INFORMAÇÃO E SAÚDE


RELACIONAMENTOS ENTRE A MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E O PROCESSO DE HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA EM SAÚDE: UM COMEÇO DE CONVERSA

Marcos Vinícius Santos de Carvalho Terra*

Jéssica Ribeiro Mamede*

Maria Cristiane Barbosa Galvão

 

Marcos: Olá, Professora. Qual a sua percepção sobre a conscientização das instituições de saúde na implantação de serviços de mediação da informação?

 

Cristiane: Como vai, Marcos? Essa pergunta é bastante complexa, porque vocês veem a mediação da informação com o olhar da ciência da informação, e eu talvez apresente um olhar de quem trabalha um pouco mais no campo da saúde. Então, o primeiro conceito que eu acho importante que se compreenda é que o campo da saúde é bastante amplo. Ele engloba todo o bem-estar social, a dimensão físico-biológica do ser humano, o andar pelo parque, o ter uma boa alimentação, o ter uma boa leitura, o ir ao cinema. A saúde está relacionada à dimensão espiritual, mental, social e física do ser humano. Assim, quando nós falamos do campo da saúde, nós não podemos associá-lo apenas às unidades de saúde, pois, geralmente, quando as pessoas vão a tais unidades é porque estão quase sempre doentes, não é? Então, uma coisa é o campo da saúde, outra coisa são as unidades de saúde, que, geralmente, recebem as pessoas, ou para a prevenção de doenças, ou para o tratamento de doenças, ou para algum tipo de acompanhamento. Quando nós recebemos pessoas nas unidades de saúde, ou quando os profissionais de saúde vão até às comunidades mais longínquas, em visitas domiciliares, sempre há algum tipo de mediação da informação, porque o profissional de saúde é uma pessoa que estudou, ou que tem um acesso maior ao conhecimento científico, e ele precisa traduzir essas informações, esse conhecimento, para uma população, que, muitas vezes, no caso do Brasil, frequentou apenas o ensino fundamental. Dessa forma, sempre nesse processo de interação, quando o profissional de saúde entra em contato com a população, seja sadia ou população doente, ele precisa fazer essa mediação.

 

A segunda parte da sua questão está ligada a se esse processo de mediação é consciente. Eu não sei exatamente se esse processo é consciente. Os profissionais de saúde não vão falar assim: “estou fazendo mediação da informação”, porque esse conceito é um conceito da ciência da informação. Mas no campo da saúde, usamos outros termos próximos. Por exemplo, diz-se “fazer o acolhimento do paciente”, que seria tratar o paciente de forma que ele compreenda o que está sendo dito e realizado. Outro conceito importante é o da “humanização da assistência em saúde” que passa pelo diálogo com o paciente, pela disponibilização de informações e de empoderamento do paciente para a tomada de decisão sobre sua saúde, sobre seu corpo ou sobre o corpo e a saúde de um familiar seu. Assim, penso que os conceitos “humanização” e “acolhimento” estariam relacionados ao processo de mediação da informação a que você se refere.

 

Marcos: Professora, como funciona o processo de humanização da assistência em saúde?

 

Cristiane: A humanização da assistência em saúde pode empregar múltiplos recursos a depender do público, incluindo, por exemplo, uma roda de conversação sobre um filme, debates, oficinas de arte, discussão de livros, danças, cirandas, artes manuais como tricô ou pintura, ou seja, varia muito. A humanização da saúde é uma das prioridades do Sistema Único de Saúde e passa pelo reconhecimento da singularidade e da capacidade criadora de cada sujeito envolvido no sistema de saúde. Dessa maneira, penso que o conceito de humanização da assistência em saúde se aproxima do conceito de mediação proposto pelo campo da ciência da informação.

 

Marcos: Baseada em sua experiência profissional, poderia citar projetos de humanização em saúde?

 

Cristiane: Antes de mais nada, precisamos manter a mente aberta para pensar a saúde como uma questão cognitiva, e não como presença de doenças. Precisamos também pensar a população como agente e não mero paciente. Nesse sentido, a meu ver, um dos projetos que eu acho bem interessante sobre humanização em saúde é o projeto “Varre Vila”, que possui inclusive uma página no Facebook, disponível em: https://www.facebook.com/varrevila/. Este projeto tem por objetivo reunir toda a comunidade de um bairro para a limpeza das ruas, e isso é um processo que abarca inclusive profissionais da saúde das unidades de atenção primária. A comunidade é envolvida para limpar o seu bairro. Por que é importante limpar o bairro? Porque muitas vezes a presença de lixo, a presença de animais, como ratos, ou animais abandonados podem gerar doenças nos seres humanos. Você coloca a população para agir, passa informações e melhora a condição de saúde ao mesmo tempo. Não sei se estou respondendo a sua pergunta, mas, dentro dessa proposta de humanização da saúde, que seria promover o acesso à informação de uma forma mais amigável, mais compreensível, algumas unidades de saúde no contexto internacional, sobretudo, disponibilizam a cachorro-terapia ou pet-terapia. Por essa metodologia, a criança internada pode receber a visita de um cachorro ou de um animal de estimação. Um exemplo do emprego dessa abordagem pode ser observada no Boston Children´s Hospital, com informações disponíveis em: http://www.childrenshospital.org/patient-resources/family-resources/pawprints. Então, isso é um processo de humanização, não é? Muitas vezes a criança fica internada por um período muito longo, e ela sofre com isso. Para minimizar esse sofrimento, é preciso levar leitura, é preciso levar brinquedos a essas crianças, mas, também, um animal de estimação. Tais recursos podem gerar benefícios psicológicos de forma que a criança se recupere mais rápido. Receio que meu conceito de informação seja bem amplo quando relaciono as emoções trazidas pelo animal de estimação com aquelas trazidas por livros - mais comuns no repertório da ciência da informação. Sei que estou fugindo do conceito de “informação registrada”... Porém, sou de correr riscos. Alguém precisa correr riscos nesse mundo. Como já dizia Glauber Rocha “sou uma artista, não me exija coerência”.

 

Marcos: No caso da mediação da informação no contexto da saúde, qual seria a participação do bibliotecário, do arquivista, do profissional da informação?

 

Cristiane: Existem alguns projetos em andamento que eu participo como, vamos dizer assim, pesquisadora-bibliotecária. Um dos projetos que eu faço parte está ligado à mediação, mas a mediação da informação para os profissionais da saúde. Então, nós (esse “nós” é uma equipe interdisciplinar) selecionamos as informações da literatura internacional de grande relevância científica e que são importantes para o contexto brasileiro. Então, traduzimos essas informações, incluímos informações sobre o Brasil, e disseminamos essas informações para os profissionais de saúde que estão atuando na prática clínica. Fazemos uma mediação da informação que passa por um filtro de seleção, de tradução, de adaptação para o contexto brasileiro, e disseminação da informação. Essa, parece-me, que seria uma abordagem mais tradicional da mediação da informação.

 

Marcos: No momento da mediação da informação no contexto da saúde, ocorre a interdisciplinaridade de forma efetiva? Há um enriquecimento mútuo entre as áreas envolvidas com processos de mediação?

 

Cristiane: Acho que ao longo da entrevista, eu fui mesclando humanização da assistência em saúde com mediação da informação, pois vejo muita proximidade nesses processos. Em relação à interdisciplinaridade, não há como não haver, porque se eu estou dentro de uma unidade de saúde e quero fazer uma exposição de arte, eu tenho que dialogar com artistas, museólogos, psicólogos, profissionais de saúde. Se vou fazer uma exposição sobre drogas, que vai beneficiar uma comunidade, o trabalho tem que ser interdisciplinar. Tem que ter o psicólogo, o psiquiatra, a escola, o profissional da informação como um dos profissionais que atuará nessa equipe. Na saúde, trabalhamos com o conceito de equipe multiprofissional, e esse conceito multiprofissional serve para tudo. Se eu tenho um projeto, tenho uma equipe multiprofissional por trás. O trabalho da informação em saúde não é um trabalho de um bibliotecário no campo da saúde. É um trabalho que o bibliotecário faz com que as equipes multidisciplinares para assistir o paciente ou a população sadia. Sempre será um trabalho multiprofissional e, portanto, interdisciplinar.

 

Marcos: Atualmente, o que pode ser feito para melhorar a mediação nas unidades de saúde?

 

Cristiane: Se partirmos do que já existe no cenário internacional, o Brasil tem ainda muito por fazer no âmbito da humanização em saúde e da mediação da informação em saúde. Infelizmente, muitas unidades de saúde brasileiras não possuem sequer uma sinalização adequada que permita que o paciente se localize e se locomova dentro delas. Isso seria o básico, e falta isso em muitas unidades. Entendo que falte ainda mais informação em saúde em linguagem compreensível para a população leiga. A cultura de disseminação da informação em linguagem simples e em larga escala é uma coisa que pode ser bastante aperfeiçoada não só aqui no Brasil, como em todos os lugares do mundo. Não é privilégio nosso esse tipo de problema.

 

Marcos: Professora, para finalizar a entrevista, gostaria de acrescentar mais alguma informação?

 

Cristiane: Para encerrar, penso ser importante afirmar que não sou especialista em mediação da informação e em humanização da assistência em saúde. Estamos aqui conversando de maneira informal. Há uma vasta literatura sobre essas duas temáticas que careceria de uma apreciação mais detalhada por aqueles que se interessam por esses assuntos. Contudo, como forma de sistematizar melhor meu pensamento na conversa de hoje, eu diria que dentro do processo de humanização da assistência em saúde, com certeza, há muitos momentos e espaços de mediação da informação, nos moldes compreendidos pelos pesquisadores e estudiosos da ciência da informação.

 

* Graduandos do curso de Biblioteconomia e Ciências da Informação e da Documentação da Universidade de São Paulo.

 

Como citar este texto

TERRA, M.V.S. de C., MAMEDE, J. R., GALVAO, M.C.B. Relacionamentos entre a mediação da informação e o processo de humanização da assistência em saúde: um começo de conversa. 29 de setembro de 2016. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2016. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1005


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.