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SOPA DE LETRINHAS

  • Autor não informado
  • Novembro/2019

Vital para a saúde da mente, a leitura é receitada desde a mais tenra idade. As doses, porém, devem ser homeopáticas e criteriosas para não assustar o futuro paciente.

 

Aos hábitos de imentar-se diariamente para manter o vigor físico; escovar os dentes para evitar cáries; e tomar banho para manter a higiene corporal, poderíamos acrescentar um outro: ler para obter a "sustança" das idéias. Comparações à parte, porém, o certo é que, desde que a criança balbucie as primeiras palavras, todo pai se indaga sobre quando ela irá de fato ler ou adquirir essa espécie de passaporte para a viagem da vida. A exemplo de outras habilidades adquiridas, como jogar futebol ou nadar, ler é uma atividade que necessita ser desenvolvida, incentivada e inserida aos poucos na vida dos pequenos, mesmo quando ainda não são alfabetizados. Mas nada de tornar o hábito obrigatório. A leitura deve ser apresentada como uma ação lúdica e de diversão, primeiro passo para ser prazerosa.

 

"Na tentativa de valorizar a leitura muitas escolas acabaram por formalizá-la. Não houve um manejo correto das condições. Transformaram a leitura em provas e em outras atividades. O ato de ler tem de ser agradável para que a criança passe a gostar", observa a psicóloga educacional Maria Martha Costa Hübner, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia. De acordo com Maria Martha, a leitura é uma fonte importantíssima de aprendizado e uma pessoa que ouve e lê tem uma capacidade maior de fixação em comparação a outra que apenas ouve. "A leitura deve se tornar um costume. Ela se instala por meio de situações prazerosas. A pessoa não consegue criar um hábito de uma coisa que ela detesta, a não ser que seja extremamente disciplinada e tenha todas as situações favoráveis", comenta. "Através da leitura a criança pode informar-se, aprender e divertir-se, além de desenvolver capacidades intelectuais e outras habilidades. No jovem, a leitura propicia a formação de uma habilidade argumentativa e também o pensamento crítico e abstrato. Esses são dados concretos dos aspectos que a leitura desenvolve para aprimorar a aprendizagem", cita a educadora, psicopedagoga e poetisa Adriana Fóz Veloso. Ela também coordena o Projeto Poesia & Arte, no Ministério da Educação e Cultura, e foi uma das fundadoras do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD).

 

Posição dos pais

 

Respeitar a faixa etária da criança ou o seu desenvolvimento cognitivo é destacado pela educadora como um dos primeiros passos para incentivar a leitura. Por exemplo, não adianta contar uma história de Aladim para uma pessoa de dois anos. "É preciso oferecer algo que esteja de acordo com o interesse e condição cognitiva dela. Nessa fase, são indicados livros de plástico ou pano. Não deve ser oferecido algo que ela não pode pôr na boca ou rasgar. Pelo contrário, esse objeto deve ser experimentado como se fosse um brinquedo", indica Adriana. Além de ser introduzido na vida da criança como um objeto lúdico, Maria Martha alerta para que os pais adquiram o hábito de ler para os filhos antes de eles dormirem. "É um momento afetivamente muito agradável, quando o pai está próximo e a criança começa a aprender que o livro é um aliado. Ela conhece realidades que nunca viveu; ele ajuda na fantasia, nas idéias e, inclusive, a elaborar construções difíceis. Por exemplo, em consultório usamos algumas histórias como recurso para trabalhar questões de conflito", emenda.

 

Já Adriana Veloso aconselha os pais a oferecer aos filhos outras atividades, tais como levá-Ios a livrarias, ao teatro, a contadores de história, ao cinema etc. "Tudo isso é arte e prepara o terreno para que a criança se interesse pela leitura. Entre O e 7 anos, ela tem as janelas do desenvolvimento abertas", acentua.

 

Aversão pela leitura

 

Da mesma forma que é possível o hábito da leitura ser adquirido com prazer pela criança, o contrário também ocorre. Essa situação pode ser decorrente de uma outra; por exemplo, de ela (a criança) pretender punir um dos pais. "O pai separa-se da esposa e deixa o filho de lado. Como uma maneira de deixar claro que não gosta dessa atitude, a criança pensa no que o pai mais gosta de realizar e deixa de fazê-Io", comenta Adriana. O argumento de que, se pai e mãe lêem livros, logo os filhos farão o mesmo, nem sempre é verdadeiro. A convivência entre livros é apontada pelas duas profissionais como importante, mas os pais precisam ter o cuidado para que ela não seja um fator de distanciamento. "Por exemplo, se o pai lê o tempo inteiro e tem um filho com o qual nunca brinca, não passeia ou vai jogar futebol, o livro pode ficar aversivo porque é fator de separação. É um antievento", destaca Maria Martha. Segundo a psicopedagoga Adriana, quando a criança não tem proximidade com livros, ou seja, quando a leitura não faz parte da rotina da família fica mais difícil estimulá-Ia. "O hábito da leitura é construído da mesma forma que se exercita um músculo visando à melhoria de sua performance. Comparativamente, uma pessoa que nunca leu, quando adulta terá muita dificuldade em criar e estabelecer o comportamento. Portanto, quanto mais cedo melhor." Pressionar o filho a ler ou querer que ele seja um leitor competente, antes mesmo de ser suficientemente alfabetizado, pode causar sérios comprometimentos ao seu desenvolvimento e, claro, prejudicar o seu interesse pela leitura. As profissionais concordam que a postura dos pais deve ser de incentivo, de mediadores, nada de cobranças. Isso vale ainda para outras atividades. Afinal, quantos pais não sonham em ver os filhos jogadores de futebol? "Antes de castigar a criança, é preciso ver se ela não tem alguma dificuldade com a leitura, pois as técnicas de alfabetização não são unânimes e homogêneas. Muitas vezes, a pessoa passa por um processo de alfabetização doloroso, sofrido e desenvolve aversão pela leitura", alerta Maria Martha. A alfabetização é fundamental para a criança compreender o que está lendo. Desde a 2ª e 3ª séries do ensino fundamental ela já é um leitor competente dentro desta faixa etária. "Na 1ª série existem livros de literatura infantil perfeitamente compreensíveis às crianças; num nível mais concreto, com frases mais curtas, um vocabulário próprio para a idade. Supõe-se que na 5ª série ela saiba todo o básico, a compreensão da Língua portuguesa e suas complexidades. No entanto, levamos a vida inteira para ser um leitor completo, ou seja, a pessoa vai tornando complexo esse processo", analisa a psicopedagoga.

Fonte: Revista Kalunga, ano 31, n. 158, mar. 2004

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.