidade diante das coletividades, seja diante de expressões culturais “esquisitas”, seja diante de traços chocantes de miserabilidade, seja diante de costumes pouco comuns entre os brasileiros, como a simplicidade do francês ao assuar o nariz à mesa e em plena refeição. Logo, a recomendação máxima (não conselho) é o respeito irrestrito às diferenças.

 

Existe algum assunto que você prefere não escrever sobre, por ser muito polêmico?

 

Resposta: Encaro, sem temor, qualquer tema polêmico, após buscar informações consolidadas, estudar e pesquisar. Porém, ciente da responsabilidade social do jornalista, reconheço minhas limitações. Por exemplo, diante de temas fascinantes atrelados à melhoria da qualidade de vida do ser humano, como a possibilidade de regeneração da espinha dorsal, o que daria ao paraplégico o direito de voltar a andar, não arrisco. Com certeza, não possuo conhecimento para discutir o tema, cujas pesquisas estão em andamento.

 

A vida acadêmica abre espaço para discussões. Como você leva essa experiência para o seu dia a dia?

 

Resposta: Impossível dissociar a vida acadêmica de meu cotidiano. Apesar de manter outras paixões – atenção ao outro (serviços de voluntariado, como exerci na Cruz Vermelha por dois anos ininterruptos); tapeçaria; ioga; teatro; cinema; clubes de leitura – confesso de cara lavada que minha vida está impregnada pelo terreno fértil e polêmico das universidades. Ingressei na Universidade Federal de Pernambuco aos 17 anos para a graduação. Percorri muitas outras instituições de ensino como aprendiz ou “ensinante” no Brasil e fora dele. Agora, aos 66 anos, continuo no quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba. Logo, não levo a experiência da vida acadêmica para meu dia a dia: ela se confunde com minha existência, como afirmam e reafirmam meus filhos e netos.

 

Já está trabalhando no próximo livro? Qual será o tema?

 

Resposta: Como diz o aluno que vai se submeter ou já se submeteu ao ENEM “estou com tudo na cabeça”. Verdade! Sonho em preparar um livro de viagens que não se limite a dar “dicas”, mas, sim, a explorar as particularidades de algumas coletividades com quem tive a chance de conviver. Tenho lido alguns livros nessa linha, tais como “Um lugar na janela”, de Martha Medeiros; “Vietnã pós-guerra”, de Airton Ortiz e “Comer, rezar, amar”, Elizabeth Gilbert. Quero encontrar meu próprio caminho. Longe da descrição pura e simples ou da condição de “guia de viagem”. Vou ver no que vai dar e se vai dar...

 

Qual é a dificuldade em entrar no mercado da literatura atualmente?

 

Resposta: É extremamente difícil quando se reside fora do eixo Rio-São Paulo. Sem qualquer complexo de nordestino! Ao contrário! É o enfrentamento da realidade. As condições e os centros de produção estão concentrados no Sudeste e, também, no Sul, onde estão o maior número de universidades com melhor infraestrutura; os investimentos mais elevados em ciência e tecnologia; mais pesquisadores qualificados por conta da concentração dos cursos de pós-graduação por lá desde décadas; as melhores editoras e livrarias. Logo, os produtores do centro-sul – cientistas, cronistas, escritores em geral – têm maiores chances de acesso às fontes de informação e de distribuição. É o velho jargão: “as águas correm para o mar.”

Além do mais, é público e notório que a grande imprensa, em termos de crítica literária, é a mais difícil. Trabalha como um club privé, e, portanto, só aprecia e divulga os que são próximos a ela, de preferência jornalistas e colunistas das respectivas empresas de comunicação. É difícil uma brecha ser aberta. Mesmo assim, já consegui inserir “IDEIAS EM RETALHOS: SEM RODEIOS NEM ATALHOS” na Livraria Cultura (excelente distribuição na internet) e na Livraria Saraiva. As livrarias locais, salvo raríssimas exceções, são muito receptivas à produção local: sem muito lero-lero, recebem exemplares em consignação. Mas o problema é que os títulos aqui editados dificilmente ganham lugar de destaque em suas vitrines. É só testar!

 

Você acredita que, por ser mulher, viajar sozinha oferece alguma dificuldade?

 

Resposta: Os desafios podem ser maiores, mas nada que não possa ser contornado... Isto nunca me preocupou.

 

Qual foi a melhor lição que você aprendeu em suas viagens?

 

Resposta: Esta resposta eu a tenho na ponta da língua e a coloco num dos textos que escrevi para “nossa” Revista Presença, ano 2013, sob o título “Viageiro: anjos e demônios.” A maior descoberta de um viageiro contumaz é descobrir que o ser humano, em sua essência, é surpreendentemente igual. Em sua bondade e maldade. Em sua beleza e feiura d´alma. Em seus sonhos e desditas. Somos muito semelhantes em nossas perfeições e imperfeições, em nosso altruísmo e em nossa miséria. Para onde quer que sigamos ou onde quer que estejamos, carregamos conosco nossos anjos e demônios, que se digladiam e, vez por outra, se confraternizam em orgias repletas de cumplicidade e de risos soltos à espreita de nossos descuidos. 

 

Um de seus livros foi uma reflexão sobre a constância de participação do público e do jornalismo. Como essa relação se modificou de lá para os tempos de hoje?

 

Resposta: O livro a que você se refere é “Jornalismo cidadão: informa ou deforma?”, editado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 2009, como ganhador de The Information for All Programme (Programa Informação para Todos, IFAP), adaptação de minha tese de pós-doutorado. Diante do visível avanço científico e tecnológico, há profunda mudança na geografia das disciplinas, com a ramificação de algumas, como a própria comunicação social, cujas seis habilitações (no caso do Brasil) – radialismo, jornalismo, editoração, cinema, publicidade e propaganda, relações públicas – sinalizam forte disposição para a especialização. No caso específico do jornalismo, mais do que outras profissões, as mudanças são irreversíveis. Na condição de atividade profissional da área de comunicação, e, portanto, de teor social, voltada para a elaboração e divulgação de notícias em suportes variados (impressos, televisivos, radiofônicos, digitais e eletrônicos), o jornalismo não se mantém isolado das inovações que afetam a sociedade. Acompanha, com avidez, as tendências e, consequentemente, tende a incorporar a participação do público num movimento crescente de interatividade, priorizando a convergência dos meios e a busca de suprir as demandas dos cidadãos de forma individualizada. Ou seja, as mudanças continuam, e, ao que parece, infinitamente...


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”