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REMINISCÊNCIAS DA MEMÓRIA INDÍGENA ESTATAL NA REDEMOCRATIZAÇÃO BRASILEIRA

Intitulada de década perdida fruto do baixo crescimento econômico e da escalada inflacionária vivenciada, os anos 1980 foram de grande importância para os povos indígenas no país. Isto porque o Brasil vivia o processo de redemocratização e indígenas atuavam politicamente com mais autonomia e liberdade, fruto do caminho pavimentado pela consolidação da democracia brasileira. Fazendo pesquisas na maravilhosa Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional brasileira me deparo com a seguinte matéria do Jornal do Brasil “Funai põe no lixo memória indígena” de 18 de maio de 1986. A reportagem relatava que a FUNAI, na época comandada pelo famoso (e mal afamado) Romero Jucá, havia posto “milhares de documentos, mapas e fotografias de terras indígenas” no lixo. A reportagem me fez lembrar as enormes dificuldades pela qual passaram a documentação dos povos indígenas. Um marco da falta de cuidado com essa documentação foi o incêndio ocorrido no Serviço de Proteção aos Índios (SPI) no ano de 1967 (FREIRE, 2011) que destruiu uma parte representativa da história documental dos povos indígenas. Anos mais tarde, no bojo da redemocratização brasileira, o órgão governamental de defesa dos povos indígenas ainda mantinha práticas orientadas de eliminação da memória, lembrando uma prática colonial de efetuar um “[...] poderoso método de esquecimento organizado.” (PINTO, 2011, p. 274). Na mesma lente captada pelo jornalista, mais uma vez é verificada a ação de servidores indigenistas abnegados (MELLO, 2019) que, certamente penetrados por um ideal rondoniano, não deixaram mais uma parte da história dos povos indígenas em território brasileiro se apagasse e comprometesse a sobrevivência desses grupos. Muito sabemos do novo panorama positivo instalado em prol dos povos indígenas, principalmente com a promulgação da nossa Carta Magna no ano de 1988. Iniciativas louváveis de documentação e promoção das culturas indígenas têm sido efetuadas nos últimos anos. Todavia, é importante estarmos vigilantes frente às novas configurações políticas do país, principalmente quanto aos direitos sociais que estão sendo retirados, atingindo as parcelas mais vulneráveis, como os povos indígenas. 

Referências 

FREIRE, Carlos Augusto da Rocha (org.). Memória do SPI: textos, imagens e documentos sobre o Serviço de Proteção aos Índios (1910-1967). Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2011. 

JORNAL do Brasil. Funai põe no lixo memória indígena. Jornal do Brasil, 1º caderno, Rio de Janeiro, 18 maio 1986. 

MELLO, Rodrigo Piquet Saboia de. O fenômeno informacional indígena na contemporaneidade. 2019. 315 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019. 

PINTO, Alejandra Aguilar. A patrimonialização da memória social: uma forma de domesticação política das memórias dissidentes ou indígenas? Ciências Sociais Unisinos, São Leopoldo, v. 47, n. 3, p. 273-283, set./dez. 2011. 

* Doutor e Mestre em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia/Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBICT/UFRJ). Chefe do Núcleo de Informação Científica do Museu do Índio. E-mail: rodrigopiquetuff@hotmail.com

Autor: Rodrigo Piquet Saboia de Mello

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.