BIBLIOTECONOMIA DIGITAL


A ENCICLOPÉDIA MECÂNICA

Os livros digitais não apareceram de uma hora para outra. Foram resultado de processo evolutivo do livro, com transformações de formatos e suportes. Primeiramente foi observada a conversão do texto ao áudio, depois os CDs-ROM e os textos eletrônicos, até alcançarmos a disponibilização do conteúdo em arquivos como o PDF e o ePub. O livro digital é mediado por dispositivos de leitura como computadores, e-readers, tablets e smartphones, porém não pode ser confundido com estes, visto que sua essência está centrada no conteúdo e não na forma pela qual foi fixado. Discussões importantes sobre transformações do objeto livro são identificadas em 1934, com Paul Otlet profetizando os “substitutos dos livros”, que trariam mais recursos ao texto, ampliando novas possibilidades de fixação e disseminação de ideias. Este artigo apresenta a Enciclopédia Mecânica, idealizada em 1949, identificada como um precursor dos dispositivos de leitura, que contribuíram com a expansão dos livros digitais.

 

A Enciclopédia Mecânica foi concebida pela professora Ángela Ruiz Robles (1895-1975). Ela nasceu em Villamanín, porém fixou-se na província de Ferrol, região de La Coruña, Espanha, onde foi professora de crianças e jovens, autora de livros e inventora. Sua motivação para desenvolver a enciclopédia centrou-se em facilitar o processo de aprendizado a professores e alunos, ao reunir em um único dispositivo conteúdos e instrumentos pedagógicos, além de diminuir o volume e peso dos livros que os estudantes precisavam carregar em suas mochilas.

 

A Enciclopédia Mecânica consistia em uma caixa metálica que armazenava livros cujos conteúdos eram dispostos em carreteis ou bobinas intercambiáveis. Seu formato era similar a um livro. Ao abri-lo, a face esquerda possuía um abecedário e números por meio dos quais era possível construir palavras ou realizar cálculos. Na face direita eram reunidos os livros armazenados em carreteis, com mecanismo para transportar o conteúdo na medida em que eram lidos. As crianças podiam adiantar o conteúdo, fazer pausas nos pontos de interesse, retomar a consulta em momento posterior, voltar a consultar tópicos etc., bastando para isso girar as bobinas dos livros ou pulsar botão para movimentar estes cilindros até alcançar o trecho desejado. Era possível armazenar até três livros simultaneamente.

 

A invenção foi concebida para possuir iluminação artificial, o que facilitaria a leitura em ambientes com pouca ou nenhuma luz. Entretanto a adição desta funcionalidade apresentava desafios técnicos na época da invenção e não foi incluída no protótipo. Os textos podiam ser ampliados com o auxílio de lentes, favorecendo a leitura e auxiliando estudantes que tivessem alguma deficiência visual. Também foi prevista a adição de arquivos sonoros, com explicações sobre os temas tratados, músicas e demais elementos que pudessem contribuir com o ensino (ANGELA... 2016). O dispositivo utilizava processos mecânicos e elétricos, além de pressão do ar para explorar seus recursos. O conteúdo poderia ser monocromático ou colorido, com textos nos idiomas espanhol, francês e inglês.

 

A preocupação da professora Angelita, como era conhecida, era tornar o contato com a leitura e o processo de ensino facilitado, despertando a curiosidade em seus alunos, com possibilidades de interação, utilização de jogos e demais recursos concentrados em um único objeto. A primeira patente da Enciclopédia Mecânica, sob o nº 190.698 (1), foi depositada na Oficina Española de Patentes y Marcas em 1949. Este registro não identifica o invento como Enciclopédia Mecânica, mas como “Procedimento Mecânico, Elétrico e a Pressão de Ar para Leitura de Livros”, porém descreve o funcionamento da mesma, com sistema de pressão em botões e forma física. Os materiais previstos para confecção da enciclopédia consistiam em papel, cartolina, papel cartão, folhas acrílicas, plástico, tela para pintura, com utilização de tintas – inclusive fluorescente ou fosforescente para favorecer a leitura no escuro -, entre outros. Já em abril de 1962, Ruiz Robles deposita nova patente, sob o número 276.346 (2), onde detalha “Um Aparato para Leitura e Exercícios Diversos”, instrumento pelo qual estudantes poderiam consultar obras diversas e sem limitações, como em uma autêntica enciclopédia e que, além de consultas, permitiria a realização de exercícios. Nesta patente previa-se que os conteúdos da enciclopédia pudessem ser atualizados de forma rápida, na medida que novas descobertas ou novos tópicos fossem abordados. Também seria possível aos estudantes escrever ou desenhar em superfície, apagando e reutilizando a tela sempre que desejado. Aos professores, o invento facilitaria suas atividades, reunindo em um só local os conteúdos e atividades utilizadas em sala de aula. Além do conteúdo, espaço para escrita e desenho, também foram idealizados o emprego de instrumentos de apoio como relógio, bússola, termômetro, barômetro etc. As patentes são complementares. Na primeira é lançada a ideia do mecanismo de leitura, enquanto na segunda são agregados recursos e funcionalidades em relação à primeira.

 

Boa parte dos recursos previstos no invento são facilmente identificados nos dispositivos atuais como teclados (físicos ou virtuais), função de toque em tela (touch), ampliação de fontes e imagens, iluminação da tela, armazenamento de diversas publicações em um único local, uso de recursos sonoros e audiovisuais (embora na Enciclopédia Mecânica não tenha sido relatado o implemento de imagens em movimento), emprego de jogos e ferramentas interativas etc.

 

Apesar de ser procurada para venda da patente por interessados dos Estados Unidos, professora Ángela desejava que o invento permanecesse na Galícia e recusou as tentativas de negociação. Entretanto, os custos para a produção e comercialização do invento – estimado em 100.000 pesetas - nunca foram obtidos. Mesmo assim, a patente de invenção foi renovada até o ano de sua morte, em 1975. O protótipo está preservado no Museo Nacional de Ciência y Tecnología, em La Coruña, na Espanha (3) (Figura 1).

 

Figura 1: Enciclopédia Mecânica


Fonte: (ANGELA... 2016-b)

 

Embora notícias catalãs considerem o invento da Enciclopédia Mecânica como o primeiro livro digital, esta afirmação não é verdadeira. A tecnologia da época não possuía subsídios para o desenvolvimento desta grandeza. O livro digital ainda desperta dúvidas e confusões em relação à distinção entre objeto e conteúdo. A imprensa espanhola, conforme pode ser conferido na bibliografia abaixo, apresenta a Enciclopédia Mecânica como a precursora de movimentos como o Projeto Gutenberg, lançado por Michael Hart em 1971, porém não se trata disso. A enciclopédia consistia em um dispositivo que possuía conteúdo feito sob medida para ela, característica que marcou o início dos livros digitais. Embora não existissem recursos eletrônicos ou digitais, caracterizando os formatos proprietários do conteúdo, as bobinas somente poderiam ser utilizadas na Enciclopédia, criando a dependência dos livros em relação ao dispositivo. O conteúdo do dispositivo seria construído e disponibilizado de acordo com a demanda de professores, sem dar autonomia aos leitores para obterem outros conteúdos ou, até mesmo, construí-los. A criação de conteúdo específico para dispositivos proprietários marcou fortemente os livros digitais em seu princípio e, inclusive, contribuíram para atrasos em seu desenvolvimento e propagação. Embora menos frequente, esta situação ainda é observada nos dias de hoje com lançamento de dispositivos com conteúdo exclusivo, impedindo que o material seja mediado por outro equipamento. Mudanças no cenário dos livros digitais foram notadas a partir do momento em que dispositivos foram criados, permitindo ao leitor o licenciamento de qualquer conteúdo, independentemente do fornecedor. Mas isso é tema para outro texto!

 

De qualquer forma é fundamental destacar a invenção da Enciclopédia Mecânica na história dos livros digitais. Até o momento a literatura considerava que o primeiro dispositivo de leitura era o Dynabook, desenvolvido por Alan Kay em 1968. Evidentemente o Dynabook possui recursos semelhantes aos observados nos dispositivos atuais e é um marco evolutivo dos livros digitais, porém a invenção da professora Ángela não pode ser desconsiderada, principalmente por sua visão inovadora das possibilidades de recursos planejadas e sua utilização como instrumento pedagógico. A Enciclopédia Mecânica e sua inventora merecem reconhecimento e espaço na história dos livros digitais.

 

 

Nota: este texto não seria possível sem o apoio eficiente e competente da Oficina Española de Marcas y Patentes, que proporcionou acesso às patentes de forma simples, rápida e descomplicada. A eles, meus sinceros agradecimentos.

 

Notas

1 - (OFICINA ESPAÑOLA DE PATENTES Y MARCAS, 1950)

2 - (OFICINA ESPAÑOLA DE PATENTES Y MARCAS, 1962)

3 - Museo Nacional de Ciencia y Tecnología: http://www.muncyt.es/portal/site/MUNCYT/menuitem.5bea45bb8877d2f87d40
f7100
1432ea0/?vgnextoid=d7b4d1910f2c3510VgnVCM1000001d04140aRCRD&
vgnextchannel=304a65afffa5a210VgnVCM1000001034e20aRCRD

 

 

Bibliografia

 

ÁNGELA Ruiz Robles: Así funcionaba el precursor del 'ebook' inventado por una maestra española. Así funcionaba el precursor del 'ebook' inventado por una maestra española. El Mundo. Madrid, 28 mar. 2016. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2016.

 

ÁNGELA Ruiz Robles, el eslabón perdido de la historia del libro electrónico. La Voz de Galicia. La Coruña, 29 mar. 2016-b. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2016.

 

GOOGLE homenaxea a galega que inventou en 1949 o libro electrónico. Galicia Confidencial. Santiago, 28 mar. 2016. Disponível em: http://www.galiciaconfidencial.com/noticia/28591-google-homenaxea-galega-inventou-1949-libro-electronico. Acesso em: 02 abr. 20016.

 

JIMÉNEZ, Javier. Ángela Ruiz Robles, la mujer que invento el libro electrónico en 1949. Xataka.com, 28 mar. 2016. Disponível em: http://www.xataka.com/historia-tecnologica/angela-ruiz-robles-la-inventora-del-libro-electronico. Acesso em 2 abr. 2016.

 

OFICINA ESPAÑOLA DE PATENTES Y MARCAS (Espanha). 200 años de patentes. Madrid: Ministerio de La Industria, Turismo y Comércio, 2011. 134 p. Disponível em: . Acesso em: 02 abr. 2016.

 

_______________. Ángela Ruiz Robles. Un aparato para lecturas y ejercícios diversos. ES nº P0276346, 10 abr. 1962, 01 nov. 1962. 1962. Disponível em: . Acesso em: 04 abr. 2016.

 

_______________. Ángela Ruiz Robles. Un procedimiento mecánico eléctrico y a presión de aire para lectura de libros. ES nº P0190698, 07 dez. 1949, 16 jan. 1950. 1950. Disponível em: . Acesso em: 04 abr. 2016.

 


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LILIANA GIUSTI SERRA

Doutoranda em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP). Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Bibliotecária com especialização em Gerência de Sistemas e Serviços de Informação pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Profissional de Informação dos softwares SophiA Biblioteca, SophiA Acervo e Philos.