INFORMAÇÃO E SAÚDE


A REALIDADE AUMENTADA E A HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA EM SAÚDE

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Fabio Carmona

Cristina Camargo Dalri

Iara Pedro

 

Introdução

 

A realidade aumentada é um método pelo qual objetos virtuais são sobrepostos ao mundo real, criando um mundo misto. Cada vez mais a realidade aumentada está na vida das pessoas de todas as idades, culturas e classes sociais, como se pôde observar no recente fenômeno da popularidade do jogo Pokémon GO.

 

No campo da saúde, a realidade aumentada pode ser empregada para fins educacionais e em pesquisas cognitivas. Ampliando esse leque de aplicações, este texto apresentará uma experiência de uso da realidade aumentada em processos de humanização da assistência em saúde e de mediação da informação em saúde.

 

Metodologia

 

A abordagem empregada nessa experiência foi empírico-pragmática e seu processo de construção, até a presente data, durou cerca de um ano e três meses. Inicialmente, um dos autores deste artigo (MCBG) participou de um curso ministrado pela International Federation of Library Associations (IFLA) sobre novas metodologias para disseminar informações em dispositivos móveis, incluindo o uso da realidade aumentada. Em seu retorno ao Brasil, reorganizou a Disciplina de Graduação Tecnologias de Informação em Saúde, sob sua responsabilidade, para abarcar mais conteúdos sobre dispositivos móveis, de modo que os graduandos da Universidade de São Paulo do campo da saúde, da informática em saúde e da ciência da informação que cursam a referida Disciplina tivessem mais contato com essa temática. Durante a disciplina os graduandos desenvolveram vários aplicativos para dispositivos móveis e, para trazer para a sala de aula a realidade aumentada, convidou-se uma empresa especializada em realidade aumentada (Massfar Realidade Aumentada) para apresentar seu histórico empresarial bem como seus produtos e clientes. A empresa em questão trouxe para a sala de aula vários de seus produtos e também doou à docente alguns exemplares de tais produtos que puderam ser apresentados aos demais autores deste artigo.

 

Após serem apresentados à realidade aumentada e seus potenciais, os autores fizeram algumas reuniões de brainstorm sobre potenciais usos da realidade aumentada no processo de humanização da assistência em saúde e na disseminação da informação em saúde. Com as ideias em mãos, marcaram-se algumas reuniões na empresa referida e também na unidade de saúde na qual o projeto de realidade aumentada seria implantado. Dessas reuniões, derivou-se um projeto piloto no qual se optou por integrar a realidade aumentada à proposta arquitetônica da unidade de saúde, considerando, sobretudo, as cores definidas pelos arquitetos. Aqui, faz-se necessário destacar que a unidade de saúde em questão possui seis andares, cada um dos andares possui uma temática. Optou-se por iniciar o projeto da realidade aumentada pelo segundo andar, no qual a temática predominante é voltada para animais. Diante dessa definição, a empresa de realidade aumentada desenvolveu vários jogos, vídeos e animações com animais em realidade aumentada a serem implantados na unidade de saúde.

 

Resolvida a dimensão mais tecnológica do projeto, os autores deste artigo discutiram como seria introduzida a explicação de realidade aumentada para as crianças, adolescentes, seus cuidadores e familiares que frequentam a unidade de saúde. Nesse momento, concluiu-se que seria interessante realizar uma mediação da informação aplicada à transição tecnológica que a unidade de saúde passaria. Decidiu-se que seria convidada uma contadora de histórias tradicionais para que contasse histórias sobre animais e, ao final de cada história, seriam apresentados os animais em realidade aumentada. Marcou-se, então, uma semana de contação de histórias na unidade de saúde para lançar o projeto e a fim de que a contadora pudesse apresentar os códigos de realidade aumentada à comunidade frequentadora da unidade de saúde. Nessa semana, os códigos de realidade aumentada foram disseminados nos ambientes da unidade de saúde. Denominou-se essa semana de “Eu te conto, você me conta”, querendo significar que a contadora apresentaria uma história para as crianças e ao final da história as crianças contariam para ela quais animais estavam vendo por meio da realidade aumentada. Durante a semana de contação de histórias, os autores deste artigo se revezaram em diferentes dias e horários, apoiando a contadora de histórias na demonstração da realidade aumentada para as crianças. Também a unidade de saúde disponibilizou funcionários que auxiliaram na organização do ambiente para que todos se sentissem confortáveis durante a experiência.

 

Resultados

 

Tanto bebês, crianças, adolescentes, pais, mães, tios e avós ficaram muito encantados ao descobrir os elementos que estavam por trás de cada código de realidade aumentada. Ficavam felizes e sorriam com a descoberta. Observou-se que tanto os vídeos como as animações e jogos interessaram à comunidade. No entanto, algumas crianças e pais expressaram o desejo de terem os códigos de realidade aumentada em suas próprias casas para que as crianças pudessem brincar com essa tecnologia fora da unidade de saúde. Outros elencaram que queriam muito mostrar a realidade aumentada para seus familiares que não frequentavam a unidade de saúde. Os pais, sobretudo, e alguns adolescentes solicitaram que a unidade de saúde liberasse o acesso livre à Internet via rede sem fio o quanto antes para que as crianças pudessem realmente usufruir mais da tecnologia e para que não gastassem seus créditos de dados móveis. Em relação à contação de histórias, algumas adaptações foram sendo realizadas durante a semana, em decorrência da condição de saúde dos ouvintes. Por exemplo, reduziu-se o tempo de cada história contada para cerca de 10 minutos a fim de que as crianças e adolescentes pudessem ouvir as histórias do começo ao fim e ainda seguir para suas consultas no tempo previsto.

 

Conclusão

 

Talvez o mais relevante a ser dito é que o processo de introdução de uma tecnologia no contexto da assistência em saúde demanda um trabalho transdisciplinar, envolvendo vários atores, setores e especialistas, ou seja, não se recomenda repetir a experiência sem uma equipe de saúde, de tecnologia e de informação que saiba trabalhar de forma coletiva, harmoniosa e dentro dos limites éticos que a saúde exige. Além disso, embora os celulares e os smartphones sejam muito comuns entre a população brasileira, o acesso à internet ainda é um problema no Brasil para as camadas mais pobres da população. Em relação à realidade aumentada, ela se mostrou um rico elemento para trazer mais alegria e felicidade aos ambientes de unidades de saúde. Finalizada a ambientação do segundo andar dessa unidade de saúde, dar-se-á seguimento à introdução da realidade aumentada nos demais andares.

 

Agradecimentos

 

Agradecemos aos colaboradores desse projeto, entre os quais a Massfar Realidade Aumentada; a bibliotecária Cátia Lindemann que nos auxiliou na contação de histórias; o aluno de enfermagem Cláudio Rondado que nos auxiliou em vários momentos da contação de história; Adnan da Costa Lançoni, oficial administrativo da unidade de saúde, que cuidou de toda a logística para a circulação de pessoas na unidade de saúde, bem como auxiliou na organização dos horários da contação de história; e a Cristiane recreacionista da unidade de saúde que nos ajudou com as crianças durante a contação de histórias.

 

Como citar este texto

 

GALVAO, M.C.B., CARMONA, F., PEDRO, I., DALRI, C.C. A realidade aumentada e a humanização da assistência em saúde. 13 de outubro de 2016. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2016. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1009


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.