INFORMAÇÃO E SAÚDE


A CONTAÇÃO DE HISTÓRIA ENQUANTO MECANISMO DE COMUNICAÇÃO EM SAÚDE

 

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Fabio Carmona

 

Introdução

 

O presente texto tem por objetivo discorrer sobre a contação de história como mecanismo de comunicação no contexto da saúde, focando em pontos a serem considerados pelo contador de história e/ou pelos profissionais de informação e da saúde que estejam organizando eventos de contação de história em unidades de saúde. Para tanto, a construção deste texto seguirá o formato de perguntas e respostas.

 

O que é uma contação de história?

 

Em linhas gerais, a contação de história consiste na apresentação de uma narrativa por meio da linguagem verbal, oral ou escrita, visual, musical, gestual, multimodal, etc. Já a narrativa pode ser definida como uma representação de eventos, com personagens conectados entre si, em uma estrutura identificável, limitada no espaço e no tempo, contendo mensagens implícitas ou explícitas sobre o tema a ser abordado. As mensagens narrativas no contexto da saúde apresentam histórias que seguem um formato padrão com um desenvolvimento inicial da história, seguindo até um clímax, e chegando a uma resolução final (FRANK, 2015).

 

Por que contar histórias?

 

Aaker (2014) destaca quatro principais motivos para se contar histórias. Primeiro, histórias são 22 vezes mais lembradas do que imagens ou fatos isolados. Segundo, histórias podem influenciar a forma pela qual as pessoas pensarão sobre um determinado assunto ou objeto. Terceiro, histórias são ferramentas de poder, viabilizando uma comunicação mais eficaz com o público-alvo. E, finalmente, as histórias são capazes de entreter, envolver, persuadir e levar à ação.

 

A contação de história é uma inovação no contexto da saúde?

 

Não, exatamente. A contação de história é um mecanismo de comunicação em saúde em várias frentes. Por exemplo, quando vamos a uma consulta com profissional de saúde, contamos nossa história de vida e a história de vida da nossa família. Incluímos nessa história nossos problemas de saúde, os lugares onde moramos ou trabalhamos, as condições de saúde de nossos pais e também de nossos filhos. Geralmente, toda essa história contada pelo paciente em uma primeira consulta é registrada em seu prontuário, motivo pelo qual as primeiras consultas são sempre mais demoradas. É importante notar que muitos prontuários empregam a sigla H.M.A., significando “história da moléstia atual”, ou H.D.A., significando “história da doença atual”. Os profissionais de saúde também usam a contação de história em relatos de casos clínicos, quando participam de eventos profissionais, científicos ou reuniões clínicas. Docentes do campo da saúde empregam histórias de pacientes e histórias sobre condições de saúde para compartilhar didaticamente suas experiências e vivências com seus estudantes. Pode-se afirmar que, na literatura do campo da saúde, há um vasto arsenal de estudos que empregam a contação de história como ferramenta didática, clínica e de comunicação em saúde como, por exemplo, as publicações científicas do tipo relato de caso (ou case report, em inglês), em que se contam as histórias de pacientes com doenças raras ou de grande interesse. Frank (2015), por exemplo, relata que elaborou uma narrativa contando a história fictícia de uma jovem a fim de disseminar informações sobre o papiloma vírus humano (HPV) e a prevenção do câncer cervical.

 

No contexto da saúde, o improviso na contação de história é viável?

 

De forma geral, a contação de história cujo público-alvo são pacientes deve evitar improvisos. Para que a contação de história seja efetiva, deve contemplar uma meta, ou seja, deve-se ter clareza sobre o motivo pelo qual a história será contada, que transformação ocorrerá no público-alvo entre o início e o fim da história, sobre o que o público pensará, e o que sentirá ou fará ao final da história. Esta meta pode ser a transmissão de um conhecimento, relacionado ou não à saúde; o conforto emocional, por meio da identificação entre a história contada e a história pessoal; a transmissão de valores culturais, políticos, morais ou religiosos; a reflexão sobre situações difíceis como, por exemplo, abuso, discriminação, bullying, etc.; ou ainda distração ou diversão.

 

Além da meta, é preciso refletir sobre como as pessoas serão “agarradas” pela história e isso pode incluir efeitos visuais ou uma abordagem incomum ou inesperada. Para que a história seja envolvente e convincente, ela precisará de um protagonista ou personagem principal com um desafio claro e que percorrerá um caminho para superá-lo. Finalmente, uma boa história precisa ser compartilhável, ou seja, as pessoas irão espalhar uma história de forma ampla, se ela for fácil de lembrar e recontar (AAKER,2014). Frank (2015), por sua vez, ressalta que as narrativas no contexto da saúde precisam ser relevantes para a vida do público. Assim, as mensagens devem considerar as crenças e comportamentos específicos do público-alvo, bem como os pontos que serão direcionados para a mudança ou ação. Ressalta que é preciso refletir sobre os modelos comportamentais positivos, transitórios ou negativos que serão assumidos por cada personagem, pois a história ficará retida na mente do público-alvo por longo tempo.

 

Que público esperar para uma contação de história em uma unidade de saúde?

 

As unidades de saúde podem ser classificadas em unidades de atenção primária, onde o público é assistido com objetivo de promoção da saúde e prevenção de doenças; unidades de atenção secundária, onde o público é assistido com o objetivo de ter acesso a uma especialidade ou realizar um exame mais especializado; e unidades de atenção terciária, que atendem um público cuja condição de saúde demanda tecnologias mais complexas e sofisticadas, por longo tempo. Há ainda unidades de saúde que possuem funções híbridas. Assim, em linhas gerais, na atenção primária, encontramos a criança que é vacinada ou que está sendo assistida para prevenção de cáries ou que está sendo acompanhada pelo pediatra para observação de seu crescimento e desenvolvimento. Já na atenção terciária, encontramos a criança que está com um câncer, que necessita de transplante de rins ou que possui alguma condição genética diferenciada. No caso da atenção terciária, por exemplo, o contador de história poderá se deparar com pacientes que não falam, ou que não ouvem, ou que não se movimentam, ou que não se expressam como aquelas encontradas nas unidades de atenção primária ou secundária. Logo, reforça-se a ideia de que a contação de história no contexto da saúde precisa ser planejada.

 

Em unidades de saúde, quanto tempo deve durar a contação de história?

 

Isto depende muito do tipo de assistência prestada na unidade de saúde. No contexto da assistência ambulatorial, os pacientes serão chamados de minutos em minutos para a consulta. Logo, imagina-se que cada história deva durar de 5 a 10 minutos. Já no contexto da internação, o paciente costuma estar mais ocioso em alguns horários. Nesses períodos a contação de história talvez possa ser um pouco mais demorada, ou seja, em torno de 15 minutos por história. É importante ressaltar que, a depender da condição de saúde do paciente, seu tempo de atenção é mais reduzido ou prolongado. Pacientes ansiosos ou que experimentam desconforto físico podem esperar histórias mais curtas ou com narrativa mais dinâmica, enquanto pacientes sonolentos, em uso de medicamentos psicotrópicos, ou com menor capacidade cognitiva podem necessitar de mais tempo para compreensão, beneficiando-se de narrativas mais lentas e cadenciadas. Em alguns casos, as histórias podem ser contadas em pequenos fragmentos ou “capítulos”, que são encerrados quando se nota cansaço ou desinteresse do paciente, retomando-se a narrativa posteriormente. Certamente, a equipe multiprofissional de saúde da unidade deve ser consultada a fim de que seja estabelecido o tempo ideal da contação de história para cada perfil de pacientes. O contador de história que não tenha formação no campo da saúde deve evitar a decisão solitária sobre o tempo da contação de história e a técnica de narrativa empregada para evitar prejuízos aos pacientes.

 

Como selecionar as histórias que serão contadas em uma unidade de saúde?

 

Se o público-alvo for formado por pacientes e o contador não tiver formação no campo da saúde, a equipe multiprofissional de saúde e o contador de história devem ser reunir algumas vezes antes da contação de história para o público. Nessas reuniões poderão ser definidas as temáticas que serão tratadas, o contador poderá apresentar as histórias para a equipe multiprofissional de saúde verificar se os conteúdos e as palavras empregados pelo contador estão adequados, bem como poderá se discutir coletivamente sobre a qualidade das histórias. Fazendo-se esses exercícios com antecedência, desfechos indesejáveis, como a contação de uma história que traga danos psicológicos ou desconforto aos pacientes, podem ser evitados. Por exemplo, uma história que tenha um vilão doente ou hospitalizado poderá gerar a interpretação de que “pessoas que não são boas ficam ou merecem estar doentes”.

 

Qual deve ser o ritual de cada contação de história em uma unidade de saúde?

 

Partindo-se do pressuposto de que as unidades de saúde recebem um público diverso, é essencial que o ritual da contação de história seja bem delimitado e de fácil compreensão. Logo, o contador de história deve avisar o público que a contação de história começará, quantas histórias serão contadas e qual é a duração aproximada de cada história. Ao final da execução, é importante que o contador avise ao público que a contação chegou ao fim. Tais ações evitarão a dispersão do público e facilitarão o planejamento de todos: pacientes, contador de história e equipe multiprofissional de saúde.

 

Em unidades de saúde, que tipo de interação o contador deve estabelecer com o público?

 

 

Quando imaginamos uma contação de história tradicional, temos a visão do contador de história com uma ou duas crianças no colo, crianças levantando a mão, livros que passam de mão em mão para que os personagens sejam melhor vistos. Quando a contação de história tem por público-alvo pacientes, o contador deve estar esclarecido que o contato físico direto pode ser danoso para pacientes. Dessa forma, é importante que o contador evite tocar nos pacientes e, se o fizer, é importante que tenha lavado suas mãos antes com água e sabão. Não se pode tocar um paciente e depois outro paciente sem que as mãos sejam novamente higienizadas. Em outras palavras, é importante que o contador mantenha suas mãos sempre lavadas com água e sabão e que mantenha seu material de contação higienizado várias vezes ao dia. Caso não exista a possibilidade de lavar suas mãos com frequência usando água e sabão, é importante que mantenha um frasco de álcool gel perto de si, para que higienize suas mãos com periodicidade. Além da dimensão física, é importante que o contador saiba interagir com pessoas que tenham dificuldades emocionais e de relacionamento. Ou seja, seria um ato violento um contador de história querer abraçar uma criança que tenha aversão a contato com estranhos ou que tenha sofrido algum tipo de abuso ou agressão.

 

Que tipo de apoio o contador deve ter durante a contação em uma unidade de saúde?

 

Para o bem de todos, caso o contador de história não tenha formação profissional em área da saúde, é importante que ele esteja sempre acompanhado de um profissional de saúde qualificado pois, caso algum paciente tenha intercorrência durante o evento, terá como ser assistido rapidamente. Além disso, a depender dos pacientes envolvidos, a contação de história poderá requerer algum tipo de ajuste. Dessa forma, o profissional de saúde poderá alertar o contador sobre algumas particularidades do público.

 

Há riscos para pacientes em um evento de contação de história?

 

Sim, há. Os principais riscos envolvendo a contação de história para pacientes incluem: risco de transmissão de infecções ou contaminação por micro-organismos multirresistentes a drogas; risco de desconforto psicológico ou emocional causado pelo conteúdo da história, ou por identificação com uma personagem que vivencia situação adversa ou vexatória; risco de constrangimento por não conseguir entender ou acompanhar a narrativa quando o paciente é portador de deficiência auditiva ou visual, ou possui atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, que comprometam o entendimento da narrativa; risco de frustração, caso seja chamado para consulta ou procedimento e não consiga terminar de ouvir a história; entre outros.

 

Para minimizar tais riscos, caso o contador de história não possua formação em saúde ou seja um profissional de saúde externo à unidade de saúde, é fundamental que se analise detalhadamente seu currículo, buscando experiência prévia de atuação em unidades de saúde, e que seja realizada uma entrevista com o contador de história, preferencialmente por um profissional de recursos humanos ou psicólogo para verificar se o contador possui condições psicológicas de enfrentamento de situações adversas à sua atuação mais convencional. Também deve-se demandar cartas de recomendação ou observação direta da atuação profissional em outros eventos de contação de história. É fundamental orientar o contador sobre como interagir com pacientes e que cuidados ter em relação à sua higiene.

 

Pode-se divulgar a contação de história que será ou que foi realizada em uma unidade de saúde em redes sociais?

 

De forma geral, caso o contador de história não tenha formação em saúde, deve ser alertado para que não divulgue fotos ou depoimentos de pacientes em redes sociais a fim de proteger a privacidade dos pacientes e de promover a beneficência sem causar maleficência. Este alerta, assim como o objetivo da contação de história, a lista das histórias que serão contadas, o ritual que será adotado na contação, o tempo de duração, o local da contação de história, quem atuará como equipe de apoio e o público-alvo devem ser registrados de forma explícita em um contrato a ser acordado entre o contador de história e o responsável pela unidade de saúde na qual ocorrerá a contação, para que haja bastante clareza das atividades que serão desenvolvidas e das responsabilidades que serão assumidas por cada uma das partes.

 

Conclusão

 

A contação de história no contexto da saúde não é uma atividade a ser exercida por curiosos, amadores ou voluntários inexperientes, requerendo profissionais qualificados e plena atenção da equipe multiprofissional de saúde para o seu êxito.

 

Referências

 

FRANK, B. L. et. al. Telling stories, saving lives: creating narrative health messages. Health Communication, v.30, p.154–163, 2015.

 

AAKER, J. Harnessing the power of stories. Stanford: Stanford University, 2014. Disponível em: https://womensleadership.stanford.edu/stories

 

Como citar este texto

 

GALVAO, M.C.B.; CARMONA, F. A contação de história enquanto mecanismo de comunicação em saúde. 27 de outubro de 2016. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2016. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1010


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.