TEXTOS TEMPORÁRIOS


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O PODER MIDIÁTICO

Como conseqüência da revolução digital, é extremamente difícil hoje em dia, intelectual e objetivamente, estabelecermos distinções nítidas entre o mundo da mídia, o mundo da comunicação, o mundo que poderíamos denominar cultura de massas e o mundo da publicidade. Cada dia existem menos fronteiras entre esses três setores. Até alguns anos atrás, no universo da comunicação em geral, podíamos distinguir três esferas autônomas e praticamente independentes. Por um lado, a esfera daquilo que chamamos de informação: imprensa, informação radiofônica, agências de notícias, noticiários de televisão, cadeias de informação contínua – este universo, dos jornalistas, é um mundo à parte, uma esfera à parte.

A outra esfera é a esfera que vamos chamar de comunicação institucional: a publicidade, a propaganda no sentido político da palavra, todo esse universo que se desenvolveu enormemente. Na atualidade, os governos comunicam, as empresas comunicam, possuem jornais, rádios, têm porta-vozes midiáticos, têm estruturas de imprensa e é cada vez mais difícil para nós não identificar estes elementos como parte formadora do mundo da comunicação. A publicidade faz parte do mundo da comunicação, é o aparato ideológico do sistema. A publicidade é aquilo que a propaganda é na política.

A terceira esfera é aquilo que chamamos em geral de cultura de massa, em seu sentido mais amplo: a telenovela, os quadrinhos, a edição literária de massa, os livros de massa, o cinema de massa, o esporte etc.

Poderíamos, há dez anos, falar dos meios de comunicação como um universo fechado, com sua própria lógica, com sua própria dinâmica, autônomo em relação ao resto do universo da comunicação, mas hoje isso não é mais possível. E por que não é possível? Por causa da revolução digital. A revolução digital, que obviamente não irei explicar aqui, é essencialmente a mescla do texto, do som e da imagem. Antes havia um universo do texto, um universo do som, um universo da imagem; hoje isso está totalmente misturado. Podemos observar, por exemplo, que não existem mais máquinas de comunicar exclusivamente sonoras. Se vocês recordam, há uns 10 ou 15 anos, um telefone era um aparelho de duas peças, negro, que servia apenas para o som, e não, por exemplo, para transmitir um texto ou uma imagem. Hoje pegamos o telefone celular e verificamos que ele ainda tem som, mas que também tem imagem, e que tem texto, e tem uma tela. O rádio, por exemplo, antes era puramente sonoro e um cego poderia ouvi-lo; hoje, ele já não pode ouvir rádio tão facilmente, porque o rádio também tem uma tela, e na tela há texto e amanhã haverá imagem; e o texto do rádio nos diz quem está falando, como se chama, que estação estamos ouvindo, que canção é aquela que escutamos etc.

Já não há, portanto, o universo do escrito, o universo do som, o universo da imagem, tudo está misturado. Da mesma forma, ainda no marco da comunicação, o que observamos é que as máquinas de comunicar se fundem: o telefone, o televisor, o computador. Essas novas máquinas nos permitem fazer, cada vez mais, o que cada aparelho nos possibilitava em separado. Com o televisor podemos realizar as funções do computador, com o computador as funções do telefone e com o telefone as funções da televisão, e sempre mais. Esse é o universo da Internet.

A Internet não sabe distinguir entre texto, imagem e som, não sabe distinguir entre as três esferas das quais falamos. Na Internet existe esfera da informação, esfera da publicidade e esfera da cultura de massa. Na Internet há cada vez mais televisão, há cada vez mais informação, há cada vez mais publicidade; e não há diferença entre as três. Portanto, estamos agora em um contexto no qual devemos pensar globalmente esses três universos diferentes.

As megafusões

Com a unificação dessas três culturas, estão surgindo firmas, empresas que têm a vocação de administrar todo o conteúdo das diferentes esferas. É significativo que no ano 2000 tenhamos assistido ao surgimento de megagrupos de comunicação, com a fusão do grupo líder da comunicação mundial, Time Warner, com a empresa líder de Internet, America On Line; uma empresa, antiga, a Time Warner, e uma empresa recente, a America On Line.

É preciso refletir sobre o que isso significa em termos de difusão: quantos milhares de pessoas em todo o mundo têm relação com o grupo Time, com a revista Time, com o cinema Warner, com a televisão Warner ou com o canal a cabo Warner, ou ainda com a CNN, que faz parte do grupo, e, agora, com a AOL, que é um portal de entrada na Internet para centenas de milhões de usuários pelo mundo afora.

Vimos aparecer mais recentemente um segundo grupo euro-americano, ou franco-americano, o Vivendi Universal. Ele se assemelha ao grupo Murdoch, não tem especialidade no campo da comunicação. Faz de tudo: edição musical, edição cinematográfica, filmes; possui, é evidente, editoras, agências de publicidade, todo tipo de serviços de lazer, além de, obviamente, estar presente também no esporte.

O esporte hoje interessa aos grandes grupos de comunicação americanos e europeus ou a um grupo como Murdoch (que já não sabemos que nacionalidade tem, se é australiano, se é britânico, se é americano), o qual, por exemplo, pretendia comprar o time de futebol mais célebre do mundo, o Manchester United. Um time de futebol não tem, hoje, interesse esportivo: é muito menos uma prova esportiva que se desenrola em uma cancha do que um espetáculo que se difunde pela televisão. Um time de futebol nada tem a ver, ou tem cada dia menos, com o esporte e cada vez mais com o espetáculo. Daí as importantes somas em dinheiro pagas aos atores dessas equipes, como aos atores deste ou daquele filme ou telenovela.

Em tal contexto, o que temos diante de nós não é o mundo da informação apenas, mas um universo bem complexo, no qual os atores principais da globalização, as grandes empresas, desempenham além do mais um papel muito importante no campo da informação. É o que tento distinguir no mundo atual quando faço referência ao primeiro e ao segundo poder – e nenhum desses poderes é político.

O primeiro é o poder econômico e financeiro. E o segundo é o poder midiático. Porque o sistema midiático, da maneira como o defino, é o aparato ideológico da globalização. É o sistema que, em certa medida, constitui o modo de inscrever, no disco rígido de nosso cérebro, o programa para que aceitemos a globalização. Esse sistema ideológico, esse aparato ideológico global, é o aparato midiático em seu conjunto. Quer dizer, o que a imprensa diz a televisão repete, a rádio repete, e não apenas nos noticiários, mas também nas ficções, na apresentação de um tipo de modelo de vida que se deve apresentar.

A informação hoje

No universo da informação, especificamente, esta característica também é encontrada. O que surgiu como característica importante, primeiro, é que hoje a informação é considerada essencialmente uma mercadoria. Não é um discurso que tenha a vocação ética de educar o cidadão ou de informar, no bom sentido da palavra, o cidadão, pois tem essencialmente e antes de mais nada uma perspectiva comercial. Compra-se e vende-se informação com o objetivo de obter lucros. Esta é uma lei importante, de modo que a informação não se move em função das regras da informação – o que faria da verdade, por exemplo, uma referência suprema –, mas em função das exigências do comércio, que fazem do ganho, ou do interesse, o imperativo supremo.

A segunda característica da informação, é óbvio, é que ela se acelerou até alcançar o limite absoluto de aceleração. A que velocidade circula a informação hoje? A velocidade da luz, ou seja, 300 mil quilômetros por segundo. Passamos de um mundo do jornalismo para um mundo do imediatismo, do instantaneísmo, não há tempo para estudar a informação. A informação é feita cada vez mais de impressões, de sensações.

Qual é a terceira característica da informação hoje? Essencialmente, é que tende a ser cada dia mais gratuita. As grandes firmas midiáticas presenteiam informação. Se pensarmos sobre a informação que consumimos, veremos que recebemos a maior parte dela gratuitamente, ou aparentemente gratuitamente. Quando ouvimos rádio, quando vemos televisão, a informação é gratuita. Quando lemos a imprensa, pagamos, porém é um pagamento simbólico, que não cobre sequer o preço do peso em papel do jornal. Por quê? Porque quem paga a informação na realidade é a publicidade.

Então, sobretudo com os megagrupos que apareceram agora, entramos em um universo no qual a circulação da informação de massa se faz com esse critério. Antes podíamos dizer que uma empresa jornalística, vendia informação aos cidadãos. Era a sua forma normal, enquanto hoje uma empresa midiática vende consumidores a seus anunciantes. Quer dizer, a AOL-Time Warner, por exemplo, vende a seus anunciantes – Nike, Ford, General Motors – o número de consumidores que possui. Essa é a relação dominante.

Discurso infantilizante

O que significa tudo isso que estou dizendo? Significa que a luta contra tais grupos se tornou extremamente difícil. Poderíamos dizer, por exemplo, que uma atitude militante diante da pressão midiática consistiria em dar gratuitamente a informação que eles vendem, mas na realidade eles já o fazem: se difundirmos gratuitamente a nossa informação, não faremos nada além do que eles fazem; a gratuidade já não é critério de distinção.

Os grupos de mídia se dirigem a massas que são planetárias, enquanto nós, muitas vezes, seguimos pensando o contradiscurso de forma demasiado local ou demasiado circunstancial. Aqui também existe uma diferença entre ilustrar aqueles que já sabem e
dirigir-se a um público geral. Outra diferença é que, por vezes, o discurso militante ou de contra-informação não é suficientemente pedagógico ou não tem os critérios de sedução que lhe permitiriam competir com o discurso dominante.

Pois bem, qual é a característica do discurso das grandes empresas midiáticas? É a retórica. Analisando o discurso da informação ou da publicidade ou da cultura de massas, observa-se que ele apresenta, retoricamente, as mesmas características. Em primeiro lugar, é um discurso rápido, não há efeitos longos; na imprensa, os artigos são cada vez mais curtos, as frases são breves, os títulos impactantes, como um modelo publicitário ou qualquer discurso da cultura de massa. Primeira característica: a rapidez para evitar o tédio.

Segunda característica: a simplicidade. O discurso dominante, nos grandes sistemas midiáticos, é muito elementar, é um vocabulário que todo mundo possui, é uma construção sintática, uma construção retórica que todo mundo pode entender. No cinema, no rádio, na literatura de massa, as características são as mesmas, ou seja, a simplicidade da construção.

A terceira é utilizar constantemente algo que poderíamos chamar de elementos de espetacularização, de dramatização: o riso, por exemplo, no discurso publicitário; o discurso eufórico ou a tragédia no discurso do noticiário. Fazer rir ou fazer chorar. Em todo caso, expressar-se através das emoções.

Quando refletimos sobre esse discurso, que é um discurso de massa, logo descobrimos que fala, na realidade, tem essas características: é aquela que, em geral, dirige-se às crianças. Às crianças fala-se com simplicidade, brevemente e de maneira emocional. De uma maneira geral, o discurso que recebemos é um discurso infantilizante.

Qual é, porém, o problema? É que não podemos fazer contra-informação com um discurso efetivamente infantilizante. E a dificuldade está em construir um discurso de contra-informação que apresente também características de sedução, ou seja, que não se dirija a uma pequena minoria, mas que possa dirigir-se também às massas, sem ser, definitivamente, um discurso doutrinário, dogmático, um discurso de pura retórica, artificial.

Queremos a verdade

Dirão vocês que tudo isso é muito pessimista. É verdade, a situação não é fácil, eu já o dissera no início. E qual seria a perspectiva menos pessimista? Eu não disse otimista, disse menos pessimista. O que constatamos em nossas sociedades, na maioria das sociedades? Constatamos que há uma contradição cada vez maior entre dois parâmetros: o primeiro é aquele que acabo de mencionar, isto é, que o nível dos meios está cada vez mais vulgar, mais medíocre, mais insatisfatório.

E o segundo parâmetro é que há cada vez mais pessoas educadas, mais pessoas que fizeram estudos secundários, que fizeram estudos superiores. Na realidade, poderíamos dizer que em nenhum momento da história, na imensa maioria dos países de hoje, houve um nível educacional como o atual. Portanto, enquanto o nível educacional sobe, o nível midiático desce. Chega um momento em que eles se cruzam e aparecem em nossas sociedades cada vez mais categorias sociais que se sentem insatisfeitas com este discurso infantilizante e que exigem ser tratadas como adultas, capazes de conhecer a verdade, capazes de distinguir e de tomar posição em função da verdade, seja qual for essa verdade.

Não queremos um conto de fadas, queremos a verdade e diante da verdade, como cidadãos, estamos dispostos a assumir posições. Que não nos contem um conto de fadas como a Guerra do Golfo, que não nos contem um conto de fadas como a Guerra de Kosovo, que não nos contem um conto de fadas sobre o Plano Colômbia. Queremos a verdade e em função da verdade poderemos decidir.

E podemos nos dar conta de que os meios, pequenos evidentemente, que fornecem informação séria, não ideológica, dados, fatos concretos, com referências, estes meios, por mais diferentes que sejam, estão conquistando cada vez mais audiência. Evidentemente seria imodesto de minha parte citar Le Monde Diplomatique. Todos sabem que Le Monde Diplomatique é feito por dez pessoas, mais ou menos, um pequeno grupo; porém, pouco a pouco, mediante uma política de respeito ao cidadão, conseguimos que o número de leitores se multiplicasse e não apenas em nossa edição francesa, pois como se sabe existem agora umas 15 edições em várias línguas. Temos hoje mais de um milhão de pessoas que lêem a cada mês alguns desses jornais em suas diferentes edições.

É um pequeno e modesto exemplo diante de um grupo como a Time Warner, mas este exemplo modesto indica que há uma demanda, hoje em escala internacional. Poderíamos citar outros grupos ou outros meios, tanto no suporte impresso como no suporte rádio ou no suporte Internet, que estão fazendo uma informação que é, sensivelmente, aquela que permitiu que o Fórum Social Mundial acontecesse, e que acontecesse com o êxito que conhecemos. E permitiu também que pudéssemos, no plano midiático, travar uma verdadeira queda-de-braço com Davos, onde estão os patrões do mundo. E aqui estamos apenas os cidadãos do mundo.

Quando refletimos sobre a comunicação dominante ou sobre a comunicação alternativa, o que as duas têm em comum é o fato de que são comunicação e de que não é possível comunicar-se bem de qualquer maneira: este é o problema. Para comunicar bem, faz falta uma série de técnicas. Possuir a verdade não é suficiente. Alguém pode ter a verdade e definitivamente não encontrar eco porque não sabe comunicar esta verdade. O fato de acreditar que se tem a verdade e de deixar que isso produza uma soberba tal que induza a pensar que não é necessário comunicar, que a verdade tem que se impor por si só, esse tipo de atitude, que é arrogante e depreciativa com respeito à cidadania, paga-se com a falta de comunicação.

A publicidade (quadro)

Quando lemos ou relemos 1984, de Orwell, é interessante ver que o discurso sobre a propaganda política em um tipo de Estado autoritário é, na realidade, aquilo que vivemos a cada dia, é o discurso comercial, não o discurso totalitário. No entanto, o discurso comercial é uma ideologia como outras, alguns poderiam defendê-Ia, porém outros podem não estar de acordo. É um discurso puramente ideológico que trata de vender um modelo de vida que é um modelo de vida claramente ideológico. O intolerável é que nossa liberdade de cidadãos se veja constantemente limitada por esta agressão publicitária que sofremos quando estamos em contato com qualquer meio de comunicação ou simplesmente quando circulamos pela cidade, onde resta cada vez menos espaço público.

Penso que é preciso desenvolver o que chamo de ecologia da informação. É preciso defender a idéia de que, assim como o meio ambiente está contaminado pelo uso de metais pesados e porque existe uma espécie de hiperindustrialização que produziu o desastre ambiental que conhecemos neste ou naquele aspecto, assim também a informação está contaminada. A informação está contaminada essencialmente por uma série de mentiras que podem ser factualmente demonstradas. É preciso descontaminá-la dessas mentiras, é preciso descontaminá-la de uma certa ideologia: podem-se defender idéias, todas as idéias podem ser defendidas; anunciadas, porém, como idéias e não como uma coisa natural. Mas é preciso igualmente descontaminar de publicidade, do ponto de vista ideológico, o meio que nos cerca. E isso é óbvio.
 

Autor: Ignacio Ramonet
Fonte: RAMONET, Ignácio. O poder midiático. In: MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003. p.243-252

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Seção Mantida por OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.