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VIVA RDA – AACR2 VIROU ZUMBI

No Brasil, iniciativas sobre a implantação da RDA seguem lentas e isoladas. Enquanto, no exterior, a adoção segue crescente e sob ampla discussão. Aqui estamos como na série de TV The Walking Dead, catalogando sob uma norma descritiva considerada zumbi. Até por ser uma norma descontinuada e cujo próprio paradigma de concepção foi substituído por novos princípios de vida catalográfica.

A RDA (Resource Description and Access) tem se imposto como instrumento projetado para o novo contexto da catalogação e de seus princípios, e que substituiu as Regras Anglo-Americanas de Catalogação oficialmente desde 2010. Apesar de manter os pontos fortes da AACR2, contempla novos elementos que a torna útil e ajustada à descrição de conteúdo digital. É, portanto, um produto orientado para o contexto do ambiente digital da Web e do conceito da Web Semântica

Permite aos catalogadores moverem-se entre instruções relacionadas ao uso de hiperlinks e dos dados ligados (linked data) e integrar ou promover, nas agências bibliográficas, as suas próprias políticas institucionais. Até, por que a RDA foi desenvolvida com base nos novos princípios da catalogação e nas tarefas dos usuários.

Fornece uma estrutura consistente, flexível e extensível para a descrição de todos os tipos de recursos, incluindo recursos digitais e aqueles com múltiplas características. Para tanto, é compatível com princípios, modelos de relacionamentos, padrões de metadados e protocolos de interoperabilidade estabelecidos internacionalmente.

Neste sentido, a RDA é compatível com uma variedade de esquemas de metadados descritivos, tais como: MODS (metadata object description standard, Dublin Core, ONIX e MARC Format

Aspectos que permitem integrar os registros bibliográficos, produzidos pelas bibliotecas e disponibilizados em seus catálogos, com aqueles produzidos por outras comunidades de metadados e que, também, fornecem serviços de consulta e acesso, no ambiente digital.

Deve-se observar que a RDA é um padrão de conteúdo e de mídias, não um padrão de apresentação dos dados bibliográficos. A norma é um conjunto de instruções e orientações sobre procedimentos que indicam como descrever um recurso, especialmente sobre os elementos de informação bibliográfica (ou atributos) que um usuário irá necessitar saber. 

Isto também instrui a descrição de relacionamentos entre recursos e pessoas ou entidades coletivas que contribuíram para a criação deste recurso descrito.

As instruções e orientações preconizadas na RDA devem permitir, com o suporte dos sistemas, agrupar os registros bibliográficos por diferentes edições, traduções ou formatos de uma obra, de modo a obter uma exibição mais significativa dos dados bibliográficos para os usuários.

O desenvolvimento da RDA decorreu de dois organismos internacionais: o Joint Steering Committee for RDA (JSC) e o Committee of Principals (CoP), uma espécie de comitê diretor das entidades associadas para a discussão sobre a concepção da norma. 

O JSC é o responsável pelo desenvolvimento da norma e pela consulta aos grupos de trabalho. Ademais, trata-se de uma associação formada pelo Canadian Committee on Cataloguing (CCC), American Library Association (ALA), Chartered Institute of Library e Information Professionals (CILIP), Australian Committee on Cataloguing (ACOC), British Library e a Library of Congress

Operacionalmente, o JSC relata suas ações à CoP, que é responsável pelas questões relativas à política, orçamento e gestão da RDA. A CoP é composta por representantes da ALA, Canadian Library Association (CLA), ALA, CILIP, Library of Congress, Library and Archives Canada, British Library e National Library of Australia (NLA).

Sobre a publicação da RDA, os responsáveis ou seus editores, que fornecem suporte financeiro e de produção para a RDA, são: ALA, CLA e o CILIP. Da mesma forma, o RDA Toolkit foi produzido sob contrato com a ALA. Informações sobre este ambiente de acesso e consulta à norma são encontrados no próprio site. 

E quanto custa o RDA Toolkit? A norma opera sob modelo de negócio baseado em assinatura. Desde primeiro de janeiro de 2017, o preço da assinatura está fixado em dólares dos EUA, os clientes podem efetuar pagamento na moeda de sua escolha. 

O custo encontra-se baseado na taxa de câmbio do dia da compra da assinatura. A tabela de preços abaixo reflete o valor do custo pelo número de usuários ou assinantes:

Número de usuários -  Custo por Usuário (em dólares)

1 -  $ 191

2 - 4 - $ 181

5 - 9  - $ 177

10 - 14  - $ 172

15 - 19  - $ 168

20 + de  - $ 163

Exemplos dos valores totais das assinaturas, em dólares, a serem efetivamente pagas:

1 usuário = $ 191

2 usuários = $ 181 por usuário x 2 = $ 362

5 usuários = $ 177 por usuário x 5 = $ 885

20 usuários = $ 163 por usuário x 20 = $ 3,260

Com relação à tradução da RDA, muitos países interessados na adoção e implantação da norma consideram o procedimento essencial para um contato, assimilação e disseminação do documento descritivo. 

Neste sentido, um dos objetivos da RDA é o de ser um padrão usado por outras comunidades linguísticas. Os editores da RDA têm realizado acordos de tradução com entidades nativa do idioma de interesse como: editora, biblioteca nacional ou associações bibliotecárias. 

Atualmente, existem traduções em: chinês, finlandês, francês, alemão, italiano, espanhol. Como o código está sempre em contínua atualização, estas traduções estão em permanente andamento. Sobre tradução no idioma português, parece haver iniciativas isoladas e pouco divulgadas. Entretanto, os editores da RDA possuem uma política de tradução específica. Já estamos a uma década da institucionalização do código e, praticamente, imobilizados quanto à tradução para o português.

Sobre a implementação da RDA, é necessário que cada biblioteca decida o momento que deseja fazê-lo. A implementação da RDA basicamente inclui um programa consistente de treinamento do pessoal da biblioteca e uma revisão dos fluxos de trabalho no setor de catalogação, bem como das decisões referentes às políticas catalográficas existentes. 

No processo, recomenda-se determinar quem será responsável por coordenar a implementação, na biblioteca. Pois, como citado, a revisão das políticas e dos procedimentos existentes devem ser revistos e reconfigurados. O planejamento sobre como comunicar as mudanças à equipe e ao público usuário, deve ser pensado. 

Também a criação de um plano para atualizar a documentação existente e a produção de nova documentação decorrente do uso da RDA, deve ser observado. E, talvez, o mais importante item além de simplesmente informar o pessoal da biblioteca sobre a RDA, seja o de discutir como as mudanças podem afetar o trabalho catalográfico até então realizado.

Quanto a conversão dos registros bibliográficos existentes, em geral, não é uma necessidade premente, pois os registros criados sob parâmetro da RDA se integram aos registros em AACR2 existentes nas bases de dados catalográficas. 

As atualizações globais das representações descritivas existentes nos catálogos podem ser exigidas em alguns casos ou tipos de recursos. Por exemplo, haverá mudanças na estrutura dos títulos da Bíblia e na não adoção de palavras abreviadas como “página”; e na eliminação do uso de expressão latina como: et. al., sine loco, sine nomine e etc. 

Alterações no formato MARC21 têm sido realizadas para acomodar novos elementos de dados preconizados pela RDA. Nesta situação, as bibliotecas aderentes precisarão consultar os seus fornecedores de sistemas integrados (ILS – Integrated Library Systems) sobre os planos para acomodar, nos módulos de catalogação e do OPAC, as alterações preconizadas pela norma. 

Neste aspecto, ainda, os sistemas automatizados das bibliotecas terão de apoiar a criação e o intercâmbio de dados RDA. Os fornecedores de ILS, no contexto brasileiro, devem estar cientes destas mudanças, que exigem inclusões e alterações procedimentais nas etiquetas MARC21. 

Isso permitirá a importação e/ou exportação de registros bibliográficos e de autoridade. As alterações também são necessárias para os índices gerados pelos sistemas para permitir a pesquisa e exibição de novos elementos de dados bibliográficos. 

O software ILS determina como a informação no registro será pesquisada, recuperada e apresentada no OPAC, onde isto será visto pelo usuário do catálogo, incluindo usuários e bibliotecários de outros setores do serviço de informação, como os bibliotecários de referência.

Uma dúvida que surge, na discussão sobre a implantação da RDA, refere-se à necessidade de alterações nas interfaces de apresentação dos OPACs. Espera-se que, eventualmente, os Catálogos de Acesso Público Online evoluam para aproveitar ao máximo os registros bibliográficos criados segundo a RDA, com sua estrutura de relacionamento para obra, expressão, manifestação e item. 

As implementações dessas mudanças, certamente, irão melhorar a forma de consulta dos catálogos, promovendo maior facilidade e eficácia com que os usuários serão capazes de encontrar, identificar e obter os recursos de que necessitam. 

Por exemplo, os recursos existentes sob uma variedade de formatos, como impressos, online, microfilmado, sonoros (gravados) podem ser agrupados para fins de exibição de maneira a mostrar o seu pertencimento à determinada obra ou expressão, permitindo aos usuários visualizarem e navegarem entre as obras relacionadas de modo mais fácil e intuitivo. 

No entanto, deve-se observar que o desenvolvimento do sistema que implementem visualmente a modelagem do FRBR (Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos) não é ainda uma realidade efetivada, mas um processo de desenvolvimento. Até por haver, ainda, mudanças ocorrendo na própria norma, na concepção do FRBR e nos protocolos de codificação como o MARC, e na proposta de sua substituição pelo formato BIBFRAME (Bibliographic Framework Initiative). A área de catalogação encontra-se em transformações contínuas.

Aos catalogadores brasileiros é recomendável permanente atenção e acompanhamento destes acontecimentos decorrentes das mudanças nos padrões e protocolos catalográficos. Além de se familiarizarem com os conceitos da RDA, consultando o site do JSC que contém várias apresentações sobre a norma.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.