GERAL


O PERIGO DE PUBLICAR EM REVISTAS PREDATÓRIAS


Existem publicações acadêmicas, apelidadas de revistas predatórias, que são conhecidas por divulgar papéis sem submete-los a uma genuína revisão por pares - basta pagar para ver o artigo publicado. O pesquisador Alexander Martin, do Colégio de Engenharia da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, mostrou que o espectro de problemas causados por essas revistas pode ser mais sério do que se imaginava.

Martin selecionou revistas de uma lista de mais de mil periódicos, provavelmente predatórios, que é atualizada por pesquisadores da Universidade do Colorado. A meta do pesquisador era submeter aos editores dessas revistas papers que, em condições normais, jamais seriam aceitos para publicação - e ver qual seria a reação deles. A primeira tentativa se deu com uma revista on-line chamada Internacional Journal of Comprehensive Research in Biological Sciences, sediada na Índia. Martin enviou um manuscrito de 153 palavras cujo conteúdo fora copiado de um trabalho de escola feito por seu filho Tristan, de 7 anos, sobre morcegos. O texto reproduzia frases escritas pelo garoto, como “morcegos são animais muito legais“ ou “dormem durante o dia e voam à noite“. A revista logo enviou um e-mail pedindo para os autores acrescentarem pelo menos 5 referências. Martin atendeu o pedido. Um novo e-mail informou que o artigo havia sido preliminarmente aceito para publicação. Em anexo, vinha a cobrança de uma taxa de US$ 60.

“Esperava que algumas revistas aceitassem esse tipo de artigo, considerando experiências anteriores, mas isso aconteceu já na primeira tentativa”, disse Martin ao site Retraction Watch, referindo-se a casos como a publicação de artigos falsos e sem sentido produzidos por um programa de computador (ver Pesquisa Fapesp n. 219).

Martin não pagou a taxa. Semanas depois, recebeu um segundo e-mail do editor, cobrando novamente os US$60 e apresentando uma nova versão do texto, essa já revisada e pronta para publicação. O manuscrito havia sido completamente reescrito em um linguajar científico - só o título e os autores permaneceram. Sua primeira impressão foi boa, mas logo ele descobriu que havia algo errado: o artigo tornara-se uma colagem de trechos plagiados de dois outros papers, numa fraude praticada pelos próprios editores da revista. “Fiquei chocado ao imaginar que alguém pudesse fazer uma coisa dessas”, disse. “Essas revistas têm um impacto muito negativo na comunidade científica e todos precisam estar conscientes disso.” A revista indiana deixou de existir - seu site saiu do ar em janeiro. Martin registrou as lições tiradas do episódio no artigo publicado na revista Learned Publishing.

ARTIGO CIENTÍFICO

Martin A. et al. A not-so-harmless experiment in predatory open acess publishing. Learned Publishing. v.29, n.4, p.301-05, out. 2016.

Artigo Original disponível em: A not-so-harmless experiment in predatory open access publishing por Alexandre Martin

 


Fonte: PESQUISA FAPESP, n. 249, p.9, nov. 2018

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.