ALÉM DAS BIBLIOTECAS


LER FAZ BEM

Aconchego-me no sofá...

repouso e saboreio as páginas de um livro.

O ciclo do verão completou-se.

O vento faz-se ouvir lá fora.

... o aroma de um chá...

... faz apetecer um doce caseiro. 

A nossa casa faz-nos sentir bem.

Gosto de ambientes com alma.

Autor desconhecido

 

Vivenciamos um momento histórico em que leitura e escrita revestem-se do invólucro tecnológico. Lemos tudo ou passamos a vista em quase tudo na Grande Rede, sem aprofundamento ou análise do contexto. Quando muito, diante do prenúncio de notícias internacionais, nacionais, regionais ou locais, corremos em busca de mais informações no Google, na Wikipédia, nas redes sociais com suas variantes e assim por diante. A escrita, por sua vez, reveste-se de informalidade guiada, cada vez mais, pelo internês. Este, além da decantada economia de tempo (para quê?), às vezes, impregna-se de certa graciosidade. E o que dizer da licença poética que permite tudo em nome da beleza da leitura e da escrita?

 

No entanto, a bem da verdade, por mais que discutamos a morte do livro e das bibliotecas físicas, ambos resistem bravamente ao tempo num clima de magia e de encantamento. Parecem lembrar que a função social das bibliotecas se eterniza na necessidade imperiosa de preservar a memória coletiva, mas, sobretudo, de disseminar a produção da humanidade. São informações e conhecimentos intercambiados de forma segura, sem contar a infinidade de ações que cabem em qualquer biblioteca como instituição eminentemente social e / ou que competem a qualquer profissional bibliotecário ou cidadão inventivo, fiel à premissa de que “pensar fora da caixa” é, de fato, metáfora significativa para a criatividade humana.

 

Por mais que falemos em artefatos tecnológicos, experiências vivenciadas no dia a dia atestam que a biblioteca virtual não integra a realidade de muitos cidadãos em diferentes recantos do mundo. A aura que cerca o livro impresso permanece, seja no verão de sol pleno, seja no outono de extrema melancolia, seja no inverno causticante, seja na primavera em flor. A animação cultural é possível de ser integrada a qualquer biblioteca, seja ela pública, comunitária, escolar, universitária, especializada; seja ela metropolitana ou rural. Assim, ao tempo em que prestamos louvor às tecnologias, descobrimos quão encantadoras e ricas podem ser diferentes experiências no entorno das bibliotecas.

 

No mundo inteiro, não importa o nível de desenvolvimento das nações, há uma explosão de iniciativas que lutam para trazer de volta a delícia de folhear página por página de um romance sonhado, de crônicas sobre temas do dia a dia, contos, poesias, etc. Há pontos de leitura que renascem em estações de metrôs; paradas de ônibus; geladeiras sem uso transmutadas em estanterias; pequenas bibliotecas “jogadas” em praças e parques sob o formato de castelos, cabines telefônicas, capelinhas... Há o cantinho da leitura em albergues e hotéis, luxuosos ou não. Publicidade em caixas eletrônicos enaltecendo a leitura soa como algo incrível, mas é verdade constatada na Ilha Terceira do belo Arquipélago de Açores: “o livro faz bem.” Aeroportos, sob a administração de cidadãos sensíveis, instalam estantes de livros viageiros nas salas de espera dos voos... Em todos os casos, a regra é uma só: pegue o livro desejado, devolva quando puder, doe obras de sua autoria ou de sua coleção. É o leva e traz pautado por liberdade total – se você puder e se você quiser – como chance de (re) descoberta de novos universos, novos autores, novos idiomas, e, quem sabe, de novos leitores e novos escritores...

 

Crianças, como Jefferson Gabriel da Silva Melo, 12 anos, residente em região metropolitana de Cuiabá, Várzea Grande – Mato Grosso, cria em sua casinha uma biblioteca para todos, transformando a realidade da escola. Num passe de mágica, em menos de um ano, arrecada mais de 1,6 mil livros. Na mesma linha de ação, Luiz Fernando, apenas nove anos, em Divinópolis, Goiás, instala uma biblioteca na entrada de sua casa, atraindo os colegas de travessuras e de estudo. Ambos trabalham para a concretização de bibliotecas comunitárias de olho na realidade social. Luís Soriano ou “El Profesor” instala, desde os anos 90, o Biblioburro: distribui e coleta livros nas costas de dois burricos, Alfa e Beto, em regiões distantes da província La Gloria, Colômbia. De início, 70 livros. Agora, acervo variado e amplo, além do reconhecimento das comunidades rurais a quem o professor graduado em espanhol distribui mais do que informações. Os burrinhos deixam em seu rastro uma imensidão de esperança.

 

Enfim, são tentativas que visam reviver a mágica da leitura e da escrita que pode haver (e há) no contato com o papel que se perde e se acha em mãos jovens ou calejadas, proporcionando aconchego e repouso, num ambiente com alma, onde o vento faz-se ouvir lá fora...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca. Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, Amante da literatura, tem publicado crônicas reunidas em livros “Palavra de honra: palavra de graça”, 2008; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”, 2015. Destaque para o Jornalismo cidadão..., lançado pela Unesco. Colunista semanal do diário O Dia, Teresina – PI.