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LER É VIAJAR? ME POUPE!

Dias desses, fui convidado a fazer uma conferência, num órgão público de Brasília, intitulada Livros e qualidade de vida. Um título já pronto, que eu jamais escolheria. Minha fala deve ter decepcionado ou até incomodado parte das pessoas que me ouviram, esperando talvez algum discurso de exaltação e glorificação do livro, como aquele que faz o louvor e o elogio da cultura livresca, um louvor e um elogio tão exaltados que acabam por criar uma sinonímia entre “livro” e “cultura”: “cultura” é só o que vem impresso em livros, a pessoa considerada “culta” é a que lê muito, que obteve muito conhecimento por meio da leitura, a que adquiriu e utiliza as principais referências eruditas que constituem precisamente aquilo que se chama de “cultura geral” nas sociedades ditas ocidentais. O discurso de chavões do tipo “ler é viajar”, “o livro faz a gente conhecer outros lugares sem sair de casa”, “temos de desenvolver o amor pelos livros”, “quem tem um livro nunca está sozinho” e banalidade do tipo. Esse discurso simplesmente despreza todas as muitas outras formar de cultura, de produção de conhecimento, de transmissão e aquisição de conhecimento, numa atitude típica de desdém por tudo o que não em da tradição branca, europeia e colonizadora. Tô fora!

Do que falei então? Falei da catástrofe da educação pública brasileira, uma das piores do mundo, uma educação pública que produz analfabetos funcionais em massa: 75% da população brasileira entre 14 e 65 anos é classificada de analfabeta funcional, isto é, teve algum acesso à escolarização, mas não teve condições de desenvolver as habilidades da leitura, da escrita e do cálculo. Como fazer o elogio do livro numa sociedade assim? E principalmente agora que um governo ilegítimo, nascido de um golpe de Esrado, se esforça ap máximo para demolir o pouco que se construiu na área da educação na última década?

Por isso me dão náuseas esses chavões do tipo “ler é sonhar”, “ler é viajar”, “ler é descobrir o mundo”. Me poupe! Garantir o acesso à leitura é um dever do Estado, e o letramento é um direito do povo. Nem mais, nem menos.

E concluí fazendo a crítica de uma frase célebre de Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Nada disso: um país se faz com mulheres e homens livres, com acesso democrático à saúde, à educação, à moradia, ao trabalho, ao lazer e à participação política. Os livros, claro, são bem-vindos, mas só depois que uma qualidade de vida digna e decente tiver sido garantida para todas as pessoas.

Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UNB – marcosbagno.org.

 

Autor: Marcos Bagno
Fonte: Caros Amigos, ano XXI, n. 243, p. 6, jun. 2017

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.