TEXTOS TEMPORÁRIOS


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MAR DE PALAVRAS

Três náufragos cegos: Homero, Joyce e Borges, à deriva num mar de palavras. Seu navio bateu numa metáfora – a ponta de um iceberg – e foi ao fundo. Seu bote salva-vidas é levado por uma corrente literária para longe das rotas mais navegadas, eles só serão encontrados se críticos e exegetas da guarda-costeira, que patrulham o mar, os descobrirem na vastidão azul das línguas e os resgatarem de helicóptero. E, mesmo assim, se debaterão contra o salvamento. São cegos difíceis.

* * *

Joyce é o único que enxerga um pouco, mas perdeu seus óculos. Só enxerga vultos, silhuetas, esboços, primeiros tratamentos, meias palavras, reticências. Mesmo assim, diz que a mancha que vislumbra no horizonte é Dublin. Sim, é Dublin, ele a reconheceria em qualquer lugar. “Tudo é Dublin para você”, comenta Borges, deixando sua mão correr para fora do barco. Súbito, Borges pega alguma coisa. Uma frase. Ergue a mão que segura a frase gotejante e pergunta o que é. Um conceito? Uma estrofe? Em que língua?

- É Dublin – diz Joyce.

* * *

- É Dublin do meu “Ulysses” – diz Joyce.

- Do meu Ulisses – diz Homero.

- O meu Ulisses contém todos os ulisses da História. O seu Ulisses foi apenas o primeiro. E ele nunca esteve em Dublin.

- O meu Ulisses não esteve em lugar nenhum. Voltou de todos.

- Você está sendo mais obscuro do que nós, Homero – reclama Borges. – Você não pode ser obscuro, o que sobrará para nós, que viremos depois? Seja claro. Seja linear. Seja básico. Seja grego, pombas.

- Todas as histórias são a história de uma volta – diz Homero.

- Pelo mar de palavras só se volta – concorda Joyce.

- Meu Ulisses voltava para Ítaca. Você voltava para onde, Joyce?

- Dublin. Sempre Dublin.

- Eu voltava para a biblioteca do meu pai – diz Borges. – Aliás, como o Ulisses de Homero, eu nunca estive em outros lugares. Sempre voltei deles. E voltei para a biblioteca do meu pai. Onde desconfio que estou nesse momento.

- Você está no mar – diz Joyce.

* * *

- Você está no mar.

- Como sabe que isto é mar? – pergunta Borges.

- Porque sinto o cheiro da minha mulher. Nora, que a Irlanda lhe seja leve. Nora Barnacle. Nora Craca. Meu pai disse que, com esse nome, ela nunca desgrudaria de mim. Tinha razão.

- Nora Craca – sorri Homero, sem que os outros vejam. – Uma nora Craca não ficaria esperando, como Penélope. Uma Nora Craca iria junto.

- As mulheres se dividem em Penélopes e Noras Cracas – diz Joyce – As Penélopes esperam. As Noras Cracas grudam.

- Quem me assegura que eu não estou na biblioteca do meu pai, com o fantasma de dois poetas? A biblioteca do meu pai também era úmida, e evocativa, e tinha cheiros.

* * *

- Para Dublin! – diz Joyce, de pé na proa do barco, ou o que ele julga ser a proa, apontando para a vaga mancha no horizonte.

- Os ventos estão para Ítaca – diz Homero.

- Ítaca não existe mais – protesta Joyce.

- Diga isso aos ventos – responde Homero.

- Mas não temos velas, não temos remos, não temos motor de popa, pelo que sabemos não temos nem popa, não temos nada. Salvo o nosso gênio, que não leva a lugar nenhum – diz Borges. – Estamos perdidos!

- Não estamos perdidos, Borges. Conhecemos este mar como ninguém. Já o cruzamos, em pensamento, mil vezes. Com Homero, que o inventou. Com Camões, com Conrad, com Sinbad, com o Capitão Nemo no “Natilus”, com o Capitão Ahab no “Pequod”. Já ouvimos as suas sereias, já mergulhamos nos seus abismos e mijamos no fundo. Ninguém se aventurou neste mar como nós. Muitas dessas ondas fomos nós que fizemos. E é um mar feito de tudo que nós amamos. Letras, palavras, frases, parágrafos, capítulos, alusões, memórias, imagens e o cheiro de craca... não estamos sozinhos. Não estamos perdidos. Sabemos onde estamos, e onde fica Dublin. O que mais um homem precisa saber?

- Como chegar lá – diz Borges.

- Eu sei como chegar a Dublin. Eu voltei.

- Não voltou - diz Homero.

* * *

- Como não voltei?

- Você nunca voltou a Dublin. Eu nunca voltei a Ítaca. Borges nunca voltou à biblioteca do seu pai. Podemos tê-las evocado, mas elas não estavam mais lá. Não é só Ítaca que não existe mais. Nenhum lugar do nosso passado existe mais. Evocá-los é uma maneira de acabar de destruí-los, de povoá-los com mortos. Acreditem, eu sei. Pelo mar de palavras não se volta a lugar algum.

- E se formos resgatados por teóricos de helicóptero? Continuamos lidos. Revisionistas loucos para nos reexaminarem é que não faltam. Cedo ou tarde nos tirarão daqui.

- Não, você não entendeu? Não somos mais nós, somos apenas as nossas palavras. Não nos distinguirão delas. Se pularmos, nos confundirão com símiles voadores; se abanarmos os braços, nos confundirão com narrativas tentaculares ou outras criaturas do mar. Nos fundimos com a imensidão azul das línguas. Jamais sairemos vivos daqui.

- Quer dizer que tudo isso, a ponta do iceberg, este naufrágio, esta conversa, era apenas uma encenação? Uma representação de como acabamos, com todo o nosso gênio? – pergunta Joyce.

- É – responde Homero.

- O mar de palavras, então, é a morte?

- Não. É a eternidade.

- Eu sabia – diz Borges. – A biblioteca do meu pai. 

Autor: Luis Fernando Veríssimo
Fonte: VERISSIMO, Luis Fernando. A eterna privação do zagueiro absoluto: as melhores crônicas de futebol, cinema e literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. p.167-171.

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.