LEITURAS E LEITORES


NA NOSSA PELE

De passagem por uma livraria com amigos, deparei-me com Na minha Pele*, de Lázaro Ramos. Na capa do livro, encontrei-me com o olhar penetrante e direto do escritor: apenas a metade direita do rosto a me espreitar com expressão serena, um misto de convite e desafio para ler o que ele tem a dizer.

Meu primeiro impulso, já com o livro na mão, foi ceder aos pensamentos: “mais um global... será que valerá a pena?”. Quase desistindo quando me vieram outros pensamentos: “Você é fã dele”! Acompanha-o em parte dos trabalhos que realizou para o cinema? Sim. Para a TV aberta? Sim. Assistiu ao seu programa de entrevista? Sim. Considera-o coerente? Sim. Enfim, deixei meu inicial preconceito e assumi que valeria a pena seguir em frente com a leitura.

Se pensar em tempo cronológico, passei aproximadamente três semanas para fazer a leitura de Na minha pele, pois essa intrusa leitura surgiu em meio a caldo de outras “mais sérias” que teria que fazer. Por fim, a leitura do livro de Ramos tomou-me. Só comentava sobre ela com amigos! Citava trechos. Sempre encontrava uma brecha para trazer o assunto à baila. Assim, o tempo psicológico com o livro ampliou-se. Cooptou-me os pensamentos, até que eu me dispusesse a escrever este texto.

A narrativa de Ramos transita do homem comum ao homem público, desvelando corajosamente para o leitor uma parte de si mesmo, de suas angústias, alegrias e da luta, perene e pública, contra o racismo. O enredo é costurado por um fio de ternura, do começo ao fim.

Mãe, você morreu em 21 de julho de 1999. A partir desse dia passei um ano sem motivação. Um ano inteiro [...] Muita coisa mudou desde então. Seu menino magrelo percorreu muito caminhos. E, mesmo depois de tanto caminhar, ainda me pergunto quem sou eu [...] (p.15)

Das origens na Ilha do Paty até o Bairro da Federação em Salvador, o leitor é levado a compreender um pouco melhor a vida do menino cuja sensibilidade o fez observar o mundo ao seu redor, senti-lo, guardá-lo em dois lugares especiais: coração e memória. Lázaro resgata para aqueles que o leem a importância das raízes que nos sustentam, em especial, a familiar.

Na minha pele é envolvente, entre outros aspectos, pela pesquisa e referências que Ramos generosamente oferece ao leitor. Diria didático, na melhor acepção do termo, no que conflui a atuação de um educador; pois leva o leitor a entrar em contato com o imaginário e a cultura de suas origens desde a Ilha do Paty, na Baía de Todos dos Santos, passando pela da sapiência de avó Edith, de Dindinha até estudiosos, pesquisadores, artistas, tais como Zebrinha, Bando de Teatro Olodum, Muniz Sodré e Abdias do Nascimento, por exemplo.

As citações a obras, estudos, leis, artistas, teses surgem integradas à narrativa, de modo a dar suporte ao que o autor quer dizer, reafirmar. Tudo coerente, num ritmo de conversa, sem academicizar, entretanto, sem desprezar os estudos e ou pesquisas que deles advieram.

Durante a leitura, quando me vi, estava buscando muitas das referências que não conhecia até então: Ubiratã Castro, Luiz Gama; Lara Vascouto, Milton Santos, Claudete Alves, Joel Zito Araújo, instituto Geledés e o grupo Geema. Além disso, comecei a rever algumas participações e atuações do ator Lázaro Ramos.

No universo textual, discursivo, vivencial de Lázaro o leitor se encontra com trechos, tais como:

Para ser sincero, eu nem mesmo ouvia o termo negro dentro de casa. “A gente, que é assim, tem que andar mais arrumadinho. A palavra “assim” dizia tudo e nada ao mesmo tempo [...]” (p.35)

[...]

[...] os negros são a maioria da população brasileira, mas a minoria na televisão [...] (p.83)

[...]

Recusei muitos trabalhos em que teria que usar arma de fogo. Recusei porque a imagem que ficaria era de um negro com uma arma na mão... e isso num contexto de normalidade. Essa cena me apavorava. [...] (p.99)

[...]

Me resta torcer e trabalhar para que o Brasil se torne um país onde todos sejam vistos como iguais, porque isso o tornará potente. Não se trata de reparação, mas de potencialização humana, social e econômica [...]. (p.143) 

Enfim, me rendi ao texto de Ramos. Envolvi-me, continuo assistindo, lendo e refletindo, pois essa obra ampliou minhas referências e continua a me instigar a conhecer mais de um universo que julgava saber um pouco, mas que preciso de referências mais consistentes.

Comecei a ler o Livro que fala da pele do Lázaro, aquela pele que não era a minha, mas à medida que a leitura avançava e adentrei à narrativa, reconheci que se tratava da minha própria pele, da pele do nosso país, da nossa pele!

*Obra: Na minha Pele – Lázaro Ramos / Editora Objetiva, 2017.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.