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TORTURANDO OS NÚMEROS

Caso de cientista celebridade é fábula exemplar sobre o lado escuro da ciência.

Brian Wansink é professor de comportamento do consumidor com interesses em questões de saúde, nutrição e obesidade. Fez seu Ph.D. em Stanford e lecionou em Wharton. Ensina e pesquisa em Cornell, uma universidade de ponta, publica artigos em periódicos científicos reputados (Journal of Marketing, Journal of Marketing Research e muitos outros), conta com mais de 24 mil citações e um invejável índice H de 74, medida que retrata o intenso uso de seus artigos por outros cientistas. É autor de best sellers em seu campo e já ocupou um posto influente para a formulação de políticas públicas nos Estados unidos. Em suma, é uma celebridade acadêmica.

Posto e fama não parecem tê-lo protegido, entretanto, de embaraços. Suas peripécias foram tema de matéria em número recente da Revista Pesquisa Fapesp. Em novembro de 2017, um periódico científico anunciou a retratação de um de seus artigos, publicado no ano anterior. O editor havia recebido denúncias sobre problemas na condução do estudo. Os dados brutos da pesquisa foram reexaminados e verificou-se que as conclusões não eram sustentáveis. Não foi o primeiro caso de recall enfrentado por Wansink. Segundo a Revista Pesquisa Fapesp, este foi o quarto artigo do pesquisador cancelado em 2017. Além disso, outros sete artigos precisaram de correções e 40 encontram-se em avaliação.

As investigações foram desencadeadas depois que o próprio Wansink publicou um post em seu blog pessoal elogiando um assistente de pesquisa que havia trabalhado com dados aparentemente inconclusivos levantados em uma pesquisa de campo, até conseguir extrair resultados que possibilitaram a preparação de diversos artigos. O que Wansink fez foi elogiar uma prática questionável e ambígua, conhecida no jargão acadêmico como “torturar os dados até que eles confessem”.

Usada com boas intenções, essa prática significa estudar intensivamente dados coletados em pesquisa usando as mais sofisticadas técnicas estatísticas com o objetivo de correlações e explicar fenômenos relevantes. Assim, avança a ciência. A mesma prática pode ser utilizada, entretanto, além do limite ético, manipulando-se os dados e as técnicas de forma a mostrar resultados que viabilizam publicações, mas podem ser pouco confiáveis ou simplesmente inúteis.

Mais preocupante é o fato de não se tratar de fato isolado. A própria Revista Pesquisa Fapesp comenta outro caso similar. O texto menciona uma iniciativa para tentar confirmar resultados de artigos da área de psicologia social que resultou em fracasso em um terço dos casos. Isso não significa que em todos esses casos tenha havido má-fé por parte dos pesquisadores, mas também não melhora muito o quadro.

As conclusões de trabalhos científicos, principalmente aqueles publicados nas revistas de maior prestígio, podem ter desdobramentos sérios. Primeiro, porque os resultados errados tomados como válidos podem ser usados por outros pesquisadores. Segundo, porque as conclusões podem, através de livros e de outros meios de disseminação, chegar a um público mais amplo, influenciando mudanças de comportamento. Terceiro, porque as conclusões podem, em determinadas circunstâncias, influenciar políticas públicas.

A ciência é uma atividade sujeita a erros. Aprende-se com eles. Sem tentativas e erros não há avanços. O que se observa, porém, não são somente tentativas honestas para contribuir para o conhecimento. Existe também uma subcultura competitiva, que estimula a produção, e que pode levar pesquisadores a cruzar a linha da ética e a se aventurar por terrenos pantanosos. Trata-se de uma subcultura que valoriza mais as publicações do que a contribuição científica. Ela parece ter sido assimilada e está sendo disseminada por uma horda espalhada e nem sempre fácil de identificar, que vem se especializando em acessar fundos públicos para benefício privado. Seus membros empregam discurso sofisticado, exploram temas do momento e afirmam empregar métodos sofisticados.

Wansink vem se defendendo das acusações. Talvez seja sincero. O caso não é único e apenas chama a atenção pelo currículo do envolvido. Pode ser o topo de um enorme iceberg. Suas práticas e, talvez, seus valores provavelmente podem ser encontrados em muitas outras latitudes e longitudes, em pesquisadores de mediocridade variada. Ruim para a ciência, ruim para a sociedade.

Autor: Thomaz Wood Jr.
Fonte: Carta Capital, p.43, 7 de fevereiro de 2018

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.