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A DEMOCRACIA PRECISA DE INFOMEDIÁRIOS

Intermediários são sempre antipáticos. Ficam no meio do caminho entre o que desejamos e o que pode nos satisfazer. Representam um custo. Pior, são um risco. Do dinheiro que fica depositado nos bancos às verduras expostas no mercado, tudo depende de algum tipo de mediação. Mas não há garantia total de que o banco nunca vá à falência ou de que o mercado ofereça o melhor produto pelo melhor preço.

Com a expansão da internet e de outras redes de informação, o mesmo problema aparece, ampliado, como custos e riscos nas trocas de informação (e de conhecimento). Aparentemente, o acesso às redes ficou mais fácil e mais barato. Algumas das melhores universidades do mundo, como o MIT, anunciaram a publicação gratuita dos seus cursos. Softwares gratuitos espalham-se pela internet. Há promessas de democratização no desenvolvimento da sociedade da informação. Mas quais são, afinal, os custos e os riscos dessa oferta ampliada?

Não é verdade que qualquer um pode se tornar um "infomediário" (intermediário de informação). As dificuldades são maiores do que se imaginava. A solução técnica foi investir em robôs de software, "agentes" capazes de fazer a "mineração" das redes. Os mecanismos de busca na internet (como o campeão Google) são o exemplo mais conhecido desse tipo de solução.

Mas será que os problemas informáticos podem ser resolvidos só com... mais informática? As tentativas não param: portais personalizados, comunidades virtuais e blogs ganharam terreno nos últimos anos como armas supostamente certeiras em favor da democratização da informação e do conhecimento.

E o valor social dessas ferramentas? Está sujeito a dúvidas. Existe inteligência artificial? Nada garante que a inteligência de um software corresponda à inteligência coletiva, que se desenvolve na sociedade.

Alguns programadores preocupados com essa busca de harmonia entre software e
sociedade criaram um movimento conhecido como XP ("extreme programming").

Princípios como simplicidade e obsessão pela participação dos usuários no desenvolvimento dos programas são prioritários.

O desenho de sistemas de informação seria inseparável do redesenho dos sistemas sociais. Não é o software que vai mudar a sociedade, é a organização social que pode mudar os métodos e os resultados no desenvolvimento da infra-estrutura da sociedade da informação.

Adeus, utopias cibernéticas. É a realidade social que configura o mundo digital. A democracia precisa de infomediários. Mas robôs e ferramentas virtuais, como bancos e mercados, precisam ser controlados pela sociedade se o objetivo for reduzir os custos e os riscos dessas transações. Os infomediários precisam tanto ou mais de democracia quanto a democracia precisa de infomediários.

Gilson Schwartz, 43, é economista e sociólogo. É diretor acadêmico da Cidade do Conhecimento (www.cidade.usp.br) e autor do livro "As Profissões do Futuro" (Publifolha, 2000). Recomenda uma olhada no site www.xprogramming.com.

Autor: Gilson Schwartz
Fonte: Folha de São Paulo – 25 de março de 2003 – Caderno [sinapse], p.5

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.