CAFÉ COM PÓS


A GUERRA DAS BOLSAS

Existem diferentes categorias de bolsas para instituições públicas dependendo do Estado em que sua Universidade está. No estado de São Paulo, por exemplo, temos as bolsas da Capes, CNPq e Fapesp. Neste texto falaremos um pouco sobre elas.

Após entrar na pós-graduação muitas pessoas se deparam com a comumente chamada entre os alunos de “Guerra das Bolsas”, que é quando os alunos se inscrevem no processo seletivo para as bolsas disponíveis no programa. Essa distribuição de bolsas diz respeito principalmente às bolsas da Capes e do CNPq, e as normas para essa seleção e distribuição são estabelecidas por cada programa de pós-graduação, e por isso o processo e algumas especificidades das bolsas pode diferir muito de programa para programa.

Mas o que é Capes e CNPq? 

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) foi criada em 11 de julho de 1951, no início do segundo governo Vargas, pelo Decreto nº 29.741 e, após diversas alterações durantes os governos, atualmente é “fundação do Ministério da Educação (MEC), [e] desempenha papel fundamental na expansão e consolidação da pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em todos os estados da Federação”. (FUNDAÇÃO CAPES, 2017, sem paginação).

Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi criado em 1951 e é uma agência do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), tendo como “principais atribuições fomentar a pesquisa científica e tecnológica e incentivar a formação de pesquisadores brasileiros”. (CNPQ, 2017, sem paginação).

A quantidade de bolsas disponíveis também depende do programa: a nota que o programa possui, por exemplo, influencia nessa distribuição (quanto maior a nota mais bolsas o programa deveria receber – o que às vezes não funciona muito na prática pois a diferença na distribuição não é tão significativa).

A distribuição das bolsas é chamada de “guerra” porque a maioria dos alunos deseja esse apoio durante o seu curso, porém o número de bolsas não é compatível com o número de alunos. O que, obviamente, gera um ambiente competitivo assíduo, passível de muitas suposições e anseios.

Algumas falhas na clareza dos métodos avaliativos também estressa os que se candidatam, que muitas vezes se sentem lesados por desconhecer que determinada característica pontuaria ou não.

Esse período também traz à tona rivalidades entre linhas de pesquisa e orientadores. Algumas linhas se sentem prejudicadas durante o processo. No geral, observa-se sempre problemas políticos que geram muito estresse e desapontamento de alunos e professores.

Os programas tentam diminuir esses problemas revisando procedimentos e reorganizando comissões. De qualquer forma o processo sempre será complicado, principalmente para os que não conseguirão a bolsa por poucos pontos. No final além dos contemplados é relacionada uma lista de espera, ambas em ordem de classificação (pontuação).

No geral as pontuações são alcançadas com publicações: artigos de periódicos, livros, capítulos de livros, trabalhos publicados em anais de evento e resumos expandidos publicados em anais de eventos. A critério da comissão de bolsas também poderá haver pontuações para demais participações e produções. Há também diferentes pontuações para periódicos (Qualis), e esses costumam influenciar nesse momento. Alguns programas se baseiam exclusivamente em questões socioeconômicas.

Há também diferenciações no tempo da vigência da bolsa: em alguns programas o processo é anual, seja você contemplado no primeiro ou último mês do ano da vigência da bolsa – o que significa que se você recebeu apenas a 12ª parcela daquele “ano” terá que participar novamente do próximo processo e, se então não conseguir a pontuação classificatória, “perderá” a bolsa, mesmo tendo recebido apenas um mês.

Outros programas determinam uma permanência específica sem essa necessidade de renovação (se você foi contemplado receberá a vigência máxima em meses estabelecidos pelo programa).

Esses programas de vigência servem para manter determinada rotatividade das bolsas. Quem defende (o que significa a conclusão do seu curso), “libera” a bolsa para o próximo aluno da lista de espera, ou no caso de bolsas sem renovação, assim que totalizar a vigência, mesmo se o aluno ainda não terminou o curso, a bolsa vai para o próximo.

O que se pode ver é que o importante no caso dessas bolsas (Capes e CNPq) é acompanhar o regimento e calendário de seu programa e, em caso de dúvida, se reportar diretamente a ele. Evite tirar dúvidas com colegas sem antes ter certeza de como e quando eles se informaram pois, como esses regimentos e calendários podem sofrer alterações anuais, você correrá o risco de receber uma informação desatualizada e ser grandemente prejudicado.

Outra opção no Estado de São Paulo é a bolsa Fapesp. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) “é uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país”. Com autonomia garantida por lei (pelo menos por enquanto), está ligada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, “com um orçamento anual correspondente a 1% do total da receita tributária do Estado, a FAPESP apoia a pesquisa e financia a investigação, o intercâmbio e a divulgação da ciência e da tecnologia produzida em São Paulo”. (FAPESP, 2017, sem paginação).

Muitos alunos e professores simplesmente desconsideram a opção de tentar uma bolsa Fapesp por ver o processo como “difícil” ou “burocrático”. Na prática ela não é nenhum bicho de sete cabeças e pode ser uma excelente forma de aumentar o número de bolsistas do programa. Diferente do processo das outras bolsas mencionadas, o processo seletivo da Fapesp tem suas regras pré-definidas, e essas devem ser seguidas independentemente da sua instituição. A solicitação pode ser feita em qualquer época do ano e é realizada pela internet (no sistema Sage), e não há impedimento se você já é bolsista ou trabalha (nestes casos você apenas assina um documento em que se compromete a finalizar o outro vínculo caso seja contemplado).

Embora exija diferentes documentos e um projeto no momento de solicitação da bolsa, o processo possui lógica e consistência, e o site da Fapesp, além de tópicos de instrução e perguntas respondidas, possui um espaço para questionamentos que funciona muito bem e rápido. Além disso, sua instituição provavelmente terá um setor que poderá auxiliá-lo nos assuntos relacionados à Fapesp (na minha instituição temos o escritório de pesquisa que é um excelente apoio aos bolsistas e aos que estão solicitando a bolsa).

O processo de avaliação da Fapesp pode demorar bastante (até uns 3 meses), por isso é importante fazer a solicitação o mais breve possível. Uma vez que o bolsista seja aprovado no processo, ele receberá a bolsa por toda vigência liberada, sem necessidade de novos processos seletivos. 

Independente do estado em que sua instituição estiver, converse com os escritórios de apoio à pós e pesquisa para se informar das opções. Conversar com outros bolsistas também pode ajuda-lo a se preparar para os diferentes processos seletivos, eles podem ter valiosas dicas.

Bom, mas o que envolve ser bolsista? O que ganham os que vencem a guerra? Posso perder minha bolsa?

Em termos financeiros, os valores das bolsas também diferem de órgão para órgão, e podem incluir outros benefícios, como é o caso da Fapesp, que possui Reserva Técnica.

Mas, além da ajuda financeira, os bolsistas também ganham muito trabalho. Essas bolsas são um apoio para o desenvolvimento de uma pesquisa na pós-graduação e exigem comprometimento e responsabilidade.

Participação em Grupo de Estudos e em eventos (nacionais e internacionais), publicações, e envolvimento em projetos de professores e/ou instituições são importantes na atuação do bolsista. Ele deve estar comprometido em desenvolver sua pesquisa com excelência, dando crédito ao seu financiador em seus trabalhos.

Há também exigências nas bolsas, e sim, você pode perder a bolsa se desconsiderá-las. Essas exigências mudam de bolsa para bolsa, mas podem envolver participações em determinadas atividades, notas em disciplinas, relatórios, etc. É importante se informar de todas elas, afinal farão parte de seu trabalho.

Não há tranquilidade prática na vida de bolsista. Alguns acham que quando você tem bolsa você deixa de trabalhar, mas o que acontece é que quando você tem bolsa você nunca para de trabalhar, e a responsabilidade aumenta – e isso pode até mesmo virar um problema (que discutiremos no próximo artigo).

De qualquer forma, é um apoio extremamente importante no desenvolvimento de uma pesquisa (principalmente Tese) por possibilitar uma dedicação que pode ser difícil (mas não impossível) de ser conciliada com uma atuação profissional (mas isso também virá em outro artigo).

Assim, arme-se com conhecimento e suprimentos – informação sobre os processos e um currículo (e talvez projeto) caprichados! A guerra é dura, as vezes você terá que participar de mais de uma batalha, mas vencer é sempre possível se você se organizar para isso. Fuja da sorte, lute!

Referências

CNPQ. O CNPq. Disponível em: <http://cnpq.br/apresentacao_institucional/>. Acesso em: fev. 2017.

FAPESP. A FAPESP. Disponível em: <http://www.fapesp.br/sobre/>. Acesso em: fev. 2017.

FUNDAÇÃO CAPES. História e missão. Disponível em: <http://www.capes.gov.br/historia-e-missao>. Acesso em: fev. 2017.


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HELOÁ OLIVEIRA-DELMASSA

Doutoranda em Ciência da Informação na Unesp - Marília, Mestra em Ciência da Informação pela Unesp - Marília e Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Estadual de Londrina.