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CATÁLOGO IMPRESSO COMO REPOSITÓRIO DE CONTEÚDO EM MICROFORMA

Este texto é um relato sobre a proposta de Fremont Rider (1885-1962), que por suas contribuições à Biblioteconomia foi indicado um dos 100 líderes mais influentes da área e da profissão bibliotecária do século XX pela American Library Association.

Em seu trabalho mais significativo: “The Scholar and the future of the research library: a problem and its solution” (New York City: Hadham Press, 1944), ele expôs o problema da crescente escassez de espaço físico na biblioteca universitária e a descrição do recurso da microforma – (microficha), adaptada por ele para ser anexada à fichas catalográficas de 7 ½ por 12 cm. O catálogo conteria fichas com um verso tendo o registro descritivo do material, e no seu verso, afixada, a microforma reproduzindo até 250 páginas da obra. A ideia era inspirada no desenvolvimento, na época, da produção de microtextos, especialmente pela empresa Readex Microprint Corporation.

Rider imaginava que estas microfichas serviriam tanto para o catálogo, como para a coleção, não só economizando em mobiliários (estantes e prateleiras) ao eliminar excesso de livros impressos, mas também reduzindo a necessidade de ter um catálogo da coleção separado da coleção de manuscritos.

Os usuários pesquisariam no catálogo pelas entradas de pontos de acesso que desejavam. Depois de selecionar o registro, retiraria a ficha da entrada principal contendo a microforma anexa e a leria em uma máquina leitora de microfilme.

Quando o livro de Fremont Rider foi publicado, esse problema nas bibliotecas, em especial das universitárias, era uma preocupação significativa. Embora Rider tenha se equivocado ao afirmar que as bibliotecas acadêmicas dobrariam de tamanho a cada 16 anos, a sua previsão sobre o material microfilmado ser empregado para solucionar o problema do espaço e do crescimento físico da coleção foi presciente. Muito embora, na época, não poderia saber que a microforma seria, por sua vez, substituída pela tecnologia digital. A essência da sua ideia na qual o catálogo e a coleção da biblioteca poderiam ser únicos, o mesmo estava prevendo sem saber, que décadas à frente, das possibilidades abertas pelas coleções digitais armazenadas em repositórios e bases digitais.

Para um comentário resumido e literal da proposta, utiliza-se do texto dos bibliotecários Herman H. Henkle (1900-1987, Diretor do Departamento de Processamento da Library of Congress) e Seymor Lubetzky (1898-2003, assistente técnico de Herman), publicado na The Classical Association of the Middle West and South – CAMWS, e no qual, por meio de análise crítica, destacaram a repercussão da obra de Rider, recebida como uma bomba atômica pela comunidade bibliotecária norte americana. Um acontecimento marcante e que captou a imaginação dos leitores, deslumbrados com a perspectiva de uma nova era de potencialidades não sonhadas, e na qual as pequenas e médias bibliotecas poderiam adquirir recursos bibliográficos tão completos quanto as maiores bibliotecas, sem as dificuldades de processamento e armazenamento; e com um catálogo que, literalmente, colocaria esses recursos na ponta dos dedos do público. Entendia-se que a biblioteca, ao comprar um registro bibliográfico, também adquiriria o próprio "livro" microfilmado, e ao arquivar o registro no catálogo, já teria anexado à ficha a obra em microforma. Quando o usuário identificasse um título ou autor, no catálogo, ele teria imediato acesso ao conteúdo do material a consultar.

Para Henkle e Lubetzky a ideia era interessante e excitante, e de importância para o futuro da biblioteca. Uma solução para o complexo de problemas que confrontava os bibliotecários e que incluíam: a) os extensos recursos de pesquisa requeridos e os altos custos de sua aquisição; b) os custos da catalogação com tendência de aumento não controlada, e tornado um gargalo para as grandes bibliotecas; c) o custo de preservação e manutenção dos materiais, até das publicações gratuitas; e, d) a questão de armazenamento das coleções que mostravam contínuo crescimento físico.

No entanto, os autores comentam que a revolução contida na proposta de Rider não terminava com a aplicação da microficha. Ao propor a mudança na forma dos livros, ele procede a mudar também a forma do catálogo bibliográfico visando expandir as suas potencialidades e aumentar sua utilidade para os pesquisadores e público em geral.

As mudanças afetariam a composição das entradas individuais nas fichas, bem como a constituição de todo o catálogo. As fichas catalográficas, produzida pela Biblioteca do Congresso conteriam, nas entradas secundárias, uma breve representação descritiva, mas incluiriam um resumo com a finalidade de fornecer ao usuário alguma indicação sobre a competência do autor, e da temática do texto. Basicamente, o catálogo deveria reunir em um único lugar, tudo o que houvesse sobre determinado autor, título e assunto. A proposta de Rider prometia um verdadeiro paraíso de pesquisa. Como o puxar de uma gaveta do catálogo e as microfichas apresentando ao usuário conteúdo completo e atualizado sobre os assuntos relacionados, com os autores e esse conteúdo convenientemente sistematizado.

Apesar de atraente, a implementação da proposta mostrou-se tortuosa e com dificuldades de superação. Entretanto, o acréscimo de resumos poderia aumentar as potencialidades do catálogo. Duvidava-se, no entanto, das justificativas para as microfichas usadas para representar aqueles títulos de uso limitado. Os retornos prospectivos pareciam desproporcionalmente pequenos para o enorme investimento necessário. Havia a incerteza sobre o mérito de tornar os resumos parte das entradas do catálogo. Neste sentido, os resumos seriam elaborados para se ajustarem ao tamanho das fichas.

Porém, os resumos também seriam um desperdício de espaço precioso que Fremont Rider se esforçava em conservar, sendo repetido para cada edição da obra e em cada entrada secundária para autores e demais colaboradores. E, finalmente, os resumos normalmente eram lidos e usados como síntese do conteúdo das obras por aqueles que desejavam pesquisar, ou manter-se atualizado com a literatura das suas áreas. Assim, a gaveta de fichas não era um meio apropriado para tal finalidade.

Entretanto, Fremont Rider estava correto ao afirmar que os materiais de pesquisa eram frequentemente encontrados sob a forma de artigos, ensaios, relatórios, preprints etc., e não fazendo parte de um livro, ou não se constituindo em obras individuais; os catálogos negligenciavam o registro, falhando em atender os interesses do usuário.

Henkle e Lubetzky observaram que os anuários publicados no período como: o Agricultural Index, Art Index, e Engineering Index, acumulavam cerca de 25.000 entradas; o Bulletin of the Public Affairs Information Service e o Education Index com cerca de 30.000 entradas cada; o Industrial Arts Index com cerca de 75.000 entradas; e o Quarterly Cumulative Index Medicus com cerca de 100.000 entradas. Os anuários cobriam então apenas parte dos títulos de periódicos que as bibliotecas possuíam. Nesta perspectiva, pela proposta de Fremont Rider, o bibliotecário Keyes Metcalf (1889-1983, diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard), ressaltou que o catálogo da sua Universidade, no ano de 2040, poderia ter cerca de trinta milhões de gavetas com fichas, ocupando trezentos e vinte hectares de espaço físico. Se todas as gavetas estiverem em um único imóvel, ocuparia uma área quinze vezes maior que a Universidade de Harvard. A equipe de catalogação contaria com mais de seis mil pessoas, na mesma proporção da equipe de arquivamento das fichas.

Em resposta à Metcalf, Fremont Rider afirmou que sua análise abarcaria obras básicas ou essenciais, uma minoria no universo impresso. E que a exigência de uma análise qualificada dos recursos reconhecia a aplicabilidade do catálogo de microformas na condição de um catálogo de fichas. Assim, o catálogo de microformas funcionando como o catálogo bibliográfico essencialmente conteria o registro dos materiais. Para artigos, ensaios etc., o pesquisador teria que confiar nas bibliografias e índices, e na sua própria capacidade de compilar uma lista de referências.

A principal característica da proposta de Rider era o "casamento" das entradas do catálogo com o microfilme do livro. Entretanto, a análise das características do catálogo e dos livros gerou dúvidas sobre a sua compatibilidade. Para começar, a função do catálogo é a de descrever e identificar os materiais sob posse da biblioteca. Esta informação é necessária para o usuário, a fim de determinar se a biblioteca possui ou não a obra de interesse, bem como servir de informação para o serviço de aquisição e referência. No sistema de catálogo em microformas, sempre que um livro fosse retirado seu registro seria retirado com ele. Talvez não fosse situação grave, uma vez que o recibo de empréstimo poderia direcionar o usuário para outros pontos de acesso da obra. Portanto, as gavetas do fichário conteriam outras entradas. No entanto, havia um elemento de incompatibilidade considerado até irritante. Os materiais necessitariam de uma custódia rígida para preservá-los com segurança e em condições adequadas de uso. Um catálogo normal dificilmente dá essa proteção. No de microformas, os próprios materiais estariam expostos ao manuseio e aos elementos da natureza humana, tornando-se inutilizáveis em momento de necessidade.

Segundo Henkle e Lubetzky, era pouco auspicioso a incompatibilidade física das fichas e as respectivas microformas. Os registros e suas entradas admitem uma uniformidade, reduzida aos parâmetros do tamanho das fichas. Os próprios materiais não admitiam um tamanho físico uniforme. Os materiais publicados pela La Follette Civil Liberties Committee, por exemplo, variavam de 3 páginas a mais de 75 volumes. Para fazer uma microficha dos volumes de três páginas, seria necessário apenas usar efetivamente um espaço de microficha no catálogo; para o caso dos 75 volumes, seria entupir o catálogo com numerosas fichas, intervindo nas gerações de entradas e diminuindo ainda mais a sua precária eficácia.

Além disso, uma ficha com entrada e sem o microfilme no seu verso permite o registro de várias unidades bibliográficas relacionadas. No catálogo de microfichas a entrada seria dividida em várias entradas, separadas pelos textos intervenientes, e a relação destas entradas seria obscurecida.

Em outras palavras, um catálogo e uma coleção de textos, os itens bibliográficos relacionados podem ser efetivamente combinados nas mesmas entradas, mesmo se os seus conteúdos não possam. E o contrário, vários microtextos poderiam ser combinados em uma entrada, mesmo que suas fichas descritivas não pudessem. Por fim, o microtexto do livro seria a forma final para o livro representado; mas a entrada do livro estaria sempre sujeita às mudanças decorrentes da descoberta de novas informações bibliográficas que, no passado, provaram ser bastante frequentes. Ressalta-se, que a estabilidade do texto e a instabilidade das entradas não asseguraria um bom casamento.

E uma vez que o catálogo de microfichas fosse limitado aos materiais de uso pouco frequente, a biblioteca continuaria a adquirir a maioria de suas publicações, para a sua conveniência e dos seus usuários. Por nenhuma outra razão, a forma dos livros poderia ou não ser substituída pelas microfichas. No futuro, a biblioteca conteria alguns dos seus materiais sob a forma impressa e outros na forma de microformas, com dois sistemas de catálogos correspondentes. Porém, uma vez que os usuários não vão à biblioteca apenas pelos livros ou microformas, mas pelas informações de que necessitam independente dos suportes, os dois catálogos teriam que ser integrados, se não fisicamente, funcionalmente. A equipe da biblioteca não poderia se confundir com o uso destes sistemas. Neste sentido, enquanto os materiais pudessem ser separados sob a forma de impresso e de microforma para gestão e manutenção da coleção, o catálogo não deveria ser dividido se quisesse continuar um guia confiável para pesquisa.

Em relação ao problema da capacidade de armazenamento da biblioteca, Henkle e Lubetzky salientam que Fremont Rider engenhosamente havia alcançado o futuro ao produzir um quadro impressionante sobre o crescimento das coleções e do catálogo bibliográfico. Ele descreveu um real oceano de impressos em crescimento contínuo (anual, mensal, diária, de hora em hora), ameaçando engolir não só a biblioteca, mas a própria civilização. Rider ecoava antigo presságio: "Nós parecemos ser rápidos, mas chegará o dia em que, a não ser que seja oferecido um serviço de bibliografia mais especializado, possivelmente a civilização pode morrer asfixiada, sufocada em sua própria quantidade de informações impressas”.

Para ele, era uma situação a exigir operação cirúrgica. Como alternativa sugeria a microficha para reduzir o tamanho físico da massa crescente de impressos. Porém a verdadeira ameaça desta "multiplicidade dos impressos" residia na sua quantidade e não no tamanho do suporte físico; e a microficha preconizada por Fremont Rider não reduziria essa quantidade.

Segundo Henkle e Lubetzky essa situação era um problema do usuário e não só do bibliotecário, e o usuário deveria ser estimulado a sugerir soluções. Ainda, segundo os autores, era possível que a situação decorresse do habito atávico, existente no período, no qual havia escassez de fatos registrados e que quando fossem encontrados preencheriam uma lacuna vital em nosso conhecimento.

No período marcado pela superabundância do impresso, o problema não era preencher lacunas, mas a prevenção para com as montanhas de impressos gerados. O problema para a biblioteca e os pesquisadores/usuários não estava na aquisição de todos os materiais impressos, mas na seleção dos mesmos, que fossem representativos e dos seus registros, isto é, registros que exibissem as características dos conteúdos e as suas numerosas variantes, de maneira que tanto a biblioteca fosse poupada da tarefa de preservar a volumosa quantidade de impressos de valor duvidoso, quanto os pesquisadores ou usuários, no futuro, fossem poupados das inúmeras horas de busca inútil em uma massa ilusória de "tesouros informacionais".

Henkle e Lubetzky destacaram que a profissão bibliotecária tinha uma dívida profunda com Fremont Rider por este lançar luz sobre o duro problema das bibliotecas, e descrever as potencialidades da micrografia e, também, da necessidade de uma catalogação centralizada que atendesse os problemas de espaço e de custo. Ambos os autores consideravam, por exemplo, que o futuro da biblioteca universitária conteria materiais em várias formas - livros, filmes, microprints e outras mídias que ainda não haviam sido desenvolvidas; além de bibliografias especializadas preparadas por estudiosos para orientar outros estudiosos na literatura das áreas; as bibliotecas na tarefa de aquisição intencional; e os catálogos para ajudarem aos usuários na identificação e localização das informações desejadas, em qualquer suporte disponível. O catálogo seria produzido cooperativamente para benefício de todas as bibliotecas, e seu formato definitivo ainda estaria no “colo do futuro”.

No relato, observa-se que mudando o contexto dos suportes, o problema persiste na atualidade. Migra do crescimento impresso para o aumento exponencial do digital. Agrega-se, ainda, a situação do catálogo bibliográfico que perdeu proeminência, mas os princípios da representação descritiva ganham um novo protagonismo, reconfigurado sob padrões ou esquemas de metadados e por protocolos de intercâmbio de dados que permitem lidar com o conteúdo no ambiente digital. As bases de dados e os repositórios de acesso ao texto completo se integram na disposição dos conteúdos. Enfim, uma série de recursos procedimentais e de instrumentos tecnológicos servem não só aos bibliotecários, mas a um vasto exército de profissionais de informação orientados à organização e tratamento da informação, na era do “Big Data”.

Indicação de leitura:

Henkle, H. H.; Lubetzky, S. The Future of the Research Library. The Classical Journal, vol.41, n. 3, p.108-112, 1945. http://www.jstor.org/stable/3292007.

Rider, F. The Scholar and the Future of the Research Library and Its Solution. New York City: Hadham Press, [1944].


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.