TEXTOS TEMPORÁRIOS


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MULHER E BIBLIOTECA

Quando pensei neste tema, duas ideias se atropelaram na minha mente. A primeira é que biblioteca é feminino -feminino ou feminina? A segunda ideia é que, apesar de a biblioteca ser feminino - ou feminina? -, no uso dela não há comportamento diferente para homens e mulheres: o usuário é neutro.

Tendo percebido o choque dessas duas ideias, lembrei-me também de que os funcionários de biblioteca aparecem a nós, leigos, como moças ou senhoras.

Sei que isso não corresponde à realidade, sei que existem bibliotecários homens, mas não é essa a impressão que fica durante o evocar. Por que será isso? Por que esse predomínio do feminino?

Ainda às voltas com essa confusão de ideias, encontrei um amigo. Perguntei a ele: "O que te ocorre se eu falar em biblioteca e mulheres?". A resposta veio imediata: "Mulher é um livro aberto. O livro é a mulher que eu vou folhear, o mistério que eu vou decifrar. O livro não lido é um desconhecido a ser decifrado. Com a mulher, é a mesma coisa".

Mas ele falou do livro, não da biblioteca. Apesar de imaginarmos os homens polígamos, ele deu como exemplo o livro, não a instituição que organiza essas unidades através de categorias fixas.

Na biblioteca, a atividade é feminina: classificar, catalogar, fichar. Mas por que será feminina? Não me parece haver uma lógica, a não ser aquilo que meu amigo falou.

O livro tem um mistério a ser desvendado através da leitura. Poderíamos dizer que a biblioteca é o lar dos livros e de seus mistérios.

Já vai longe o tempo em que a lombada resumida numa ficha era a referência para encontrar um volume. O computador tira o mistério, tira a lombada, a capa. É pelo software que encontramos o livro, mas a sua existência é real.

Uma bibliotecária é a fronteira entre o leitor e o objeto concreto, o livro. Existem, é claro, homens que exercem essa função, mas a guarda do livro é da mulher.

Mas, afinal, quem frequenta uma biblioteca? Humanos alfabetizados que têm a sorte de saber que naquela casa ou naquele prédio existe uma coleção de mistérios a serem desvendados.

Nunca percebi diferença entre o manuseio de um livro por homens ou mulheres, por meninos ou meninas. Podem escolher conteúdos diferentes. Podem virar as páginas de forma diferente. Mas nunca percebi que houvesse um jeito feminino de ler livros.

No tocante à feitura deles, existe uma diferença entre o masculino e o feminino. O homem faz literatura épica: relata o que o homem faz. A mulher faz diário, uma atividade típica feminina: relata o que sente. Enquanto mulher faz livro, cuida de livro, homem produz livro e literatura épica.

Lá pelos anos 1950, quando a cidade de São Paulo era pequena, a Biblioteca Mário de Andrade e a Biblioteca Leopoldo Fróes eram polos formadores de cabeças pensantes.

Gente dos quatro cantos da cidade se encontrava em torno da estátua do hall central da biblioteca para ler e confraternizar.

A turma da biblioteca não tinha família nem lar. A nossa identificação se dava pelo lugar.

ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora).

Autor: Anna Veronica Mautner
Fonte: Folha de São Paulo - Opinião - 14/04/17

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.