GERAL


SINUCA DIGITAL

  • Autor não informado
  • Abril/2009

Paulo Pacini

 

Quando, em 1999, o neurobiólogo Joseph Miller pediu à Nasa acesso aos dados das missões Viking, que aterrissaram em Marte em 1976, sua solicitação foi prontamente atendida. As fitas magnéticas, corretamente armazenadas, foram localizadas e entregues. Infelizmente, delas não foi possível se extrair nada, pois o formato digital no qual a informação foi codificada já tinha sido esquecido, e seus criadores haviam falecido ou se aposentado. Graças a algumas anotações em folhas de papel, anexadas às fitas, depois de muito esforço foi possível recuperar um terço da informação. O episódio acendeu uma luz vermelha em todas instituições que trabalham com o armazenamento de informações digitais, acerca dos riscos que a evolução tecnológica pode ocasionar para o resgate futuro dos dados.

 

Um dos grupos mais preocupados com a conservação de seus arquivos é a indústria do cinema, e, para situar o problema, a Academy of Motion Picture Arts and Sciences (instituição que concede os Oscars) divulgou, em 2007, um estudo abrangente, no qual também são analisados casos de outros setores. Para os estúdios, a preservação dos filmes é uma questão de vida ou morte, pois um terço de sua renda provém de reprises, comercializadas para a TV ou em DVDs. A maior parte de seu acervo são filmes de 35mm, uma tecnologia confiável, conhecida, cuja qualidade ainda não foi equiparada pelo meio digital, com uma vida prevista de pelo menos 100 anos, em condições corretas de armazenamento, e um custo extremamente baixo. Por esta razão, quase tudo é filmado em película, apesar de todo processamento posterior ser digital. O custo do arquivamento digital é pelo menos 11 vezes superior, pois necessita uma verdadeira parafernália para seus muitos terabytes de informação, armazenados em discos rígidos ou fitas magnéticas, pedindo uma estrutura pesada de servidores, com manutenção constante, incluindo hardware, software, substituição de mídia, treinamento de pessoal, consumo de energia elétrica, só para citar alguns. Mesmo assim, a acessibilidade não está garantida, pois tudo muda na indústria de informática, os formatos de arquivo, sistemas operacionais, interfaces, software, etc.

 

Em outros setores, a questão é igualmente grave. A Biblioteca do Congresso dos EUA criou o programa NDIIPP, para a criação e preservação da informação digital, que estipulou algumas linhas gerais de orientação, procurando favorecer a criação de uma rede de arquivamento, pois se considera que a tarefa é grande demais para uma única instituição. Os arquivo nacional americano, o Nara, que contém todos os registros da esfera governamental, também criou uma iniciativa nesse sentido, que inclui a padronização dos formatos de arquivo e da metainformação, ou seja, informação sobre as informações, que facilitam sua localização.

 

A imprensa também lida com dificuldades relativas ao arquivamento de informações, especialmente de imagens, pois é prática corrente o descarte de material não utilizado, apagando-se a memória das máquinas.

 

Não existem mais negativos que possam ser utilizados no futuro, em novas publicações. Emissoras de TV frequentemente eliminam material gravado digitalmente, reutilizando as fitas, preservando para a posteridade só uma parte da informação.

 

Esses problemas, que pouca gente vê, são extremamente sérios. O único meio encontrado até o momento para se garantir o acesso futuro aos arquivos digitais é, antes de tudo, ter-se uma política de preservação da informação, e também um esquema de migração contínua para novos formatos, a ser feita a cada poucos anos, a um custo elevado.

 

A maioria dos países está se conscientizando das limitações da tecnologia atual com relação ao arquivamento a longo prazo, ao mesmo tempo em que buscam soluções. Será necessário um grande esforço das instituições governamentais e privadas brasileiras para que o costumeiro imediatismo e aversão ao planejamento não faça com que no futuro exista uma enorme lacuna em todo tipo de dados relativos ao período histórico que então será o nosso presente.

 

Paulo Pacini - Psicólogo e pesquisador

Fonte: Clique Aqui
Divulgado por Miguel Angel Arellano – Enviado para “bib_virtual” em 03/03/2009

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.